"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A poeira da cocaína, o pedregulho do crack e as sementes de arruda II

A cidade está inflamada e excitada. Sempre que eclode uma nova denúncia de corrupção a população entra em transe. Os pacotes de dinheiro, as câmeras escondidas, a miséria humana exposta até o âmago, causam na comunidade um sentimento que ainda não foi muito bem descrito. A imagem dos três larápios “orando” depois de dividirem a grana deixou os evangélicos atordoados.

-Senhor! Senhor! Obrigado por fazer-nos corruptos! Por fazer-nos entender que só o dinheiro salva! Oh, Como és poderoso! Depois de ti só os pacotes de dinheiro! Tu que tens todo o poder do mundo, Oh, Senhor Amado, Aleluia, poupa-nos da polícia federal! Tu, em tua Onipotência, OH, Senhor, Aleluia! Aleluia! Sabes que roubamos para o bem das cidades satélites, para a salvação dos milhares e milhares de dejetos humanos que vivem na Extrutural, nos becos infectos, das castas subhumanas que lambem as nossas botas todas as manhãs quando chegamos aos nossos gabinetes. Senhor! Oh Senhor. Sabes que por nós o mundo seria diferente. Tu Senhor Todo Poderoso, Oh Senhor, que conheces nossa desgraça interior, defendei-nos dos invejosos e daqueles que querem o nosso mal. Amém. Aleluia!

Corruptos, corruptores, indignados e ingênuos vão às ruas. A idéia de um bode expiatório continua sendo uma grande panacéia. Apedrejar o corrupto fora-de-nós dá a ilusão de inocentar o corrupto dentro-de-nós. É por isso que os amigos e os outros partidos logo se afastam daquele que caiu em desgraça e pedem desesperadamente o seu aniquilamento. Quanto mais rápido for eliminado, melhor. É evidente que há algo mais do que simples moralismo ou simples eticismo nessa ansiedade e nessas manifestações. A corrupção e o sexo, - assuntos tão antigos como a espécie - incomodam tanto aqueles que os praticam como aqueles que são abstêmios. Alguns dizem até que a abstinência – nos dois casos – é mais perversa e mais libidinosa de que a prática. Já encontrei pessoas que defendem a corrupção até como forma política, antiestatal e de distribuição de rendas. Prática anárquica de sabotar o gigantismo estatal e o monstro descrito por Hobbes – dizem, justificando suas fortunas surgidas do nada. Os padres - que os ouvem e que os perdoam nos confessionários - dizem que é o demônio atuando através dos homens. Os advogados culpam as brechas da lei (lei que eles próprios engendraram). Os antropólogos dizem que essa prática é ancestral e que está na origem do ser. Os sociólogos insistem na ganância e na desigualdade social. A polícia acha que todo mundo é bandido mesmo e que diante de uma oportunidade qualquer um se corrompe. Mas as esposas e os filhos dos corruptos pensam diferente, consideram seus maridos e pais quase como super-heróis. Adoram ver as maletas, primeiro no porta-malas, e mais tarde, abertas sobre o criado mudo repletas de notas verdes. Algumas senhoras, como gratidão e felicidade, fazem impulsivamente um felatio ao herói, ainda engravatado. A boca tensa, os olhos cravados nas notas.

Ezio Flavio Bazzo

4 comentários:

  1. Este texto é uma preciosidade, especialmente pela oração do corrupto. Esta oração deveria ser reproduzida e distribuída nos meios governamentais do país. Santa corrupção!!!
    Obrigada, Bazzo, por nos brindar com sua lucidez e coerência.

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  2. A vida fica parece até menos escrota ao passar por aqui e ver que ainda existe lucidez nesse circo.
    Continue ai por nos, ô grande sabio do topo na montanha.

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  3. O maior culpado é o populacho que adora ser sistematicamente enganado por "santos do pau oco" nas eleições...

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  4. O maior culpado são aqueles que se arvoram de governantes e não passam de vendilhões da alma, da vergonha, do carater, da dignidade, e não conseguem governar sequer seu próprio nariz (enganadores, criminosos, demagogos, corruptos, falsários). O populacho não recebeu a educação devida para estabelecer diferenças, fazer a crítica, a reflexão necessária para conduzir nem sua própria vida. Populacho é rebanho, segue, caminha pelo caminho indicado, não pensa, infelizmente.

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