"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Reflexões do mendigo K...


No último domingo encontrei o mendigo K.; na fila para visitar a nova Torre de Tevê Digital recém inaugurada aqui na urbe. Pelo mau gosto qualquer um adivinha logo que o projeto é do Niemeyer, mas ninguém, por mais astuto e suspicaz que fosse, poderia imaginar que aquilo tivesse custado mais de 80 milhões. Oitenta milhões! Você aí que mora numa das inúmeras bibocas medievais com esgotos transbordantes, água salobra, escorpiões no fundo das botas e homicídios diários etc., pegue um lápis e tente imaginar que outro destino se poderia ter dado a toda essa fortuna... Antes de entrarmos num dos três elevadores, apontando para a fila com um desprezo sutil, K.: resmungou: percebes como é urgente o controle da natalidade???  Subimos os 120 metros até o mirante ou belvedere, - como dizia minha tataravó - de onde se pode ver ao redor os vilarejos paupérrimos, cheios de cruzes, violentos e empoeirados e no centro a cidade inteira onde hiberna a desgraçada classe média com seus prédios brancos e simétricos que, vistos aqui das alturas parecem a fachada de um imenso presídio ou as tumbas de um cemitério. Dizem que entre os objetivos desta obra está o de servir de antena para transmissão digital de todas as emissoras privadas. Tudo bem, mas enquanto as emissoras só transmitirem merda e programas humorísticos, que vantagem terão os pobres candangos? O mendigo misturou-se sem cerimônia aos simplórios e deslumbrados visitantes, fez uma caminhada por todo o espaço daquela plataforma, olhou para o norte, para o sul, para o leste, ignorou completamente o lado oeste, voltou para o lado sul, correu os olhos pela geografia do lago e suspirou fundo, como se lhe faltasse o ar. Em seguida apontou-me a direção onde há muito tempo teve um pequeno barraco, onde viveu com sua mulher, filhos e um cachorro que se chamava Azorka, o mesmo nome do cão do velho Smith no romance Humilhados e Ofendidos do epiléptico Dostoievski... A mulher, morreu com tuberculose, os filhos por causas não identificadas e Azorka por um atropelamento. Ficou pensativo por um bom tempo. Depois, como num surto de nostalgia foi relatando como converteu-se ao ceticismo. Ainda criança, me decepcionei com os amores maternos e paternos. Ela que me parecia uma santa foi se revelando um espírito confuso, chato e violento, ele, do gigante que aparentava ser, foi convertendo-se no mais autentico dos bananas e dos anti-heróis. Meus irmãos, entre brigas, invejas e traições foram ingressando quase que naturalmente na bandidagem. As tias da escola, eram verdadeiras bobalhonas. As tias da igreja, no mínimo insensatas. A linguagem, apenas um instrumento ferino. Os negócios, puras trapaças. O Estado, uma tirania; as amizades, uma pantomima; o trabalho, uma escravidão; o capital, um roubo; a justiça, um poço de injustiças. O amor, uma pretensiosa ilusão; a fé, uma doença; o Salvador, um gigolô; a universidade, uma máquina de bacharéis; a cidadania, uma seita; os partidos, máfias; a honra, uma crendice; o corpo, uma usina de dores e um liquidificador sem nenhuma confiabilidade... Olhou-me de soslaio para ver se eu realmente o estava ouvindo e fez outro longo silêncio... Sabes por que isto aqui é fechado? – perguntou e logo concluiu: para reprimir o suicídio. Ora, contestei-lhe! Veja como todos estão satisfeitos e felizes, quem iria suicidar-se? Esses aí – cochichou – representam a desprezível tropa da servidão voluntária... dominarão absolutamente tudo e acabarão de rebaixar a terra a um subúrbio de indigência e de pior qualidade... Em seguida, olhando para as nuvens escuras que prenunciavam uma tormenta concluiu: atualmente só me interesso mesmo é pelos mistérios do universo e pelo funcionamento fascinante de todas as suas engrenagens...

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