"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pedofilia, ignorância e paranóia...


Você que tem de 10 a 80 anos ainda se atreveria a dar um abraço, pegar no colo ou a fazer um afago carinhoso na criança com quem cruza acidentalmente no zoo, num shopping ou numa feira? Duvido! O risco de ser acusado de pedófilo e de ser preso, mesmo sendo apenas um pré-adolescente assexuado ou apenas um velho solitário e brocha, é imenso. Ontem, inclusive,  expulsaram do país um diplomata iraniano sob a acusação de que estaria sendo inconveniente ou abusando lascivamente de oito ou nove meninas na piscina de um clube. O Itamaraty foi acionado (mas, logo o Itamaraty!) e a embaixada persa teve que explicar-se. Alegou ter havido um mal entendido, um choque de culturas etc., e apressou-se em despachar o leitmotiv das suspeitas para Teerã... Pode ser!? Os pais das crianças, entretanto, envenenados por ocorrências semelhantes no dia a dia de nosso manicômio urbano, se viram tomados pela paranoia.
Claro que não há nada de novo nesse particular. O que continua obvio, sem voltar a falar nas manjadas teorias freudianas da Sedução e da Fantasia, é que não apenas o abuso sexual de crianças mas a sexualidade em si tem vindo pelos milênios a fora como um nó górdio e, evidentemente, deixado atrás de si destroços de loucuras e de crimes um mais esdrúxulo que o outro.
Nesse momento, com as prisões quase lotadas desses bizarros “sedutores”, como fofoca e numa tentativa, talvez, de retardar um pouco a desintegração completa de nossos agrupamentos sociais, as perguntas que mais se ouvem por aí, desde os quarteirões da insensatez até os redutos da intelligentsia são mais ou menos as mesmas:
O que se poderia fazer para provar que um determinado ato tem ou não tem intencionalidade perversa?
Como estabelecer uma fronteira, o mais distante possível da subjetividade e do rancor, para não tornar o cotidiano ainda mais sexo-paranóide?
Como deixar as crianças a salvo dos pedófilos sem contudo enclausurá-las numa teia de horror e de moralismos que virá a tornar sua futura sexualidade numa usina de recusas e de angustias patológicas?
Como não interditar pelo medo a transação lúdica e afetiva necessária entre o mundo adulto e o universo infantil, coisa que até mesmo entre os macacos é algo imprescindível?
Como não cair no atraso, na pieguice e na ignorância de sexualizar a sensualidade, de criminalizar um simples abraço, um olhar, uma palavra, um carinho?
Como não projetar nas crianças o medo, a malicia e a fobia, assim como a neurose sexual dos adultos e das instituições vigentes?
Como não sexualizar aquilo que não é sexual como fez a igreja católica durante séculos, engendrando milhões e milhões de desgraçados, reprimidos e infelizes?
Como não satanizar o “outro” mais do que já está satanizado?  E, por fim, como administrar os “viagras” e os tantos outros tipos de excitantes químicos, orais, auditivos e visuais que a “modernidade” tem oferecido gratuitamente a qualquer um, a qualquer  tempo e a qualquer hora e que, sem beneditismos, têm perturbado, adoecido e empurrado a tropa masculina de todas as idades para as clinicas ou para a cadeia?
Onde ir buscar respostas? Para os mais céticos, ao invés de um prêmio, como alguns bípedes continuam acreditando, a sexualidade se revelou um castigo e um sintoma. Com os dois bonecos já prontos, vendo que na expressão deles havia quase o distanciamento do autismo, o cínico demiurgo tomou mais um punhado de lama e agregou nela, junto à vulva, um clitóris, e nele, na parte superior das bolas, um pênis. Ide atormentar-vos mutuamente pela estupida solidão da terra – teria decretado com sarcasmo. De lá para cá, uns estão por aí até hoje estuprando-se e comendo-se mutuamente; outros mudaram o objeto da neurose e se esfolam do jeito que podem; outros deslocaram sua tara para as crianças; outros para os animais; outros para os velhos e outros, enojados de toda essa barbárie e dessa triste e interminável negociação de fluidos, inventaram o fervor onanista... Se consultado, Cioran nos lembraria: “Só os monstros podem se permitir ver as coisas como elas são...

4 comentários:

  1. A prostituição e as neuroses só tendem a aumentar. A monogamia, por exemplo, é um anacronismo extremo. A hipocrisia geral sobre a questão sexual resulta do seguinte: a maioria é mal resolvida nessa área, seja na quantidade ou na qualidade ou em ambas. Ao invés de tentar se resolver, muito(a)s nem querem saber do tema. E pior: satanizam o sexo (muitos religiosos, dentre outros boçais, deveriam considerá-lo como ato mais sublime, divino), inclusive adotando essa postura perante os próprios filhos.
    Lembro agora do Cioran: "Todos os seres são infelizes; mas quantos o sabem?".

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  2. O Sexo Existe para Adestrar As Pessoas Para Procriação, Por Isso Que Existe religião e se não existe o sexo muitos meios teriam seus fins.Bom, Acho Que não Posso Ler Mais Alice No país Das Maravilhas ou Alice No país Dos Espelhos. Posso Ser Chamado De Pedófilo Por Causa Disso.Bem Obrigado pelo Espaço.Brasil 500 De Surrealismo.

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