sexta-feira, 4 de abril de 2025
quinta-feira, 3 de abril de 2025
Como se a adolescência existisse... "Nas escolas sempre há cheiro de vômito, de repolho e de masturbação..."

Enfim, depois de tantos incentivos, assisti aos 4 rounds da Série Adolescência.
Um drama terrível, onde, como no cinema em geral, estão contidos todos os truques, as trapaças e as hipérboles morais dos cineastas e atores de plantão, com o intuito de fisgar o rebanho doméstico pela via do afeto, da melancolia, da culpa e do sentimentalismo barato... para capturar emocionalmente a turma passiva dos 'reinos' que normalmente não produz absolutamente nada, que é adicta, e que passa a vida inteira, em eternas ruminações, consumindo avidamente a produção dos outros...
Por ironia, ao redor do assunto tratado é que se via, mais bem, o retrato de uma civilização despedaçada...
Apesar do título, parece que o foco maior da série nem está centrado na adolescência (no pequeno e brilhante transgressor), mas na família, no PAI, na culpa, na loucura existencial e na solidão contemporânea... Um drama no coração do império! Lançado no mesmo momento em que na Palestina, só nestes dias, foram assassinadas centenas de crianças... umas até com menos de 13 anos... E tudo também filmado, editado, datado. Comercializado. Drama ou tragédia? Difícil estabelecer a fronteira. (e, curiosamente, sem provocar grandes comoções nos espectadores, nem mesmo naqueles que juram ser 'loucos por cinema...'...)
Também, nos subterrâneos das ideologias, parece evidente, que se pretendeu passar a ideia de que o sistema judiciário daquele país (apesar do assédio das câmeras por todos os lados) é exemplar, com os principais atores (negros e até um tal Malic 'árabe ou indiano?'), esbanjando bom senso, objetividade, lógica e simpatia'). O tenente e a sargento, por exemplo, são quase tão corretos, respeitosos, astutos e espetaculares como os detetives do Sherlock Holmes. E o humanismo carcerário é tanto, que espectadores mais frágeis e mais melancólicos correm o risco de até fantasiarem ser amparados por eles... A frase da sargento, com cara de nojo, enquando visitavam a escola, foi o máximo: "aqui sempre há cheiro de vômito, de repolho e de masturbação."
Além de um sofrimento incurável e de uma desordem emocional generalizada a série remete também às semelhanças morais, burocráticas e arquitetônicas entre o sistema carcerário e o sistema educaccional... A escola e a prisão. As tias do Sistema Educacional em colaboração com os tios do Sistema Carcerário... A praxis! Há um certo nexo entre a praxis da polícia, com a praxis dos advogados, a dos psicólogos e a dos professores... (todos agentes de um mesmo estado castrador e atores de um mesmo espetáculo... empenhados num mesmo fim)
A angústia no diálogo entre a psicóloga e o réu, foi espetacular. Os instintos mais primitivos! Ela, como uma 'tábua', sem nenhum vestígio de sensualidade (entenda-se, sem chances de amamentar)'; ele, mais ou menos autista, na obrigação de atuar uma pantomima de macho domado... precisava ardentemente que ela declarasse algum tipo de 'amor' ou de admiração por ele... Mas como, se ela estava ali apenas fazendo 'seu serviço' e ele era apenas um celibatário involuntário? A fúria dele e o choro dela no momento da separação estavam baseados no mesmo tipo de desespero... A morte de Eros! O macho e a fêmea cada vez mais odiosos e distantes... O desespero dos condenados da terra! Uma dor engendrada na tomada brusca de consciência de que se estava do mesmo lado, no mesmo lodo, especulando sobre um mundo bizarro e em decomposição... Os últimos minutos da peça, então, com aquele pai musculoso e violento beijando em desespero o ursinho de pelúcia, explicitaram o transtorno, a derrota e a decadência da espécie, na íntegra...
Tudo espetacular. A quinta arte! Os dois breves momentos musicais. As pipocas, o nó na garganta e as lágrimas... A tecnologia; as tais gangs da farofada do INCEL, as interpretações projetivas dos licenciados e as duvidas a respeito de tudo; sem dar muita importância ao desmoronamento de todas as idealizações e 'verdades' e fingindo não entender a pretensão de lançar os pais, de todos os pedigris, no abismo.., sim, de empurrá-los, de volta e domados ao lugar mais triste e profundo do caquético 'vale de lágrimas' que é o mundo... Ah! a culpa dos beatos..., esse engendro cretino derivado do 'pecado venial'... e da psicopatologia...
Ah! A Londres! De Laing e de Cooper! O berço da antipsiquiatria! Por todas as esquinas aquele cheiro do fish and chips... As marcas de uma sociedade e de uma vida 'esquizofrenogênica'... Fábrica de loucuras! A viagem do Ego para o Self...
Como não lembrar daquela gente que, em outras épocas, por pequenos delitos e ninharias, era ali enforcada em árvores?