"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 11 de dezembro de 2011

O presépio dos forasteiros...





Sempre que os comerciantes, os padres e outros "beneficiários" deflagram a pantomima festiva do mês de dezembro e as cantigas natalinas insistem em neurotizar todos os ambientes, inclusive os públicos, começam a chegar famílias e mais famílias de indigentes aqui na Capital Federal. Com seus filhos, avós, compadres, cachorros, vizinhos etc., e vão acampando e armando suas barracas em pontos estratégicos (saída para o Iguatemi, para o Boulevar Carrefour, para o Extra, para o Le Roy Merlin, para o Park Shopping, para o Pier 21, para a Casa Park, para o Pneuline Pirelli, para o Rede Mart, para as Lojas Americanas, a Tok & Stok, o Big Box etc., etc.,) a espera das almas piedosas que, cedo ou tarde estacionam na contramão para jogar-lhes um ou dois sacos de roupas usadas, sapatos, utensílios de cozinha, sacos de comida, guarda-chuvas estragados, pães de ante ontem, sobras em geral e até mesmo alguns livros. Livros? Isso mesmo. Claro que quase sempre apostilas de concursos, Seleções Reader's Digest, Jorge Amado, Paulo Coelho, José de Alencar, uma ou outra Playboy, aquela bíblia dos mórmons que sempre se encontra no criado mudo dos hotéis vagabundos e por aí vai. Ninguém é louco de jogar um Kant ou um Shakespeare para esses "dejetos do feudalismo", não é verdade? Primeiro, porque dificilmente alguém tem um Kant ou um Shakespeare em casa, e segundo, porque por mais beata que seja a alma doadora ela sabe que a probabilidade deles usarem as páginas para se limparem o traseiro é muito grande, principalmente porque onde acampam nunca há água e muito menos WC. Os que ficam estrategicamente perto do lago não se intimidam em beber da que retiram dele, mesmo sabendo que podem estar ingerindo algum tubarão excretado lá na Península dos Ministros. Seriam imunes? Pela lógica, se chegaram até aqui é porque bactéria e micróbio nenhum foi capaz de derrubá-los. Geralmente quem fica nas barracas são as mulheres e as crianças, os homens vão para a rodoviária, para o zoo ou ficam por aí em frente a algum mercado enchendo a cara ou roendo algum osso nos fundos do Mac Donald's, só voltando para "casa", para aquele presépio ateu, de penúria e a céu aberto, quando a noite já nocauteou por completo essa vila delirante de burocratas. Vi uma gorduchinha de óculos escuros estacionando apressada sua imensa caminhonete e entregando pessoalmente a moça que correu recepcioná-la uma bolsa com uns quinze pares de sapato. Um deles tinha até um salto imenso de vidro. Havia também sandálias, botas, havaianas, tênis, uma pantufa cor de rosa, dois cinturões pretos, umas sete bolsas e tudo praticamente sem uso. Acostumados a andar enrolados apenas em seus trapos o que será que irão fazer com essas porcarias? Outra velhota veio trazer-lhes um cobertor, uma novena de São Jorge e umas camisas sociais. Um homem de terno depositou no meio fio uma caixa com comidas em pacotes. Um sujeito de moto deixou-lhes três latas de leite em pó. Essa bondade toda teria suas raizes lá na culpabilidade cristã? Não importa. O certo é que não há dúvidas de que quem engana o peixe não é o pescador e nem a vara, mas a minhoca...
Se continuar assim, depois que o Natal passar terão que alugar uma jamanta para levar tudo isso para.... Para onde mesmo? Ora! Quem é que está interessado em saber de onde veio e para onde vai essa pobre gente?

Um comentário:

  1. Querido Ézio, gosto dos seus textos, mas confesso que adoro os que me fazem sorrir... Esse humor irônico e inteligente quebra a frieza do local onde eu fico trancada, o dia inteiro, e me leva de volta à Brasília, ao passado, à época em que eu era livre, e andava pelas entre quadras da cidade, vagando no vazio, e parando para essas pequenas peculiaridades...

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