"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Do Self Service ao carnaval de bactérias


Para nós a quem a simples obrigação de ingerir outros seres ou coisas sempre nos pareceu um defeito grave e injustificável da natureza, a necessidade de comer três ou mais vezes numa única jornada sempre foi vista como uma verdadeira desgraça para a humanidade, um ritual compulsório e fútil que com a propagação dos tais self service e suas devidas bactérias tem transformado a sobrevivência quase num milagre.


Idealizado pelos comerciantes e pelo capitalismo para dispensar funcionários e para incrementar os lucros, o self service se foi um avanço em se tratando de postos de gasolina, de agências bancárias, de banheiros públicos, estações ferroviárias etc., foi um desastre para a saúde pública. Quem é que por mais suíno que seja já não sentiu nojo diante daquelas comidas expostas, daquelas panelas respingadas, remexidas e coaguladas onde se misturam cabelos, salivas e salmonelas das mais variadas origens? Como as pias e os banheiros estão quase sempre situados nos fundos dos restaurantes, os clientes chegam vorazes e famintos da rua, do trabalho, do motel, da privada e vão logo avançando sobre aquelas carnes já em putrefação, aqueles brotos, aquelas folhas, aquelas raízes, molhos, caldas, sementes, farinhas, ostras, pescados, rabos de porco e laranjas descascadas. O Cury causa expiro em uns. Outros riem enquanto se servem, outros se coçam, as mulheres jogam a cabeleira para as costas. Outros aproximam o nariz das baixelas, enfiam o dedo no purê, deixam as banhas da barriga lambuzar-se no vatapá. Não é possível que todo esse ritual diário de horror não tenha mais repercussão alguma no amor próprio dessa espécie...


Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. amor próprio?! realmente, nenhum. realmemte um estranho freakshow. porém, o terrível rolo compressor do ritual diário de horror continua: manadas inteiras divididas entre carros bolhas, coletivos-lata de sardinha e motocicletas-kamikazes. uma ditadura civil auto-imposta pelo amor ao tédio. autonegação. tristeza milenar. fundamentalismo neo-puritano. talvez uma tentativa miserável de transcendência do próprio corpo. não sei. ao menos, me divirto pensando que há uma bela festa na flora intestinal da manada, festa tipo woodstock; lombrigas e tênias dançando e se dopando com inseticidas, hormônios, conservantes, acidulantes e outros intorpecentes comerciais, às custas dessa sociedade estocadora de um ou dois tipos de comida.

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