quinta-feira, 26 de março de 2026

A gente não quer só comida...




E o assunto da obesidade, da bariátrica, das feijoadas e da milagrosa caneta emagrecedora não sai de pauta. Agora, até os petits et admirables voleurs estão organizando assaltos seletivos nas farmácias. Se antes iam diretos para  as prateleiras do viagra, agora só querem saber das tais canetas emagrecedoras. Isto porque as clientes estão ansiosas e à espera do produto na volta das esquinas... E a euforia vai dos nutricionistas, aos bariatrinistas, aos especialistas da ANVISA e de diversas outras áreas... de donos de laboratórios à multinacionais; de psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e donos de academias, a cirurgiões plásticos e a influencers, tipos que se revezam nas salas de redação dos jornais dando lições de como interromper a engorda. Negócios! Business! Sorte que a matéria prima não depende do Estreito de Ormuz. E que em breve estarão também no SUS, e de graça. E sobre o custo/benefício? Sim, há efeitos colaterais - dizem - mas os lucros e os benefícios são enormes. Não pensem que se trata de gordofobia! A estética é tudo. E há contrabando. Nas fronteiras com o Paraguay duplicaram o policiamento, porque os sacoleiros migraram da maconha e da cocaína para as canetas e porque os contrabandistas começam a ser vistos quase como endocrinologistas ou nutrólogos. Emagrecer! Mas sem perder o charme e o apetite, sem abandonar a compulsão, nem as feijoadas, as macarronadas, o pasto, o suflê recém saído do forno, os pudins, as pizzas... os arrotos, as paneladas... O sedentarismo, a preguiça, la siesta e o tédio... Sem perder a cumplicidade com o garfo. Os restaurantes. As comemorações, as ceias. A ansiedade. A comida como se fosse uma espécie de clonazepam vegano. Ah! Como admiramos os romanos que iam vomitar no banheiro para poder seguir comendo. Teriam sido eles os ideólogos da bulimia? Ao contrário do que diziam os Titãs: a gente só quer comida! Ingerir, lamber os lábios, palitar os dentes, digerir e em seguida livrar-se do material digerido... E nem lembrar que cada um de nós já devorou em vida, até agora, pelo menos, duas ou três vacas, uns vinte porcos, uns 120 frangos, umas patas de jacaré e sabe-se lá quantas tilápias... Ah! As toaletes! Ir aos pés (diziam nossas avós). Sempre que falo sobre este assunto volto compulsivamente ao Gog de Giovani Papini: "A existência dos comedores públicos é a prova máxima de que o homem ainda não saiu da sua fase animalesca. Esta falta de vergonha, até nos que se julgam nobres, requintados e espirituais, espanta-me. O fato da mente humana não haver ainda associado a manducação e a defecação, demonstra a nossa grosseira insensibilidade..."














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