"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Em breve, nos semáforos e nos botecos da República...




Apesar dos aromas, dos cosméticos e do silicone, continua medíocre e execrável o destino humano. A mesmice de alguns minutos de felicidade e décadas de infortúnio! Duas horas de cachaçada e um dia de vomitação! Um mês de férias e onze de servidão! Vinte minutos de ereção e incontáveis horas de molenguidão. Um ou outro ser de talento e numerosos exércitos de mocorongos flertando com a burrice. Setenta anos soltos por aí dizendo asneiras e focinhando a existência para, em seguida, serem atirados na eternidade e soterrados no nada...

Mesmo assim nunca se teve noticias na história do mundo de um outro ser que implorasse tanto para seguir existindo, para trabalhar, para ser acorrentado a uma escravidão, a um amor, a um vício, a uma fé, a uma pátria, a uma bandeira, a um frontispício de bordel... e que gastasse a vida ingenuamente tentando converter o supérfluo em necessário... Nunca se soube de outro ser que suportasse com igual submissão tantas idas e vindas do trágico à frivolidade e nem que fosse tão obcecado como este, tanto por elogios indigestos e pela ficção de sua própria glória, como pelo horror de seu inevitável funeral!

Por teimosia e vindicta, eis-me aqui, outra vez, numa esquina sem nome e nos confins da terra jogando pérolas aos porcos e tentando através de mais este palavrório rústico, vagabundo e em transe, anunciar alguma bobagem e desobstruir o cérebro. Empurrar goela abaixo de cinco ou seis leitores imaginários e ingênuos alguns disparates inúteis, alguns lugares-comuns, algumas reminiscências, algumas mentiras epifânicas e alguns foguetões de artifício travestidos de literatura...

Teatro do mundo! Encíclica de demências! Alfarrábio de indigências e de penúrias! Jargões de gente engagée! Espólio imoral da pequenez! Palavras recheadas de frouxidão e de fúria! Reunião de mentecaptos e de polichinelos! 64 anos de mentirada novelesca, de senões e de anões, de velhacarias e de embromação, esteio de toda uma vida de estranhamento, de burrice e de mendigues... Y, mientras tanto..., cada um com seu cânone metido sob o rabo!

 Você que está nascendo agora ou que está recém engatinhando, que se depara com essa burrice hegemônica e com essa multidão de bestas agarradas aos seus vibradores, computadores e celulares, é bom que saiba que tudo o que se faz no mundo, desde a Terra do Fogo até os confins do Afeganistão, é embromação, lero-lero, exibição, papo furado. Competição vil. Bufoneria, encenação, extorsão de afeto, transmissão de mal entendidos, projeção de neuroses, sofismas, entusiasmo crepuscular, fúteis lisonjas, enchimento de linguiça, poesia e inventário de vigarices. Luta contínua para dissimular o inferno e para digerir um mundo, como disse Léon Bloy, que não passa de um caos provido de urnas eleitorais. Lugar onde não se faz outra coisa além de correr atrás de comida, de dinheiro, de longevidade, de afeto, de poder, de “verdades”, de transas e de ilusões! Da ciência mais rigorosa à bruxaria mais ordinária; das artes e dos mais diversos saberes até os charlatanismos mais descarados, tudo é embromação. Circo de vilanias, complicações intelectuais para aplacar a fúria do tempo e a ânsia existencial... essa devoção senil em busca de alguma terapêutica celeste para o incurável escorbuto social, essa teologia partidária e para a inevitável desvalorização e aniquilação de si mesmo. E a literatura? E a poesia? E a filosofia? E a prosa, a dramaturgia, e o circo cult? E as ridiculizes populares? Tudo torcicolo moral! Ópio e purgante vagabundo, asfixiante e de má qualidade que as elites, os governos e outras vozes desse coro, todos eticamente liquidados, fomentam e usam para manter a plebe saciada e iludida de que “pensa e faz o que bem entende”. Uma espécie de renascença da safadeza. Basta ver a lista dos apoiadores dos ditos “eventos” para entender o quanto de cinismo e de chacota há nesse jogo de lunáticos, no qual, como já teria dito algum grego, fica mais do que evidente que “a ignorância é ainda maior que a maldade!”(pp.19,20)....................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................

2 comentários:

  1. Desagradável, desesperançoso, subversivo, sarcástico, iconoclasta: tudo em prol da máxima lucidez!!!

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  2. muito bom kkk me lembrei do dia em que fui demitido da porra do emprego e a gerente executiva me deu uma lição de "moral" cristã, retruquei falando algo parecido com este post embora não com o talento do Bazzo, é claro.

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