"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 4 de abril de 2009

Il barbiere di Siviglia, Niemeyer e Gulliver


A longevidade do Oscar Niemeyer é uma prova cabal de que as pragas e as maldições não servem para nada... Do contrário, já não teríamos mais notícias nem de suas cinzas e muito menos de seus ossos.

Faço essa reflexão ao sair do Teatro Nacional Cláudio Santoro projetado, como quase tudo nesta cidade, pelo ilustre arquiteto Niemeyer. Pretendia ver Il barbiere di Siviglia até o fim nesta noite chuvosa de sexta-feira, mas não foi possível. O espaço entre uma cadeira e outra parece ter sido projetado para anões ou mesmo para os liliputianos. E nem precisa ser um ancião para sentir o sangue se coagulando nas curvas do joelho ou nas artérias que descem pelos calcanhares e nem para sentir as pernas inteiras amortecendo. Só uma múmia conseguiria estar ali quieta por mais de vinte minutos. A precária circulação sanguínea pelos pés faz a pessoa ficar procurando uma posição mais confortável e mais adequada durante a ópera inteira. Ou colocam-se os sapatos sobre o veludo da poltrona do lado ou se enfia o joelho na nuca do sujeito que está a nossa frente. Não dá para entender porque idiotices desse tipo ainda são edificadas. Tenho certeza que já em 1816, quando esta peça foi encenada por primeira vez, os romanos a assistiram num teatro muito mais espaçoso e em cadeiras muito mais confortáveis.

Qualquer camponês que tivesse sido consultado teria dito ao genioso arquiteto: Que as cadeiras possam ser inclinadas suavemente e que seu ocupante possa espichar ou cruzar as pernas, tirar os sapatos e ficar realmente à vontade. Do contrário, como vai concentrar-se no violino, na flauta e na mise-en-scene do maestro, doutor Niemeyer? Com a sensação de uma eminente trombose na altura das panturrilhas ou de que suas pernas já foram amputadas, como vai prestar atenção às flautas, aos oboés, aos clarinetes aos fagotes e ao violoncelo, senhor arquiteto? Como fará a tradução simultânea do canto de Rosina ou das intrigas do Fígaro, ilustre mestre do proletariado? Não, não é possível submeter-se gratuitamente a uma idiotice dessas, uma vez que cinqüenta por cento do prazer do espetáculo está perdido de antemão e uma boa parte da libido, até dos menos exigentes é contaminada por essa cólera legitima que explode em nossos nervos contra o sádico que orquestrou e executou essa câmara de tortura.

Por coincidência, o primeiro ato termina com alguém cantarolando fredda ed immobile... fredda ed immobile, como se estivesse fazendo referência às minhas e às frias e imóveis pernas da platéia. Poder levantar-se e sair cambaleante no meio da chuva foi a glória e a maior de todas as apoteoses.

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. no momento em que eu me familiarizava com brasília, pensava muito nesse senhor niemeyer. a cada traço seu, meu respeito ia aumentando. a velha relação cristo e anti-cristo ia se estabelecendo. grande sabotador da civilização! logo de primeira, niemeyer conseguiu sabotar a arquitetura, tudo é espaço incompatível com as necessidades humanas; sabotou o cristianismo, na catedral não se pode prestar atenção à missa e sim aos anjos suspensos prestes à cair sobre suas cabeças; sabotou a política condenando-a às mazelas do ar-condicionado e da luz fluorescente em plena luz do dia; sabotou a automobilística, os desejos íntimos de todos os proprietários de carro é frustrado, pois niemeyer lhes deu ruas largas, porém escassos estacionamentos; e agora, ezio, vejo que até a arte ele conseguiu sabotar! inimigo dos amantes das artes, que agora têm que lembrar de como seus corpos não foram projetados para tais deleites; e, inimigo da educação humanística do povo, que, sendo assim o teatro nacional, jamais abrirão mão de seus tamboretes e cadeiras de plástico em volta de uma churrasqueira ao som de misérias musicais.

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