"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Thriller & mais uma sessão fúnebre do Senado


Um homem septuagenário, com aparência de beduíno vai à tribuna para discursar, longa e prolixamente sobre a cloaca em que está transformado o Senado. Gesticula, desenterra o finado Ulisses, o velho Tancredo e até mesmo o legendário Getúlio. Exibe manchetes contra o Presidente da casa e pede solenemente sua renúncia. Os sete ou oito gatos malhados que ocupam a platéia se agitam e pedem apartes. O homem que preside a mesa tem um nome bizarro e cita gratuitamente a Rui Barbosa, a Voltaire e até a Clemenceau. O apartante discorda do beduíno. Forçar a renúncia é golpe! – diz em pompas. Outro pede a palavra. O beduíno está cada vez mais seguro de si. Rodeios lingüísticos para defender o indefensável. As palavras e as frases vão e vêm como meretrizes na boca daqueles homens que custam, cada um, uns cem mil dólares por mês ao populacho. O quê estamos fazendo aqui? Se pergunta o orador principal. Porrrrrra nenhuma! Respondem telepaticamente os velhinhos aposentados que estão atentos em suas mansardas. Pequenas irritações, mini surtos sob controle, apologias repulsivas. O microfone falha. Os chefes do botim assistem tudo de casa pela TV bebendo champagne e fumando charutos. Vossa Excelência pra cá e Vossa Excelência pra lá. Outro personagem toma a palavra com sinais visíveis de senilidade. Dá voltas pelo universo da prolixidade. Pede desculpas, apóia o beduíno. Teatro e espetáculo. Um marqueteiro e um suplente falam ao mesmo tempo, o primeiro volta a glamourizar a casa. Todos falam em democracia e até mesmo em inveja cristã. Ao mesmo tempo em que pedem para Sarney afastar-se sacralizam seu passado e seu presente. Um careca aparece para ler meia página enviada por um neto do chefão do Senado. No texto a informação sutil de que o próprio foi aluno na Sorbone e em Harvard. Suspiros na platéia e nos lares! A plebe e os novos ricos adoram mistificações. O bate boca prossegue pela tarde, apesar da grande maioria ter ficado em casa vendo futebol. Gooollll! Gollll! O clima é de um grêmio estudantil. Todos têm opiniões diferentes, mas concordam em tudo. Chamam a isso de democracia, ética, liberdade de expressão. Cem mil dólares mensais a cada um! Unuhunnunn!... E a ralé engordando sob as pontes ou em suas gaiolas com as migalhas da cesta básica. Os nobres senadores não sabem ainda que lá em Los Angeles o bailarino pedófilo bateu as botas, se soubessem seriam capazes até de deixar cair algumas lágrimas, daquelas frias e fúteis que na antiguidade deveriam deslizar até pelos focinhos das hienas.

Ezio Flavio Bazzo

4 comentários:

  1. O nosso país é uma piada sinistra. Um sujeito como o Sarney é eleito imortal da Academia Brasileira de Letras. Esperávamos que a História jogasse esse bigodinho na lata do lixo da política brasileira, e vem a ABL e o alçou a condição de imortal… Francamente! Esse fantasma vai nos perseguir ad eternum, como um estigma que jamais se apagará no caráter dessa nação…

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  2. em resposta às ofensas que as leis e seus senhores nos fazem, nos coloquemos acima da lei. mas em desígnios secretos. como um tipo de máfia sem o egoísmo de um proto-estado, mas uma sociedade ilegalista. pois sabemos que não impediremos a lei. pelo menos a colocaremos para atuar no subterrâneo. com isso arrastamos as representações teatrais dos ditos governantes para o submundo das baratas e dos ratos. criemos um jogo de azar contra-social, com pontuações e apostas a dinheiro. poderia funcionar do mesmo modo que o chamado ratfucking descrito por berstein e woodward no filme 'todos os homens do presidente'. a diferença é que nós seríamos a banca e como sabemos "a banca nunca perde".

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  3. Este gatão dormindo sobre a "desfaçatez da raça humana" ilustrou maravilhosamente este artigo mas o mais triste nisto tudo é que no Brasil nada se salva, nem o senado nem coisa nenhuma.

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  4. Para ilustrar o comentário precisava de uma foto de um peixe boi e do senador lacaio de banqueiros
    Heráclito Fortes.
    Acho que o peixe boi me lembra muito a cara dele.
    Sergio Caldieri

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