"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Rascunho: ANÕES, ou da pequenez humana... [3]


...Pela janela dos fundos, além dos telhados seculares, a visão da Torre de Esmeralda levantada a beira do rio Yangtzé, uma das belezas pós-modernas desta misteriosa cidade, palco de muitas das mais espetaculares loucuras dos últimos mil e setecentos anos... E é pelo Rio Yangtsé que ininterruptamente deslizam barcos de todos os tamanhos, uns com cargas invisíveis, outros com algo parecido a ferro, carvão, chá, peças manufaturadas, containers imensos e lotados de porcarias conduzidos por cinco ou seis marinheiros aparentemente ébrios e alheios a este mundo como o eram os antigos piratas asiáticos.  Aponto minha teleobjetiva num deles que vai sentado sobre a escotilha, aliás, sobre a proa, fumando um pequeno cachimbo com arremates de prata e a imagem recorda aquele corsário famoso Pinyin Zehng Zhilong que, por ter sido batizado pelos portugueses de Macau passou a chamar-se: Nicolau Gaspar... Nicolau Gaspar!? Quê nome esdrúxulo para um bucanero! A propósito, quê lugar do planeta os portugueses não salpicaram de veneno com seus anzóis e com seu Lusíadas? 
Quantos demônios, dragões, morcegos, entes extragalácticos deviam surgir na fumaceira daquelas antigas pipas enquanto incineravam seus pedregulhos de ópio!!!
Os navios se entrecruzam levando mercadorias de terceira qualidade, excrementos da "prosperidade" que deslizarão pelos cinco mares e acabarão chegando a todas as conhecidas Feiras-do-Paraguai e Feiras-livres-de-Miami para daí se infiltrarem como bacilos em todos cortiços caribenhos e latino-americanos...
No meio da noite ou já de madrugada, quando normalmente estou me refazendo de um ou outro pesadelo com dragões e perolas, com demônios, cachimbos e deuses da Dinastia Mongol ou simplesmente com as fotos em P&B da Grande Marcha, costumo ficar a espreita de seus apitos, quase sempre graves. Existirá algo mais "lirico" e insinuante que o apito de um navio no meio da noite? E é imediata a ambiguidade de sentimentos e de emoções que me causam, só comparada mesmo a cantoria dos galos que, aliás, até agora não ouvi por aqui. Muita gente pensa que os, sinos, os sinais de luzes ou os apitos são apenas saudações que os marinheiros estão dando às putas que deixaram no cais, mas não é isso não. Cada um tem seu significado. Um apito curto, por exemplo, quer dizer aos outros navios: estou guiando para estibordo. Dois apitos curtos: estou guiando para bombordo... e assim por diante... 
A volta ao mundo! Ter descoberto que a terra era redonda foi um golpe duro no imaginário daqueles que gostariam de partir em linha reta sem ter jamais que voltar. Mas não, gira-se, gira-se, gira-se e se está sempre no mesmo lugar... Que indigência!
Quatro apitos, dois graves e dois mais agudos ao mesmo tempo. Chegando ou partindo? Os dois momentos cruciais de qualquer aventura, de qualquer viagem e de qualquer vida!.. No meio só costuma haver bobagens, carências, ficções, besteiras, ansiedades.
O que há no amanhã, doutor? No amanhã, minha senhora? No amanhã não há absolutamente nada!
Veja aquele homem que vende tesouras ali na esquina... É apenas um esqueleto que se move. Ligando uns de seus ossos aos outros há apenas carne e ligamentos, dois materiais facilmente perecíveis. Se não estivesse disfarçado sob a roupa, entenderias mais facilmente o que lhe digo.... Não é nada. Se não existisse, em nada alteraria este e qualquer outro momento. Seus olhos são duas bolotas de água, o cérebro uma nós sanguinolenta, seus dentes são como estacas para protegerem a entrada do grande túnel que se abre entre seus lábios... Pensa que enxerga, mas é tudo ilusão. Sombras... (mais radicais ainda que aquelas da metáfora platônica) que o sol projeta nas estalactites multicores da caverna... Pense bem: quê sentido tem passar a vida vendendo tesouras? Haverá algo mais idiota que uma tesoura? Sim, inútil, mesmo que imagines a uma mulher míope usando-a para cortar alguns pentelhos ou uma peça de seda e depois bordar um dragão vermelho ou o Temple of God sobre ela... Veja o barbeiro corcunda e tagarela devastando a barba espessa de um mandarim... Para quê? Para que a tesoura, a seda, o dragão vermelho, o barbeiro, os pentelhos, o Templo de God e o mandarim??? Os seres, e o homem em especial, não valem e não servem para quase nada! Detestem ou não a ordem estabelecida. Intriga-me saber que aqui na China quando executam um traidor, algum marginal, algum inimigo do Estado ou algum herege político com um tiro na nuca, mandam para a família ou para o clã do morto, além da fatura, o cartucho vazio e a bala ensanguentada. Será que é só para comprovar que o gasto foi efetuado? Para estender sobre os ancestrais do morto a mesma ameaça.., ou para dar consciência da mixaria que se vale? Haverá maior ceticismo e maior niilismo do que esse! É até cômico pensar que um soldadinho de bosta desses que circulam por aí, é capaz, apenas com sua pistola, de dar de dez a zero na pretensão de Schopenhauer de ser o pai do ceticismo... E dizem que brevemente irão construir a maior torre do mundo. Para quê?, não sei, mas acredito. Com mais de um bilhão de esôfagos disponíveis poderiam, se quisessem, até retomar, e com sucesso, aquele projeto falacioso de Babel, chegar aos céus e vender também por lá suas bugigangas a Buda, a Krishna, a Jeová, a Cristo, a Maomé... a quem mais mesmo??? E saber que muita gente (até letrada!) acredita piamente que aquele bando de ignorantes e de impostores bíblicos realmente existiu! Onde ficava mesmo a encruzilhada entre o Tigre e o Eufrates? Apesar de alguns babacas queimando incenso por aí, parece evidente que também para os chineses Deus é uma hipótese inútil!!.. Nunca houve e não há céu e nem divindade alguma! Tanto para “cima” como para “baixo” como para os "lados" só há nuvens, imensidão, velocidade, tofú frito, geleiras, falta de ar, tempestades de granizo, funcionários fazendo tai chi chuan, silêncio, bicicletas estacionadas, solidão, vazio... vagabundagem eterna... Quer mais?..

