"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Albino Forjaz de Sampaio e a máscara... (do livro: Lisboa trágica)

"Vautrin ( personagem de Balzac na Comedia Humana ), consultado sobre o necessário para vencer, responder-vos-ia: Para vencer, é necessário em primeiro lugar uma boa máscara. Depois eloquencia, desembaraço, prontidão e sangue frio. Todos os requisitos de um bom bandido.
Não se trata de máscaras de cartão, de seda ou de veludo, encobridoras de desconhecidas gentis, misteriosas e fatais. Nem da dos embuçados espadachins das vielas da Lisboa antiga; nem da dos penitenciários, sombria e misteriosa; nem da dos conspiradores. Não é de nenhuma dessas. A máscara de que se trata é esta que todos trazemos afivelada, que simula e dissimula e finge e se mascara - a fisionomia humana.
A palavra é a máscara da idéia, como a veste é a máscara do corpo. A promessa é a máscara da recusa e a esperança a máscara da desilusão. Se a vida é luta, a máscara é arma.   Uma das mais engenhosas e sutis armas de ofensa e de defesa, mais eficaz do que o canhão, mais sutil do que o punhal e mais contundente do que o box. Os antigos gladiadores, quando os empurravam para a luta, recebiam uma espada curta para se defenderem. Pois bem! O destino, quando nos empurrou para a vida, deu-nos uma arma - a máscara. Saber fingir como um comediante consumado, saber mentir sorrindo, tendo a máscara forrada de lágrimas e presa por soluços; saber chorar, tendo cócegas na alma e gargalhadas nos ouvidos, é o ideal. A força deu lugar à astúcia. Hércules curva-se ante a lábia penetrante de Tartufo, de maneira que é Tartufo quem reina agora. A ciência da vida é saber representar. Toda máscara mente, toda. Desde a dos padres à dos reis, e desde a de Cristo à daquele vilão ruim, vilão pôrro, como lhe chamava Antonio Prestes, porque toda a máscara tem mais mentira, mais vileza e mais impudor do que a própria Bíblia.

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