-“Et toi, Bechir, tu crois em Dieu?
- Non, pas encore. Mais um jour, oui. God has time. Il n’est pas pressé. Moi non plus...
(Ver: Daniel Rondeau, IN: Tanger et autres Marocs, p. 89)
1. Se você viu a reportagem que a televisão mostrou agora à noite sobre as famosas Emendas Secretas e a situação de vários estados nordestinos e, mesmo assim, conseguir dormir, você realmente não é deste mundo. Inacreditável! Um realismo verdadeiramente fantástico e inacreditável! Mas há uma novidade útil: no meio de toda aquela miséria, de toda aquela roubalheira, aquele compadrio e de todo aquele cinismo, surgiu uma descoberta curiosa que pode até alterar alguns protocolos médicos e ministeriais: me refiro à recomendação de que se deve beber de dois a três litros de água por dia. Ora!, vendo as imagens, se isso fosse verdade, aquela região toda já estaria desabitada.
2. Por mais esforço que ser faça para detestar o Trump, há algo nele que turbina nossa simpatia. Ele, mais do que qualquer outro, com seus delírios, megalomanias, taxações e ameaças, tem demonstrado de forma taxativa, que o planeta vem sendo governado por palermas e que o mundo não passa de uma manada desvairada de vassalos, de subalternos e de submissos... Que o Canadá, o México, a Colombia, a Venezuela, a Argentina, o mundo árabe, os africanos, a Coréia do Sul, a Síria, os comunistas, os fascistas, os liberalistas, os anarquistas, a Europa inteira (essa turma que já trapaceou e pisoteou tanta gente e tantos povos e que agora enfrenta uma verdadeira entropia moral e cultural...) e até o Japão, mesmo depois do horror de Hiroshima e Nagasaki, o temem e lhe fazem a corte... e de quatro. O caso da Dinamarca e daquela geleira chamada Groelândia, é o mais aberrante e fascinante de todos. Por falar em Dinamarca, quem é que não se lembra de Shakespeare, e de seu Hamlet? O príncipe da Dinamarca? Aqui pelos trópicos, está todo mundo curioso para saber quando é que ele, no auge de uma crise, com o pretexto de salvar as borboletas azuis, e as jibóias, tentará se apropriar e incorporar também a Amazônia... com seus rios, a Ayahuasca, o canto desesperado das Arapongas e até as filhas dos pajés...
A propósito da Groelândia, os alemães que ontem haviam enviado para lá uma vintena de soldados, hoje, depois do ultimatum do camarada Trump os retiraram e de forma emergencial. Que vergonha! O que estaria acontecendo com os germânicos? E era essa gente que pretendia construir o Terceiro Reich? A humilhação e a vergonha foi inacreditável. Só não foi maior do que o fiasco de albergarem há décadas, em seu território, e sem reclamar, várias bases e milhares de soldados ianques. (sim, como a Itália, a França, a Espanha e etc, etc, etc... ) Ah! A Europa! Os europeus! Eles que apesar de ficarem cacarejando valentias nas boulangeries, nos encontros de Davos e em outros pik nikes nas montanhas suíças, estão se revelando um continente de frouxos e de vassalos. Fraco, dependente, manipulável e de cagões... Um continente que se o Trump resolver interditar o Vale do Silício por uns dois dias ficará sem internet, no escuro e onde muchos de esos pendejos iran al carajo!!! Mesmo a Russia e a China no meio daquela névoa de imagens dialéticas, que juram estar com o dedo permanentemente no gatilho nuclear, e que prometem para seus prosélitos e já convertidos, milagres revolucionários, não se atrevem a ir além de parábolas, promessas e de adulações recíprocas.
3. E a última provocação do Trump foi convidar o Lula para fazer parte de uma comissão, presidida por ele (um tal Conselho da Paz) que gerenciará a 'reconstrução' da Faixa de Gaza. Mas agora? E gerenciar o quê, mesmo? A paz? Dar conselhos sobre a paz? Ora! Depois de um massacre daqueles jamais, em tempo algum, poderá haver paz! Nem mesmo nos cemitérios! Negociar os escombros? Contabilizar os milhares de mutilados e os esqueletos desfeitos sob os destroços dos prédios? Ora, nem precisa ser um cão farejador para perceber que na essência desse convite há algo de ironia, de aleivosia e de maledicência...
Enfim, sem muito drama, é no mínimo, muito triste viver num mundo onde uns simulam estar em estado de graça, enquanto outros, marcham cabisbaixos como se estivessem indo para o matadouro ou na direção de outra duvidosa utopia... e, pior: todos igualmente iludidos com a possibilidade de uma redenção coletiva... mas que, inevitavelmente, apesar das aparências e das presunções, irão, ombro a ombro, diretos para el carajo!!!