2 comentários:

  1. E aqui vão trocar os torturadores... Após vencer o obstáculo "de como chegar ao trabalho", que era o que mais eu temia quando me mandaram de volta para o Rio de Janeiro - O deslocamento para o centro da cidade, e o retorno para o meu dormitório - Não saberia dizer o que é pior: passar oito horas presa em uma "baia" sem fazer nada, ou as duas horas de trajeto de casa para o trabalho e vice-versa; isso sim é o inferno... Cheguei hoje um pouco mais tarde que o habitual, e ao entrar no recinto, um dos puxa-sacos vem em minha direção dizer que o gerente foi promovido, e que iria embora... Bem, como estou no "exílio", seria apenas uma troca dos "torturadores", mas dessa vez quem vai se deslocar é o gerente, e para cima, talvez dê menos trabalho, porque já plantaram uma porrada de "dedo-duros" dentro da gerência para me vigiar, e iria dar trabalho plantar outra equipe em outra gerência... Estou rodeada desses mercenários que recebem vantagens de empresários/políticos/militares para me vigiar, e o pior é que os "espertinhos" acham que eu não sei, e eu me faço de idiota... Independente de quem venha ser o próximo "torturador", eu já estava pronta para trabalhar em outro lugar, porque aqui não há mais clima... Não dá para passar oito horas do dia, sabendo que se está sendo vigiada, e o pior, quando cheguei aqui nessa gerência eu fui humilhada e destratada por todos eles, a mando do próprio RH, é mole? Na realidade, eu fui "expurgada" da Empresa, mas como sou concursada, e já tenho quase trinta anos de casa, vou esperar atingir a idade mínima para me aposentar, que é em torno de 53 anos... Até lá eu finjo que trabalho, eles fingem que me pagam, os mercenários ganham seus benefícios para me vigiar, e os ex-gerentes vão sendo promovidos... Estou ficando cansada desse circo...

