"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

OS GALOS, OS EMPADÕES E OS MASCARADOS DE PIRENÓPOLIS...

Todos os anos, há mais de um século, a cidadela de Pirenópolis, em Goiás, encena durante as Festividades do Divino, a briga entre cristãos e mouros, anedota que vem lá da época das ditas Cruzadas. Uma bobagem que para o bem da espécie já deveria ter sido esquecida, mas que é eternizada porque rende muito à igreja, aos políticos da região e principalmente aos donos de pousadas cujos preços, nesta época, ficam mais altos que os de qualquer outra metrópole do mundo. Eu, particularmente, compareço sempre e por três razões: a fogueira, que é levantada quase em frente à Matriz (reformada recentemente por uma verdadeira fortuna); os mascarados, que exibem  as mais tenebrosas coreografias sobre seus pangarés e, claro, os empadões que se pode comer em qualquer boteco. Estas são, cartesianamente falando, as razões que me fazem estar sempre lá nesses dias, mas há outro motivo, e este, de ordem simbólica, que faz da cidade, para mim, algo especial: o canto dos galos. Quem já pernoitou lá sabe que pelas cinco e meia da madrugada começa a cantoria. Um abre o peito em baixo da janela, outro responde de imediato lá nas margens do Rio das Almas. Um terceiro se apresenta nos fundos do pátio de uma prataria que é logo contestado pelo que habita uma casinha modesta na encosta dos Pirineus ou por outro que está confinado numa gaiola da feira e assim por diante durante uma meia hora. Então, misteriosamente, voltam a emudecer e a devolver um silêncio quase mortuário à cidade. Um dia, talvez, ainda chegaremos a descobrir o que cada um desses pobres galináceos, desde seus haréns e de suas trevas pessoais transmite e revela para os outros.

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