"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Nos confins do Tocantins...


A pequena ilha fervilha com a agitação dos mil e tantos indígenas das mais de trinta etnias. No meio das nuvens uma lua crescente e nos fundos as aguas do antigo rio Tocantins, agora convertido numa represa. Como nós, esses povos também se debatem em desespero diante do imponderável e das condenações implacáveis do cotidiano. O que aparentemente nos diferencia é que enquanto fingimos querer “salvá-los” e “ajudá-los” eles fingem que nossa salvação e que nossa ajuda lhes servirá para alguma coisa transcendente. Na verdade não servirá para nada, apenas nos apropriamos de suas miseráveis existências para incrementar as nossas e vice-versa. E depois, querer obsessivamente mantê-los em “seu habitat”, não será uma estratégia sutil para mantê-los longe e a distância? Como fazer, tanto com eles como conosco, para manter intactos e toleráveis os limites de nossa mísera identidade? Quem disse que a selva com sua malária e com suas ziquiziras é preferível às perversões e aos caprichos da civilidade? Bobagens e idealizações semirreligiosas para lidar com o tédio e para passar o tempo! Um cacique dá as últimas cachimbadas da noite. Nenhum choro de crianças, apesar de serem muitas e de passarem o dia inteiro agarradas às tetas de suas mães. A competição de tiro com arco foi um fiasco, a grande maioria errou até mesmo o telão onde estava desenhada uma vermelha sucuri. Essa inabilidade pode nos fazer entender sobre eles em minutos muito mais do que os eruditos e chatos ensaios antropológicos em anos. Como já são, como nós, homens da pós-modernidade, é natural que saibam manejar muito melhor um fuzil e uma pistola de que uma flecha.

Amanheci com um ferimento na panturrilha esquerda. Um morcego? Um escorpião? Uma aranha? Um bicho-barbeiro? Um escorpião? Por via das dúvidas fui ao armazém da esquina comprar um spray de BHC e um lança-chamas. Os galos aqui da beirada do rio não cantam apenas de madrugada, mas também na hora da sesta. Das 13:00 às 14:00 é um inferno e uma cantoria sem fim nos galinheiros e nos terreiros das casas vizinhas. Um inicia seu canto em Sol natural, passa para Sol sustenido e termina num verdadeiro pizzicato. É contestado por outros três ao mesmo tempo, um em Mi, outro numa nota rouca e curta e um bem mais distante num em vibrato que, por sua vez, são desafiados por um quarto que usa a Escala cigana. Cantos vão e cantos veem e, curiosamente, das senhoras galinhas, nem um cacarejo e nem um pio. A sinfonia parece ser só deles, soberbos, guerreiros, o pescoço erguido sobre o harém, o passo maior de que as pernas, empoleirados sobre as cercas como se precisassem a todo custo serem temidos e notados...

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