terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Uma manhã turbinada...





Esta terça-feira de janeiro amanheceu movimentada e turbinada por vários helicópteros da polícia e da mídia sobrevoando minha casa, o pisca-pisca da emergência e dos bombeiros lá no estacionamento, um carro desgovernado sobre o canteiro de gás e a turma insone da Terceira Idade atormentando os porteiros e a turma da mídia para saber em detalhes o que havia acontecido. Até um casal de urubus que habita há meses a cobertura de um dos prédios, estava atônico com aquelas aves barulhentas e de hélices que giravam de um lado a outro, sem muito sentido... E as versões iam se transformando de minuto a minuto. A mais convincente e dominante era a de que se tratava de um casal de indianos (os policiais, falavam indianos, como se fossem iranianos e como se a Índia fosse logo ali, depois de Anápolis e de Pirenópolis...) que, lá pelas 4 da manhã, desgovernado (sem governo!?), havia cometido o acidente, passado por cima do carro elétrico de um inocente velhinho e ido parar sobre o imenso tanques de gás que abastece exclusivamente um prédio de juízes... e que, por pouco, não explodiu como um Oreshnik do Putin...

As expressões eram aparentemente de espanto mais, nas entrelinhas, percebia-se que eram de puro gozo! Lembram de Unamuno e de sua teoria sobre El sentimento trágico de la vida?

Enfim, tratava-se de uma manhã diferente, radiante e sem tédio! Sem a obrigação e a rotina miserável de ir até a padaria da esquina (ainda em cuecões ou em camisola), buscar três pãezinhos franceses e um leite desnatado; passar na farmácia para reabastecer-se de losartana potasica, aproveitar para comprar dois ou três parafusos que faltam e voltar para casa para esperar por Godot...

Ah! Hoje a coisa começou bem! Tudo seria diferente! E quando as velhinhas dos prédios vizinhos e os burocratas acordassem e vissem os estragos e todo aquele movimento, o entretenimento do dia e até da semana estaria garantido.

Só se ouvia a exclamação: Meu Deus! Que irresponsabilidade a desses indianos! Vazou gás desde a madrugada... Ainda havia bêbados no puteiro da esquina e a quadra inteira poderia ter ido para os ares e todos acordaríamos já mortos... Blábláblá... 

De onde e de quem teríamos herdado esse fascínio pelo sinistro?

E os envolvidos, seriam de Nova Deli, de Bénares ou de Puskar? Teriam bebido, fumado ou cheirado? Seriam míopes? O casal estaria brigando? Teria sido uma tentativa de suicídio? Seriam cristãos, hinduístas ou Filhos de Ghandi? No painel do carro não havia nem imagens de Cristo crucificado e nem de Buda, com aquela imensa barriga, hibernando sob a figueira... Mas, - segundo uma lunática que especulava por lá - havia um santinho de Kali colado na parte inferior do volante. Kali e, pendurado ao retrovisor, as penas de um daqueles Captadores de Sonhos que se pode compras nas lojinhas vagabundas de souvenires em Vancouver...

Da janela do apartamento de um cubano, que ainda não havia nem tomado conhecimento do ocorrido, se ouvia Trini Lopez cantando Quantanamera.

Os curiosos, depois de semi-satisfeitos, voltavam para seus apartamentos mas continuavam nas janelas enquanto ligavam para vinte ou trinta sujeitos da mesma idade, para em seguida acenderem uma vela e voltarem a ler o Eclesiastes. 

A propósito, você, que sempre anda fazendo pose por aí com a Bíblia sob o braço, já leu o Eclesiastes? Ou os pastores, os padres e os coroinhas te proibiram de fazê-lo? Em termos de pessimismo e de arrependimento por ter nascido, esse texto bíblico coloca o Apocalipse, Schopenhauer, Sartre e a Cioran no chinelo...  

Quantanamera!!!

Acreditem: foi tudo muito divertido...


 


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