sábado, 22 de abril de 2017

Torna a Surriento...

Porque hoje é sábado...

Hoje é sábado... Dia em que a velharada faz um esforço dobrado para sair de casa, seguir os conselhos dos proctologistas e dos cardiologistas misteriosamente empenhados cada vez mais em apostar na senectude: caminhar! Agitar o esqueleto! Descer escadas! Beber água! Respirar! Socializar-se!.. Eu mesmo, saio por aí em disparada, mas sempre em ziguezague numa tentativa de evitar encontros com esse pessoal da terceira-idade. Mas não tem sido fácil. Parece que está tudo dominado! Como dizia o porteiro do prédio vizinho: é a gerontocracia aposentada. Como a solidão desses velhos é incalculável, saem mais para 'bater-papo' com alguém do que para exercitar-se. Para eles, dizer 'bom-dia' ou 'boa-tarde' a alguém numa manhã ensolarada de abril, já é uma maravilha. Uns vinte passos antes de nos encontrar-mos, percebo que já vão pigarreando e limpando a garganta... e lá vem o BOM DIA!!! BOA TARDE!!! BOA CAMINHADA!!! Uns até dizem: ALELUIA!!! E se eles identificarem algum tipo de afeto em sua resposta ou em seu olhar, então estacionam, colocam as duas mãos sobre os rins e começam a falar sobre meteorologia, sobre a lava-jato, sobre o Trump ou até mesmo sobre o cadarço de teu tênis, se ele estiver mal amarrado. Um deles, exatamente nesta manhã, chegou a relatar-me a história completa de seu tataravô, vindo de Romênia para a América em 1830 e que  teria fundado uma sapataria às margens do Rio Amazonas, onde os cadarços eram feitos de cipós. Outras vezes, quando ouvem o canto de um João de barro, estacionam e com muito cuidado com o labirinto e com a força da gravidade, olham para a copa das árvores tentando localizar suas tocas. Se se deparam com um formigueiro, ficam lá, como catatônicos, horas a fio, assistindo a malandragem das formigas que vão em fila indiana levando as folhas roubadas de alguma roseira para o fundo da terra. Se você passar por ali neste momento... o risco de teu dia estar comprometido é imenso: eles começam a descrever-te uma por uma as características das 20 mil espécies que existem no Brasil... E se você, por um descontrole qualquer, os chamar de velhos malucos, os mandar se foder ou, se fazendo menção de partir, disser que tem mais o que fazer, eles ainda te ameaçarão com advogados da família e com o Estatuto do idoso...

Concierto de aranjuez...

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O jogo da mediocridade candente...

Na semana que passou, o assunto que predominou em todas as manchetes, em todas as missas, reuniões de famílias, barbearias, ongs, fundos de cadeias, reuniões de professores e até nas alcovas de pequenos puteiros, foi o tal Jogo da baleia azul, que estaria induzindo crianças e adolescentes a auto-mutilação e até mesmo àquilo que Camus considerava o único problema filosófico sério: o suicídio. 
A sociedade das velhinhas enferrujadas e carolas com seus velhinhos poderosos, broxas e gorduchos convocou psiquiatras, padres, psicólogos, médiuns, pedagogos, pastores, bombeiros, astrólogos, freiras, videntes, rabinos, especialistas em desesperanças e outros charlatães que nem lembro, para falar e opinar sobre o assunto. Ouvi o mendigo K., que por acaso estava lá em frente à uma dessas sociedades teológicas falando com um casal desesperado: Deixem de ser idiotas!  - dizia -. O suicídio não é o fim do mundo! É apenas o fim do sujeito! E quando alguém deseja praticá-lo não há nada que possa convencê-lo do contrário. Seja o jogo da baleia azul ou o da periquita rosada!!! 
Lembram de Cesare Pavese? Lembram de Cesare Pavese? Fez esta pergunta mais de duas vezes ao casal que já estava meio aturdido. Pois bem, para Cesare Pavese - explicou - o suicida era sempre um homicida tímido. Entenderam? Entenderam bem o que isso significa?
E concluiu: Ao invés da sociedade e dos pais ficarem fazendo um alarde desses com uma idiotice dessas deveriam perguntar-se, primeiro: por quê é que a mídia passou décadas proibida de pronunciar a palavra suicídio?, e segundo: por quê é que um joguinho cretino e de merda como esse é mais sedutor e convincente para as crianças e os adolescentes do que todos os beijinhos e os sermões diários da família, da igreja, dos vizinhos e da polícia?
O  casal ficou visivelmente envergonhado e perturbado e já no meio das despedidas atreveu-se a perguntar: mas então professor (chamaram o mendigo de professor), neste caso, o que fazer para proteger nossos filhos?
Ao que o mendigo respondeu, sem disfarçar uma soberba fenomenal: O quê se deve fazer? Primeiro: esconder deles a bíblia. A bíblia induz mais gente ao suicídio do que qualquer outra coisa. O Velho testamento então, nem se fala... Segundo: colocar-lhes a mão nos ombros e  dizer-lhes: meu filho, a vida realmente é um pé no saco, um inferno de lunáticos e de babacas onde você terá que conviver mais ou menos uns 70 anos com todo tipo de fdp... mas... como além desta merda não existe a possibilidade de nenhuma outra... não caia na tentação de matar-se, seu imbecil!!!

