domingo, 19 de maio de 2013

Flash 1.



Chove sobre Marseille. Da galharia da tal platana (essa árvore esquisita que está por toda a cidade) despencam flocos de flores ou de folhas secas que, nos dias de vento e sol são o terror dos alérgicos. O esperado sábado ensolarado foi para o saco. Na escadaria de Saint Charles, ninguém, só as garrafas vazias. O trem para Aix-en-Provance já encostou na via C. A gare está mais cheia do que nunca apesar de pelas portas semiabertas disparar um vento de encolher os culhões. Dois mendigos vestidos a lá Idade Média atravessam a estação de ponta a ponta arrastando atrás de si, além das misérias habituais, um fedor insuportável. Vão com calma, sem estresse, um usando um pequeno chapéu, o outro com uma cabeleira tipo medusa. Não olham para ninguém, parecem saber o horror que causam às narinas e aos olhos das “elites”. Vão sóbrios e soberbos fazendo da marcha uma espécie de meditação.  
Daumier teria tido suas primeiras inspirações por aqui??? Quem, como eu, pensava que haviam entrado ali apenas para se protegerem da chuva e do frio, se enganou. Chegaram em frente ao imenso painel, deram uma olhada rápida, o de chapéu falou alguma coisa para o de cabelo de medusa, dobraram à esquerda, validaram seus bilhetes numa máquina amarela e entraram na via A, com destino a Côte d’Azur. Seriam convidados especiais de Cannes? Não importa. Serão o inferno astral dos que estiverem ocupando o mesmo vagão que eles...

sábado, 18 de maio de 2013

Guia anti-turístico...

Você que sempre quis ir perambular pelo "exótico" mundo árabe/muçulmano, mas que ainda não conseguiu superar o preconceito, o medo de bombas e a paranóia, o dia que passar por aqui é só subir a rue Cours Belsunce, esquina com Canabière, passar em frente ao Esquisse D'oriente, à Biblioteca Alcazar e depois entrar na rue D'aix, cruzar por debaixo do Arco do Triunfo e subir pela rua do Pastor até o Marche du Soleil... de preferência num sábado de manhã. É como se estivesse lá em Tanger, na Alexandria ou no Cairo... As comidas, as roupas, a gritaria, a música, os cheiros, os anúncios para circuncisão etc., é tudo igual, com a diferença que aqui não há dinamites e nem burkas. De vez em quando, no meio de toda a folia de comerciantes, aparecem duas ou três universitárias, vestidas a la Arábia Saudita, que passam saracoteando e aparentemente indiferentes, com apenas as mãos magras e o rosto branco e delicado de fora... Hunnm! Hunm!! Quê mistérios, que fantasias e que delícias pensam elas que podem ocultar!? Levantar as córneas uma vez ou outra para as paredes e janelas também é fundamental tanto para seguir interpretando livremente o mundo e para lembrar que não se está em Champs Elysees, como para admirar um ou outro gerânio vermelho cultivado em vasos clandestinos e improvisados, exotismo que nos faz ter consciência de que até doméstica e esteticamente todos somos mais ou menos semitas... 
Quase no mesmo caminho existia o famoso Café turco, rue Canabière esquina com rue Beauvau. Théophile Gautier o menciona em seu livro Constantinople (1853), mas já não existe mais. Um pouco mais acima, em frente a famosa Bourse, foi onde, em 1934, anarquistas croatas assassinaram o rei Alexandre, da Yougoslavie...
Enfim, mudando um pouco de foco, mas ficando no mesmo assunto, que o mundo está louco há muito tempo, não é novidade. O que é importante lembrar é que a menos de três metros de distância, nenhum sujeito (da nacionalidade que for e por mais farsante que seja) consegue esconder dos outros seus desvarios e suas loucuras...

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Ecumenismo do sofrimento...

A hipocrisia do mundo a respeito da guerra na Síria é impressionante. Estão há quase um ano fazendo conferências (as conhecidas reuniões de delicados petimetres) sobre o assunto... truque para deixar o tiroteio ir comendo solto, vender munição e saturar os cemitérios... 
Agora a França e os  franceses estão alarmados com a recessão! Recessão!? O que é isso? Agora a OMS diz que há um novo vírus por aí, o tal coronavirus. Vírus? O que é isso!? A mendigada que habita aqui pelos arredores do Velho Porto nem toma conhecimento dessas bobagens e quer mesmo é que o mundo se exploda!!! (para não dizer que se foda!!!) Ali em Cannes, o festival de narcisismo está no auge. Cada ano o cinema reedita as mesmas chatices, apenas filmadas de outros ângulos... e mesmo assim, não lhe falta clientela. Um único filme por ano já estaria de bom tamanho... Descobri que Dom Pedro II esteve por aqui duas vezes, uma em 1863 e outra e 1888. Segundo a nota, o ilustre lusitano falava e escrevia um monte de idiomas que ia do português e do sânscrito ao tupi-guarani... Observem como falar idiomas não significa nada e como a erudição, quase sempre, é uma merda... Jean Genet, aquele pederasta que escreveu Nossa Senhora das flores, Diário de um ladrão e etc., começou sua vida de viadagem aqui em Marseille, logo ali na rue Bouneterie, antigo antro de prostituição. Circulei por lá e só me deparei com sete ou oito amorosas velhinhas que iam para algum lugar (ou para nenhum) carregadas agora apenas pela luxúria do vento. Foram inúmeros os escritores e intelectuais que passaram e deixaram registros de suas impressões sobre esta cidade, fundada há 600 anos antes do mito de Cristo. Até Schopenhauer (em sua adolescência) deu um giro por Canabière. Einstein fugiu das garras de Hitler por este porto e Simone de Beauvoir começou como professorinha de filosofia nas escolas daqui. Relata suas experiências marseillaises em La force de l'age... 
A tv acaba de noticiar que encontraram por aí o corpo de um homem dentro de um carro carbonizado. Digo ao monsieur do hotel que no Brasil esses casos já nem são mais noticiados.. Ele acha que estou exagerando ou que pertenço a alguma nova escola de cíniques...