"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Entre os Malas da Necromancia e o comércio da tanato-praxis


Na periferia, nas proximidades ou mesmo à sombra dos sessenta anos até mesmo a leitura cotidiana dos jornais passa a ser uma aventura insólita e de risco. Isto porque frequentemente nos deparamos estupefatos com a foto e o obituário de um amigo, de um vizinho, de um colega ou de um conhecido qualquer lá na página noir dos necrológicos.


Eu mesmo já experimentei essa sensação cinco ou seis vezes. O baiano e editor do jornal morreu aos 50; o diretor paranaense de uma troupe teatral aos 60; o psiquiatra tal aos 42, o dentista Y aos 40; o professor de desenho gaúcho aos 59 etc. Essa realmente é uma idade de risco, quase como uma granada sem pino ou como um balde de gasolina esquecido na toalete de um boteco. Um gesto em falso ou uma faísca e pronto. Tudo se vai para o beleléu. Por mais que se negue e que se disfarce, por detrás de grande parte das neuroses e das pirações cotidianas está à consciência exacerbada desse trágico destino e o furor silencioso contra a pena de morte a que se está irremediavelmente condenado desde o nascimento.

É à morte, mais do que a qualquer outra questão que se deve a maioria das idealizações e das ficções institucionalizadas: o poder, o dinheiro, a sexualidade, a fraternidade e a religiosidade – por exemplo. E os seres, de todas as categorias, não fazem mais do que transitarem alucinados e febris, durante suas míseras seis ou sete décadas, entre a vontade de acabar logo e a luta desvairada por longevidade e por eternidade.

Hoje em dia, além dos gestores da “Vida Eterna”, dos “Corretores da Ressurreição”, dos “Mercadores da Transmigração das Almas”, dos Malas da Necromancia etc., existem também os especialistas em tanato-praxis ou, em outras palavras, os técnicos no tratamento somático dos cadáveres e de seu armazenamento, técnica que substitui a velha prática religiosa de simplesmente jogar o cadáver na fossa de um cemitério e pronto.

Esses profissionais tratam o cadáver com o objetivo de restaurar-lhe certas características vitais e de conseguir sua conservação. Para isso se faz uma lavagem intensa nos tecidos, por meio de injeções nas artérias femurais, axilares e carótidas de um produto a base de formol, mercúrio, arsênico e chumbo. Este líquido, chamado thanatyl, que substitui o sangue e contém colorantes para pigmentar os tegumentos, provoca uma hidratação do cadáver que lhe dá um aspecto saudável (como se estivesse vivo) e impede o afundamento dos glóbulos oculares. Dizem que é necessário um litro de thanatyl para 70 kg de carne de cadáver. Todas as cavidades são submetidas a tratamentos cuidadosos. São praticadas punções nas vísceras abdominais e seu conteúdo é aspirado, de maneira que o cadáver fique livre de gases, líquidos e material fecal. Os propagandistas dessa prática são enfáticos em afirmar que um cadáver saudável e bem tratado pode durar vários meses...” Uma tanato-praxis sofisticada – leio no livro de Roger Bartra - consegue maravilhas nos cadáveres que apresentam deformações ocasionadas por acidentes, enfermidades da pele, câncer e outras mutilações. Existem tratamentos especializados para cadáveres de homens muito obesos ou de mulheres grávidas. Enfim, em casos especiais, com ajuda de fotografias do morto, o tanato-prático realiza autênticas reconstruções do que foi o cadáver em vida. Os tratamentos químicos são complementados com maquiage para esconder a lividez cadavérica e o escurecimento que o formol provoca. São praticadas pequenas suturas, injeções e próteses para corrigir o “rectus” da boca e o caimento das pálpebras. Qual a vantagem dessa prática? Ora, um cadáver assim, pode ser convenientemente chorado por seus familiares e amigos nas ultramodernas instalações que são os funerariuns em cujas instalações é levado a cabo o tratamento de conservação e de reconstrução que lhes poupa do espetáculo horrendo da putrefação da carne, O funerarium aloja os cadáveres de tal maneira que todas as antigas imagens de terra e de vermes são eliminadas. Ficam expostos em elegantes vitrines ou em cavidades nas paredes, no interior de edifícios de vários andares, com arquitetura moderna, amplos e cômodos salões atapetados para a exposição e o funeral, salões de recolhimento para os familiares que visitam a seu parente defunto. Um funerarium norte americano anuncia assim seus serviços: “para a dignidade e a integridade de seu defunto. O funerarium não custa mais caro. Acesso fácil, estacionamento privado para cem carros”. O projeto de um funerarium apresentado em 1976 por um arquiteto francês, para obter seu diploma, sugere um verdadeiro templo laico “lugar apropriado, provido de lugares e símbolos que facilitariam as condutas individuais e sociais diante da morte”. Voilà!!

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. hum... novamente o filho do caos se encontra com o filho da noite eterna para uma trepada egípicia. eros e tanatos! remake pornográfico para quem ama choramingar tentando enganar a tragédia. então esse é o mais novo nome para necrófilos enrrustidos frequentarem... funerarium! uma casa mortuária da luz vermelha. um baixo meretriz para relações póstumas. nem mesmo morto se pode ver livre do voyerismo e da propaganda. posso até imaginar um material publicitário ilustrado pela gravura "tudo é vaidade" de charles allan gilbert com a seguinte frase de safo de lesbos: "se a morte fosse um bem, os deuses não seriam imortais".

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