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  2. Nesses últimos dezessete anos eu tentei de todas as formas “fingir” que não estava exilada, e até arrisquei tentar sair do exílio, mas todas as tentativas foram frustrantes... Apenas nesse ano eu tive consciência do PODER de quem está por traz desse processo, e de que nada adianta eu confrontar, ou tentar romper as barreiras dessa “prisão”. Militares, políticos, empresários e o judiciário comandam essa ação, ou seja, estou nas mãos deles, e de toda a sociedade, porque tudo “gira” em torno dessa cúpula. Sem recursos financeiros, isolada socialmente, e dependendo de um mísero salário para manter minhas necessidades básicas, tornei-me um rato de laboratório. Presa e isolada, eles monitoram e controlam todos os meus passos. Uma equipe de “terapeutas contratados” acredita saber as minhas necessidades físicas e emocionais, e brincam de deuses, decidindo o meu destino, plantando pessoas para eu me relacionar, e criando “falsas atribuições”, no trabalho, para eu me sentir útil, porém sempre rodeada de “gente deles”, e isolada socialmente. Tudo isso com objetivo de desestabilizar-me emocionalmente, até que eu cometa o suicídio. Em certo momento eu cheguei a duvidar se tudo era realidade ou fantasia, mas essa dúvida acabou depois que plantei algumas escutas nos ambientes que eu freqüento: no trabalho, no edifício no qual estou residindo, na academia de dança que tentei freqüentar, no edifício da D. Carmem, na D. Fernanda, nos consultórios dos meus ex-terapeutas, na residência de algumas pessoas que foram “plantadas” para saírem comigo, e em outros lugares afins... Tenho plena consciência que essas gravações não servem como prova aqui no Brasil, porque estou sem direito à justiça, ou seja, o judiciário é deles; talvez possa ter algum efeito em um Tribunal Internacional, mas vou ter que aguardar...

    Esse processo gerou um sistema de pessoas no qual as engrenagens são movidas a: suborno, articulação, propina, benefícios e favores, onde todos estão engendrados, e cada um ganha o seu, e a maior lição que tirei disso tudo foi identificar a mediocridade da alma humana e a ausência de valores. Uma vez me disseram que todos os homens têm o seu preço, e que só depende do valor, e eu rebati recusando todas as ofertas que me foram propostas, e na época eu não entendi quando me disseram que eu iria morrer como mártir. Na ocasião tomei o comentário apenas como uma ameaça por ter rejeitado participar dos processos ilícitos, mas hoje, vendo todos “me venderem” eu entendi o significado da frase... Após dezessete anos, consumando-se todas as perdas, percebi que sou “diferente”, e de que perdi minha vida por causa dos meus valores éticos e morais, que na realidade só existem nos livros e nas palavras avulsas de alguns pregadores de “promessas”...

    A perseguição terminou, mas não porque eles conseguiram atingir o objetivo deles, mas porque eu desisti de viver e sem enlouquecer, ao contrário, mais lúcida do que nunca, porque tive a oportunidade de constatar o que é a raça humana, e saber que eu também sou um desses, nem melhor, nem pior, talvez um pouco diferente dos demais... Infelizmente eu não aprendi a roubar, a me vender, a matar, a escravizar, e nem a ser covarde, e vou morrer assim – em vida, diferente dos demais; morta, igual a todos os mortais...

    Acabou.







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