"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) VII


...Com o movimento hippie aniquilado e sepultado, a obra quase completa de Herman Hesse foi ficando no lugar menos acessível da prateleira. A poeira que vem em revoadas até o quinto andar vai aos poucos aterrissando e colorindo suas lombadas onde pequenas aranhas, em sua solidão aracnídea, também excretam de vez em quando sua gosma. É com uma autentica nostalgia que volto às páginas rabiscadas desse autor alemão que em uma de suas obras também ressuscitou a velha lenda cainesca. Sinclair e Demian reencenam a problemática afetiva vivida pelos filhos de Adão. Numa Alemanha ainda fedendo a pólvora e a cadáveres Hesse, para quem todo sentimento é bom, muito bom, até o ódio, até a inveja, até o ciúme, até a crueldade, tenta romanticamente conciliar os opostos. O yin com o yang, o bandido com o santo, a puta com a freira... Ao invés de interessar-me pela obra sou tomado por uma curiosidade quase perversa pelas anotações e observações que fiz nas margens e nas entrelinhas deste texto, trinta e tantos anos atrás. Londrina não tinha nada de Londres, mas fervilhava de aventuras e de promessas. Mesmo que se vivesse sempre com os bolsos vazios, de migalhas, de pensão em pensão, de biblioteca em biblioteca, nada e nenhum dos problemas cotidianos eram capazes de competir com as artimanhas e o exagero de nossa libido. Cafezais imensos e silenciosos onde à sombra, sempre brotavam alucinantes cogumelos. A gritaria das meninas castas em seus uniformes curtos, seus olhares maliciosos no portão dos colégios reavivava em nós a hipótese do inferno eterno mas também a ideia fixa de que a castidade era uma das mais sofisticadas formas de luxúria. O lago imóvel nas noites enluaradas, o som vibrante de um violino vindo de uma pequena varanda e dos arredores o cheiro da selva em chamas, já quase completamente devastada para ser transformada em cafezais. Cada um daqueles fazendeiros ignorantes e barrigudos se achava no direito de derrubar pedaços imensos da floresta quando e como bem entendesse, ao mesmo tempo em que os exércitos e todos os tipos de policiais da região caçavam ecologistas, intelectuais, artistas, comunistas e confiscavam suas bibliotecas, suas agendas, suas vidas. Jamais se viu tanta burrice em tão curto espaço de tempo. Iguais aos antigos inquisidores, os militares justificavam seus crimes como se fizessem parte de uma cruzada para eliminar a semente de um Caim sociopata, ateu e anticapitalista. Até donas de casa que não sabiam nem limpar-se o cu, cochichavam entre elas sobre um tal Karl Marx que era a reencarnação do demônio. Lênin, então, era um Caim piorado mil vezes e Trotsky, um monstro russo que bebia até sangue menstrual das mulheres e filhas dos ruralistas. Uma mediocridade infame envenenava as ideias e os sentimentos daquela cidade. O medo estava na pauta de todos os dias enquanto bandeiras tremulavam diante das cadeias, das faculdades, dos quartéis e exibiam aquelas duas tolas palavras pirateadas de Augusto Comte: Ordem e Progresso. Só que o que se via por todos os lados era exatamente o oposto: uma zona generalizada, casuísmos sociológicos e celestes por todos os lados, um caipirismo escatológico e fardado, um provincianismo e um subdesenvolvimento de dar pena, do qual ainda não estamos curados. Para a população, dependendo da crença e da ideologia, Caim eram os generais, os torturadores, os agentes da CIA que se disfarçavam de professores, de hippies, de diretores de teatro, de maconheiros, e até de prostitutas. Sem falar dos empresários que financiaram a repressão e das alas da igreja que confessavam e comungavam os assassinos... Para o outro bando, Caim eram os guerrilheiros, os subversivos, os barbudos, os aliados de Moscou, de Cuba e da Albânia, Marighela, Carlos Prestes e qualquer um que vomitasse ao ver uma patrulha militar ou que manifestasse abertamente sua preferência pelo homo ludens em contraposição ao homo faber. Caim era uma metáfora que servia para denegrir quase tudo. Para uns havia sido ele quem arquitetou a farsa do Cavalo de Tróia, a construção das pirâmides e mesmo os hieróglifos. Para outros a teoria da relatividade e a consequente bomba atômica haviam sido artimanhas suas para, cedo ou tarde, detonar o planeta e outros anexos da obra divina. Até o heroico Simon Bolívar usou Caim como metáfora de mau caráter para atacar a nação peruana. Em uma carta de 1928 dizia: “O Peru é o Caim da América Latina”. Mesmo pessoas cultas que poderiam muito bem valer-se de outras referencias e de outros mitos envolvendo brigas entre irmãos - Etéocle e Polynice por exemplo - insistiam em Caim e Abel. Depois aquele circo sanguinário e hermético foi passando, as fantasias caudilhistas se sublimaram, os generais, os torturadores e os presos foram enlouquecendo e morrendo. Finalmente livres, com Deus proscrito e com Satanás aniquilado, os que sobreviveram trocaram de identidade, foram anistiados, receberam indenizações milionárias, se converteram, fizeram plásticas, chegaram ao poder, fundaram jornais e faculdades, descobriram as delícias do dinheiro, trocaram o guarda-roupa, esqueceram todas aquelas bobagens e mergulharam descaradamente no cinismo, na roubalheira, no luxo e na amnésia... Somos de uma espécie tão precária afetivamente que passamos a vida inteira sem ter clareza sobre o que queremos e o que sentimos, nos adaptando como camaleões a quase tudo. Mesmo num caso tão extremado como o de Hitler – lembrando Sandro Toni, em seu ABC de la maldad“se tivesse ganhado a guerra hoje diriamos por aí nos botecos e nas igrejas que era um santo homem" ... (p. 133, 134)


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