"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

COP 21 - E os hipócritas do planeta desembarcam sorridentes em Paris...



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Com seus guarda-costas e puxa-sacos os líderes mundiais desembarcam pomposamente em Paris para o teatro de mais uma conferência sobre o clima, patrocinada pela ONU. Sem estar lá podemos adivinhar as juras e as promessas de cada um daqueles hipócritas. Podem ter certeza que o lamaçal de Mariana e a morte do Rio Doce estarão futilmente em pauta... Pura demagogia! Seria um grande avanço se algum deles tivesse a coragem de abrir seu discurso com este brilhante fragmento da biografia de  Buñuel:

"Pelas últimas notícias, possuímos agora bombas nucleares suficientes não só para destruir toda a vida sobre a terra, como também para fazer a terra sair da órbita e perder-se, vazia e fria, na imensidão. Isso me parece magnífico, e quase tenho vontade de gritar ‘bravo!’. Uma coisa agora é certa: a ciência é inimiga do homem. Afaga-nos o instinto de onipotência que leva à nossa destruição. A propósito, uma recente pesquisa comprova: dos 700 mil cientistas ‘altamente qualificados’ trabalhando no momento atual, 520 mil tentam aprimorar armas mortíferas, para destruir a humanidade. Apenas 180 mil pesquisam métodos para nossa proteção.
As trombetas do Apocalipse ressoam às nossas portas há alguns anos, e tapamos os ouvidos. Esse novo Apocalipse, como o antigo, galopa ao comando de quatro cavaleiros: a superpopulação (o primeiro de todos, o arauto, o que desfralda o estandarte preto), a ciência, a tecnologia e a informação. Todos os outros males que nos golpeiam não passam de consequências. Sem hesitar, incluo a informação na fileira dos cavaleiros funestos. O último roteiro no qual trabalhei, mas que nunca poderei realizar, repousa numa tríplice cumplicidade: ciência, terrorismo, informação. Essa última, apresentada em geral como uma conquista, como um benefício, às vezes até mesmo como um ‘direito’, talvez seja na realidade o mais pernicioso de nossos cavaleiros, pois segue de perto os outros três e alimenta-se exclusivamente de suas ruínas. Se uma flecha viesse a abatê-lo, logo se produziria uma trégua no ataque a que nos vemos submetidos.
Sinto-me tão profundamente chocado com a explosão demográfica que disse com frequência – inclusive neste livro – que sonho muitas vezes com uma catástrofe planetária que eliminaria 2 milhões de habitantes, ainda que eu fizesse parte deles. Acrescento que essa catástrofe só teria sentido e valor aos meus olhos se fosse uma catástrofe natural, terremoto, flagelo inaudito, vírus devastador e invencível. Respeito e admiro as forças naturais. Mas não suporto os fabricantes de desastres que diariamente cavam nossa vala comum nos dizendo, criminosos hipócritas: ‘Impossível fazer de outra forma’.
Imaginativamente, para mim a vida humana não tem mais valor que a de uma mosca. Na prática, respeito toda vida, inclusive a da mosca, animal tão enigmático e admirável como uma fada".

3 comentários:

  1. Existem apenas atores no mundo, os ricos fingindo serem bondosos e os pobres fingindo que não são infelizes.

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  2. ézio, é por isso que não acredito em religião alguma, e muito menos nesta dona aqui (Mindigo K):

    http://dc.clicrbs.com.br/sc/estilo-de-vida/noticia/2015/11/requisitada-para-palestras-em-todo-o-pais-monja-coen-ensina-como-levar-uma-vida-com-serenidade-4918145.html

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  3. Woody Allen e a indiferença de Luis Buñuel

    http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/29/cultura/1448813156_025703.html

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