Palocci e a vingança do Estado...


"Sou a espécie de idiota que, diante de César e de seus leões famintos, precisando apenas desculpar-se para ir embora livremente, não consigo deixar de dizer 'foda-se!' a César..."
J.H.A

Entre todas as imagens e diálogos divulgados entre prisioneiros e juízes na operação Lava-Jato, a que mais me incomodou foi essa de ontem, do Palocci, diante dos juizes. Como é possível que a sociedade tolere a até fomente esse tipo de degradação, de ruína e de humilhação de uma pessoa? Enquanto o Palocci, como uma criança desesperada ou como um condenado ao inferno, colocava à disposição da justiça além de seu corpo, sua memória e sua dignidade, eu ia lembrando dos relatos de prisão do Jack Henry Abbott, no livro NO VENTRE DA BESTA, com uma introdução de Norman Mailer. Nas últimas duas linhas da página 63 Jack escreve: "O confinamento solitário, em um presídio, é capaz de alterar a composição ontológica de uma pedra..."
E não digo isso por frescura e nem por um surto histérico de humanismo, mas porque qualquer um que pense, percebe de imediato que, independente dos crimes cometidos pelos prisioneiros, a vingança da sociedade e do Estado sobre eles é muito mais bárbara e cruel, pois é friamente planejada e executada com o preso indefeso, psicologicamente desesperado e despedaçado.
Na página 60, pode-se ler: "E... depois que lhe fizeram tudo isso, depois que lhe roubaram inteiramente o medo e nada mais pode ser usado para ameaçá-lo ou constrangê-lo - de que adianta mantê-lo na prisão? Não é mais possível puni-lo. Você se tornou inatingível. A loucura é a única possibilidade. Ou a velhice..."
Abaixo todas as prisões! Abaixo essa República de bosta!
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Nota:  Na introdução desse livro estupendo, Norman Mailer, baseado nas cartas que recebia do presidiário Jack Abbott, escreve:  
1. "A prisão, fossem quais fossem seus horrores, não era um sonho cujas origens pudesse levar-nos à eternidade, mas uma máquina infernal de destruição, uma invenção apropriada ao ânus abjeto de uma sociedade monstruosamente doente".
2. Numa prisão, se os tímidos se tornam mesquinhos e desleais; os corajosos se tornam cruéis. Porque quando bravos e fracos são obrigados a conviver, a coragem vira brutalidade e a timidez, vileza. O casamento de um homem corajoso e uma mulher medrosa só perde em infelicidade para a união de uma mulher valente e um homem medroso. O sistema penitenciário perpetua tais relações.
3. Contudo, não vivemos num mundo onde se tente resolver esses problemas. Mesmo assumir o que se faz já é utopia. O mais terrível é que todos nós habitamos esse corpo político doente, mergulhado em iniquidade, tão grande, realmente, que a risada da hiena ressoa em cada aparelho de TV, e corremos o risco de que ela se torne nosso verdadeiro hino nacional. Todos somos bastante culpados, na medida em que permitimos que o mundo à nossa volta se tornasse mais vil e insípido a cada vez que nos rendemos ao terror e nele mergulhamos. A ameaça toma as dimensões de um Gólgota, e a classe média se refugia em cidadelas fortificadas, com sentinelas armadas. Aí as prisões são carpetadas, de um lado a outro, e os guardas tratam os prisioneiros de 'Senhor", enquanto fazem uma reverência. Contudo, não deixam de ser prisões. A medida do progressivo aprisionamento de toda a sociedade vai ser dada pelo estado de suas penitenciárias, elas próprias. O sentimento de culpa dessa sociedade fica em evidência quando visto através das lentes incandescentes do cárcere. Eis porque não falamos em melhorar as prisões - isto é, transformá-las por meio de alguma transmutação poderosa - mas, tão somente, de fortalecer a lei e a ordem. Todavia, isto não é mais exequível que o sonho de cura num canceroso.
4. Não se conseguirá lei e ordem sem uma revolução no sistema carcerário."

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Noticias do Lolium temulentum ou: em defesa do joio...

"Eu fui aquele que semeou na hora do crepúsculo e os pássaros da noite devoraram as sementes... E a noite se fez grávida e pariu a iniquidade..."
Vargas Vila

Ultimamente vários políticos e ex-políticos, no auge de suas defesas e falsidades, têm usado uma frase bíblica para dar sequência às suas canalhices. O crédito da frase a que me refiro, dizem os crentes, é de Cristo, dele que a teria pronunciado diante de seus lacaios lá naquela época de ignorância generalizada e naquele fim de mundo onde nem havia saneamento básico e nem papel higiênico: É necessário separar o joio (semeado por um suposto diabo) do trigo (semeado por um suposto deus). 
Hoje, que uma porcentagem significativa de pessoas descobrem-se vítimas de doenças celíacas, isto é, a quem o trigo (glúten) faz tanto mal como o pior dos venenos, começa-se a perceber a sacanagem ou o equivoco do suposto nazareno. 
E o joio? Bem, o joio que segue sendo uma deliciosa e saudável refeição para as ratasanas, continua bem verde e crescendo onipotente ao lado do trigo, principalmente para desafiar a infantilidade dos maniqueistas (bíblicos ou não) que creem que o bem e o mal são coisas antagônicas e que até podem (e devem) ser separadas...