"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O deserto é Deus, sem os homens...

Quando quero sentir-me pleno e fora deste mundo de frenéticas embromações e quando preciso dar umas escandalosas gargalhadas, dedico alguns minutos aos aforismos de Mario Quintana, que são, para mim, de uma leveza, de um ateísmo e de um sarcasmo majestoso. Vejam os que acabo de ler: 

I. Ou anda-se caminhando por debaixo da terra ou pairando em alturas. Se ao menos fossem os jardins suspensos da Babilônia... Onde está o nosso querido chão humano? Tudo é tão desnatural!

II. Era uma vez um ovo. Já disse alguém, talvez tenha sido eu mesmo, que o ovo é a mais perfeita forma da criação. Assim vivia ele, elipsoidal e único, sereno como se tivesse atingido o Nirvana ou essa ausência de si a que alguns fanáticos chamam estranhamente de meditação, e ainda por cima transcendental.

III. Ora, Ora! Não se preocupe com os anos que já faturou: a idade é o menor sintoma da velhice.

IV. Um porteiro estava convencido de que rato, depois de velho, vira morcego. Confessei-lhe que até então ignorava tal coisa. Fosse eu discutir com ele! Fosse eu discutir com aquela senhora que durante a última guerra se comunicou com Joana D'Arc numa sessão espírita do Partenon!

V. As visitas dos médicos têm sido cada vez mais espaçadas e mais rápidas, e sinto que em breve ele cruzará no caminho com o padre: "é a sua vez agora!"
Qual! Isso seria melodramático
que nem novela de Tevê...
na sua cadeira
a morte espera paciente
(ela não é nenhuma assassina).
Ela deveria fazer tricô...
mas para quê? mas para quem?

VI. E pelo que me toca, a verdade é que nunca pude esquecer estas palavras de um personagem de Balzac: "O deserto é Deus, sem os homens".

VII. Perdão! Eu distrai-me ao receber a Extrema-Unção. Enquanto a voz do padre zumbia como besouro eu pensava nos meus primeiros sapatos que continuavam andando, que continuam andando - rotos e felizes - por essas estradas do mundo...
I

2 comentários:

  1. pra mim o Paraíso e Deus perfeitos seriam o Nada e o Não Existir Mais. Que delícia deixar de existir, não ser mais nada, não precisar "evoluir o espírito" e nem "desevoluir". Simplesmente apagar, deixar de existir. Um perpétuo dormir sem sonhos. Um fim sem recomeço. Um vácuo, um silêncio, um nada. Simplesmente como o apagar de uma lâmpada. Isto seria pra mim o Paraíso.Se não me engano tem um "ramo" do budismo que fala que o Paraíso é algo assim.

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  2. concordo com o anonimo ai de cima, a vida após a morte se existisse seria uma bosta mesmo no Paraíso. O melhor seria o NADA, dormir num sono eterno, não mais existir, ou seja, morreu acabou, o que provavelmente vai ser isso. continuar existindo num Além, para que? Essa frase do Balzac é parecida com de outro autor que dizia que Deus só frequenta as igrejas vazias. Acho que é frase do Ambrose Bierce , aquele maluco adorável que escrevia contos alucinantes!

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