domingo, 11 de janeiro de 2026

Drumond de Andrade, o homeless paraplégico e a pedra no caminho...


Na caminhada desta manhã de domingo, ali pelos arredores daquela padaria que cobra 73,00 reais por um misto quente e uma limonada dita suíça, fui abordado por um homeless de uns 30 anos que ia se arrastando dentro de um barulhento andador de alumínio e acompanhado por um guaipeca...

Queria vender-me uns panfletos poéticos de sua autoria, todos fazendo elogios desmesurados a Drumond de Andrade... Quando lhe disse que estou de saco cheio tanto de Drumond como de poesia, ficou meio assustado. Depois, enquanto ia me exibindo seu trabalho, com um certo sadismo e parafraseando a Adorno, lhe perguntei: como é possível seguir escrevendo poesia depois do Trump e do genocídio na Palestina?

Curiosamente, neste momento, ele passou a queixar-se de sua paralisia, a culpar a negligencia de seu pai e do Estado e mais: a dizer que era travesti... Para, em seguida, mencionar a volta de Cristo, a Era de Aquários e seu amor incondicional ao Lula.

Tudo bem, tudo bem... Enquanto eu o ouvia, seu guaipeca latia e ameaçava a todas as pessoas que passavam, até que uma velhinha de uns 120 anos, que parecia ter saído de uma catacumba e que ia ouvindo aquela música antiga de Simon & Garfunkel, lhe meteu uma bengalada nas costelas...

E ele, equilibrado dentro de seu andador, compulsivamente insistia em falar de Drumond e de sua obra, como se se tratasse de um avô ou de uma divindade. A respeito da tal "pedra no caminho", quase sagrada na obra do mineiro de Itabira, afirmou que, na verdade, se tratava de uma pedra de cocaína. E emendou: inclusive o Machado de Assis, todo mundo sabe, era cocainômano... 

Enquanto ia me retirando, fiquei curioso em saber se Lima Barreto, quando escreveu Os bruzundangas, além da cachaça, também costumava dar umas fungadas no pó...

 















2 comentários:

  1. Ainda sinto falta do que vc significou em minha vida: a possibilidade de alcançar a liberdade; de amar e ser compreendida; a possibilidade de realização; de crescer contigo e alcançar mais sentido para a vida; de ter razão para lutar e seguir. Sim, isso foi tão importante...
    Eu tenho por vc muito amor e admiração. Admiro sua coragem, irreverência, insolência, bondade no coração, compreensão pelos sentimentos do outro, sua dor pela tragédia humana...
    Embora compreenda seu distanciamento, vou sempre ter vc no coração ❤️

    Bom domingo!

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