"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"Era tão corrupto que pagaria para vender-se" (Flaubert)

Hoje veio a surpresa maior com relação ao mendigo K. Lá pelas dez da manhã estava em frente ao CAPS Candango, localizado aqui no DF num lugar conhecido por Buraco do rato. Estava com uma agenda numa das mãos e na outra levava um pequeno instrumento que se parecia a uma daquelas antigas bússolas de navios. Misteriosamente tratou de escondê-la quando me viu e veio ao meu encontro relatando: Nos longos anos de faculdade, (?) ao invés de perder meu tempo com Skinner e com Pavlov, lia (escondido dos professores e dos colegas) a Flaubert. Aquele francês bigodudo que alertava: Cuidado com a tristeza, ela é um vício. Poucos foram os escritores que se aprofundaram tanto nas misérias humanas... concluiu.
Surpreso por saber que aquele pobre homeless e mendigo havia passado por uma faculdade o nome de Flaubert ficou repicando na minha memória. Um mendigo que conhece Flaubert? Isto é quase inacreditável!
Dei meia volta e caminhando devagar contra o sol fui refletindo: apesar da metade do planeta ter quase santificado sua obra e principalmente seus livros Madame Bovary e Educação sentimental, nunca me interessei verdadeiramente por Flaubert. Mas, por coincidência, havia lido no sábado ou no domingo uma frase sua mencionada num jornal espanhol, frase que vale a pena ser lembrada, principalmente neste momento histórico e neste país de corruptos e de corruptores: “Era tão corrupto que pagaria para vender-se”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário