domingo, 22 de janeiro de 2017

Enquanto isso...

Todos somos órfãos - O fragmento de um texto do alemão Jean-Paul Richter (1763-1825)

Neste domingo nublado, avistei o mendigo K. (lá pelas 9:00 horas) que estava diante da porta de uma biblioteca com duas pastas embaixo do braço. Resmungava porque havia lido o bilhete grudado na vidraça dizendo que não funcionaria hoje. Mas hoje é domingo! Lembrei-lhe. Ele soltou um palavrão, remexeu numa das pastas e me sugeriu: Se você tem em casa todos os volumes da Comédia Humana, de Balzac, não deixe de dar uma olhada na nota da página 163, volume V., onde ele menciona parte do texto de um escritor alemão Jean-Paul Richter (1763-1825). É o fragmento de um texto intitulado Sonho e que é mais ou menos assim: "O autor sonha estar num cemitério e vê os mortos saírem de seus túmulos e perguntarem ao Cristo: Não há Deus? E ele responde: Não há. Depois do que as sombras se põem a tremer e desaparecem. Aparecem, em seguida, as crianças mortas, que vêm perguntar ao Cristo: Jesus, não temos pai? E ele responde, desfeito em lágrimas: Todos somos órfãos".
Concluiu a frase e agregou: coisa de alemães!  Explodiu numa gargalhada...
Logo em seguida, já do outro lado da rua, gritou-me: "Ei, Bazzo, e por falar em cemitério, eu que já tenho mais de meio século,  plagiando a John Keats, já sinto as margaridas crescendo sobre  meu corpo". E explodiu em outra gargalhada...

sábado, 21 de janeiro de 2017

Summer Time...

Do estupro e do narguilé...




Na semana passada uma menina de 11 anos foi estuprada aqui nos arredores de Brasília por 5 "meninos", sendo um deles maior de vinte anos. Segundo a policia, a isca que atraiu a menina para a casa desses garotos foi um narguilé. Aquele aparelho de vidro com um tubo e um bocal onde um bando de idiotas (de todos os sexos) se reune para meter a boca ali e chupar. A fumaça pode ter aromas diversos e causar efeitos também diversos, dependendo do país onde está sendo usado e do perfil dos chupadores. Parece que foi engendrado na Persia, depois passou para a India, China, mundo árabe e etc, até ser trazido para o Ocidente por uns porraloucas e, finalmente, cair aqui nos nossos botecos. 
A cidade entrou em um clima pavoroso. Os judiciários, as universidades, as igrejas, as donas de casa, os extra-terrestres soltos por aí convocaram reuniões de emergência para discutir o assunto.  Na platéia e na mesa dos conferencistas, praticamente só mulheres e em todas as pautas sempre a mesma tese: "todo homem é um estuprador em potencial!"
E, o mais curioso, é que os homens, (com medo da mãe) aceitam essa infâmia calados, de cabeça baixa e com as mãos nos bolsos para terem certeza de que o instrumento de seus crimes está bem seguro... Isto é, bem mole. Ora! Isso é uma idiotice! Dizer que todo homem é um estuprador em potencial é uma balela sórdida propagandeada por pensadoras medíocres e medianas.  Não! Nem todo homem é um estuprador em potencial! Assim como nem toda mulher é uma "venus decaída", "uma cortesã em potencial", "carne para marinheiro"! Ou é?
E depois, é evidente que nessas discussões, nesses simpósios, palestras, conferências, cursos, treinamentos, ou seja lá o que for, é necessária e impreterível a presença masculina. A presença inclusive dos estupradores (algemados se isto provocar em alguém algum misterioso prazer) e de suas mães, para que falem de seus desejos e de seus anseios e de seus crimes. Para que revelem as origens de sua 'repressão sexual' e a procedência de suas taras, de suas fantasias e de seu desespero. Ficar ali só entre mulheres se esfregando e repetindo as mesmas hipóteses, as mesmas lengalengas e fobias, as mesmas ideologias e as mesmas cretinices, não apenas sobre os homens mais inclusive sobre suas próprias mucosas, não conduzirá ninguém a  lugar nenhum e nem nos proporcionará uma compreensão maior sobre esse transtorno que, desde Caim, Eva e Lilith, é cheio de nebulosidades...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

É preciso uivar com os lobos... Quem se assemelha se emparelha...

Você que está fazendo uma análise pessimista do país fundamentando todos seus argumentos nas recentes rebeliões dos presídios, relaxe, seja mais leve, mude um pouco o enfoque. Agora.., cuidado! Não salte bruscamente dos presídios para as escolas ou para os hospitais porque sua angústia haverá de aumentar... 
Pense... Vamos ver... Quê outro setor da vida cotidiana merece uma análise?
Pense nos mares! Nos coqueirais, nas noites quase encantadas quando a lua vem se refletir no copo de licor que repousa a seu lado junto das ondas... Simule estar fazendo uma reserva em algum hotel de beira-mar para passar uns dias de relax... 
 Encontrarás quase tudo contaminado. Esgotos e rios de merda desembocam em praticamente todas as nossas praias. Em todos os nossos mares... De ponta a ponta. Não acreditas? Faça um teste. O gerente, claro, te dirá que nos cem metros em frente ao seu hotel a água do mar é cristalina, (que neste momento, inclusive, está cheia de turistas argentinos), mas que a partir dali, aí sim, há merda sólida e merda líquida transitando por todos os lados, dependendo das correntes. E ele fala com tamanha convicção como se houvesse uma fronteira real entre os cem e os cento e um metros. Como se os dejetos e os excrementos chegassem nessa fronteira e dessem a volta porque descobrem que ali é "propriedade" de um hotel 4 estrelas. Impressionante. Depois você lhe pergunta se os surtos virais, as diarréias, os vômitos, as dermatites, se tudo isto está controlado e ele te dirá com a mesma convicção que tudo isso é coisa do passado. Então você liga para os postos de saúde da região (quando existem) e uma enfermeirazinha quase analfabeta te dirá que só no dia de hoje já são setenta casos... Que há relatos de pessoas que saíram do mar com infecções oculares graves e até com pedaços de merda grudados nas orelhas e etc. Será que ainda temos em nossos DNAS algumas nostalgias coprófagas???
Enfim, o que quero lhe dizer, é que as rebeliões nos presídios devem ser interpretadas também como um termômetro para avaliar todos os outros assuntos nacionais e para ter consciência de que o medievalismo entre nós é sistêmico... E depois, por que preocupar-se apenas com os motoristas de caminhões e de ônibus que estariam dirigindo dopados? E os pilotos?
E quem me confidenciou estas inquietações foi o mendigo K. que pretendia passar uns dias numa praia idílica com sua amante. Ao retirar-se, preveniu-me: É preciso uivar com os lobos! Quem se assemelha se emparelha...

No Libération de hoje...

Trump, l’Amérique sans filet



Donald Trump mardi à Washington.
La fête pour les uns, un cauchemar pour les autres. Jamais, dans l’histoire moderne des Etats-Unis, l’investiture d’un nouveau président n’avait à ce point divisé les Américains. Ce vendredi vers midi, Donald J. Trump deviendra officiellement le 45e président de la première puissance mondiale, succédant à Barack Obama. Dans la matinée, les deux hommes doivent d’abord se retrouver à la Maison Blanche avant de prendre la route du Capitole en compagnie de leurs épouses.
C'est là, sur les marches de la façade ouest du Congrès, face au célèbre Mall, que le vice-président Mike Pence puis Donald Trump prêteront serment sur la Bible. Le président sera investi par John Robert, le chef de la Cour suprême, qui lui fera répéter le serment débutant par ces mots : « I, Donald Trump, do solemnly swear.» «Moi, Donald Trump, je jure solennellement de remplir fidèlement les fonctions de président des États-Unis, et, dans toute la mesure de mes moyens, de sauvegarder, protéger et défendre la Constitution des États-Unis. Que Dieu me vienne en aide
Une fois investi, Donald Trump prononcera son adresse inaugurale à la nation, un discours pour l’histoire souvent mis à profit par les présidents pour marquer les esprits. Lors de sa seconde prestation de serment, au lendemain d’une guerre civile dévastatrice pour les Etats-Unis, Abraham Lincoln avait lancé un appel vibrant à la réconciliation : « Sans malice pour personne, pleins de charité pour tous […], travaillons à finir notre ouvrage, à cicatriser les blessures de la nation. N’oublions pas ceux qui ont affronté les batailles, et leurs veuves, et leurs orphelins. » Dans un pays ravagé par la Grande Dépression, Franklin Roosevelt avait prononcé cette phrase souvent reprise, depuis, par les candidats en campagne : « La seule chose dont nous devons avoir peur, c’est la peur elle-même  Quant à John F. Kennedy, il avait eu cette formule : « Ne demandez pas ce que votre pays peut faire pour vous, demandez ce que vous pouvez faire pour votre pays. »D’après des sources au sein de son équipe, Trump a écrit seul son discours inaugural. Une intervention qu’il aurait souhaitée «courte et percutante».

Homard du Maine

Dès la fin de la cérémonie, le futur ex-président Obama devrait rejoindre la Maison Blanche, qu’il quittera définitivement vers 14h30 (20h30 en France) à bord d’un hélicoptère. Le couple Obama s’envolera ensuite pour des vacances à Palm Springs (Californie). Pendant ce temps, Donald et Melania Trump participeront au traditionnel déjeuner d’investiture au Congrès. Rien de très original au menu : homard du Maine et crevettes du golfe du Mexique à la sauce safran, bœuf de Virginie dans un jus chocolaté aux baies et soufflé au chocolat accompagné de glace vanille. Outre les familles Trump et Pence, les leaders du Congrès, les juges de la Cour suprême et les membres du futur cabinet devraient participer au déjeuner. Le repas terminé, les couples Trump et Pence retourneront à la Maison Blanche lors d'une parade présidentielle le long de Pennsylvania Avenue, dont une partie s’effectue habituellement à pied.
Si le déroulé de la cérémonie est connu, l’ambiance demeure toutefois incertaine. Outre la pluie annoncée, qui pourrait décourager les moins motivés, certains manifestants anti-Trump ont promis de tout faire pour perturber l’investiture. Ils veulent notamment tenter de paralyser les barrages de sécurité mis en place tout autour du Capitole, et par lesquels doivent absolument passer tous les détenteurs d’un ticket permettant d’accéder au site de la cérémonie. Militant antifasciste, Gregory Johnson refuse de reconnaître la victoire de Trump. Mercredi soir, ce quinquagénaire est venu manifester sur le McPherson Square, à quelques centaines de mètres de la Maison Blanche. Il appelle à une révolution pour renverser le «régime» Trump, «totalement illégitime» et composé de «suprémacistes blancs, de xénophobes, de nationalistes et de misogynes». Il rêve du grand soir : « Pour empêcher Trump et Pence d’exercer le pouvoir, nous avons besoin de millions de personnes dans les rues, comme sur la place Tahrir en Egypte. » Ce jour-là, ils ne sont pourtant qu’une petite centaine, encadrés par les motos et les 4 × 4 de la police de Washington.

Pub sur Facebook

A en croire les habitués, un calme inhabituel règne d’ailleurs dans la capitale américaine depuis quelques jours. « Je m’attendais à avoir beaucoup de boulot cette semaine, mais franchement il n’y a personne, se lamente George, un chauffeur de taxi qui vit depuis quarante ans dans le Maryland voisin et a vu passer tous les présidents depuis Reagan. Ça n’a rien à voir avec l’atmosphère de l’investiture d’Obama, où on sentait déjà quelque chose d’électrique trois ou quatre jours avant ». En janvier 2009, une foule record de 2 millions de personnes avait envahi le Mall pour la prestation de serment d’Obama. Cette année, en dépit de la passion suscitée par Donald Trump au cours de sa campagne, nul ne sait combien de ses partisans - dont beaucoup vivent loin de la capitale fédérale - feront le déplacement. Les autorités disent attendre entre 800 000 et 900 000 personnes ce vendredi, une estimation prudente et comparable au million venu assister à la seconde prestation de serment d’Obama en 2013.
Visiblement inquiet d’une faible affluence, Trump a tenté ces derniers jours de rameuter ses troupes, achetant notamment des espaces publicitaires sur Facebook. « Cette inauguration est notre moment dans l’histoire américaine, et je veux que soyez avec moi le jour de l’inauguration. Cela va être tellement excitant », promet le milliardaire dans une vidéo publiée sur le réseau social. Fidèle à sa réputation de fabulateur, Donald Trump a prédit une «affluence incroyable, peut-être record». Un scénario peu probable pour un président qui entre à la Maison Blanche avec une cote de popularité historiquement basse : 40% d’opinions favorables contre 79% pour Obama début 2009.
Dans le magasin de souvenirs de 15th Street, en face de la Maison Blanche, la plupart des clients sont tout de même des pro-Trump, venus acheter tasses, tee-shirts, magnets à l’effigie du milliardaire, ou des casquettes «Make America Great Again». A l’entrée de la boutique, Jill, venue de Caroline du Nord pour la cérémonie, pouffe de rire en écoutant le «Trump pen», un stylo parlant qui débite les phrases chocs du milliardaire : «Mexico paiera pour le mur», «Nos politiciens sont stupides», «Je serai le meilleur président pour l’emploi jamais créé par Dieu». Elle repart finalement avec une écharpe Trump. Qu’attend-t-elle de lui ? «Je veux d’abord qu’il nettoie Washington de toute cette corruption. Le peuple américain mérite mieux.» Elle aimerait aussi que Hillary Clinton soit jetée en prison pour la gestion de ses mails. La rhétorique belliqueuse de la campagne électorale, à laquelle Jill a participé côté républicain, ne s’est pas dissipée. De chaque côté, le dédain pour le camp adverse perdure. Pour Jill, les manifestants anti-Trump présents à Washington ne sont ainsi que des mauvais perdants déterminés à gâcher la fête. «S’ils voulaient que Hillary gagne, ils n’avaient qu’à se bouger les fesses et travailler des milliers d’heures, comme je l’ai fait pour élire Donald Trump. Au lieu de ça, ils veulent venir ici, harceler les gens et être violents. Tout ça parce qu’ils n’ont pas bougé leurs fesses de fainéants», lance-t-elle, remontée.
Samedi, plus de 200 000 manifestants devraient déferler sur Washington. Partie d’une idée lancée sur Facebook par une retraitée hawaïenne, la Women’s March pourrait être une des mobilisations les plus importantes de l’histoire américaine. Outre les droits des femmes, de nombreuses causes seront représentées dans le cortège : défense des minorités, des musulmans et des immigrés illégaux, lutte contre les inégalités, protection de l’environnement. Au total, une trentaine d’associations ont reçu des autorisations pour organiser des rassemblements et des marches avant, pendant et après la prestation de serment de Donald Trump. Pour éviter de potentiels affrontements entre pro et anti-Trump, quelque 28 000 membres des forces de sécurité sont mobilisés et des kilomètres de barrières métalliques ont été mises en place dans le centre de Washington.

Mêmes méthodes

Sa victoire acquise, certains espéraient que le candidat Trump laisserait place à un président assagi. Mais après avoir mené une campagne inclassable, mélange guère subtil de nationalisme, de promesse d’autorité et de politique-spectacle, le milliardaire n’est pas rentré dans le rang. Si la période de transition offre un aperçu de sa présidence, elle n’est pas de nature à rassurer ses opposants.
En deux mois et demi, Trump a conservé les mêmes méthodes : usage intensif de Twitter pour attaquer ses détracteurs, déclarations mensongères, hostilité affichée envers la presse, guerre ouverte avec les services de renseignement. Il a stupéfait la communauté internationale par ses déclarations approximatives, voire contradictoires, sur des dossiers diplomatiques sensibles (conflit israélo-palestinien, sanctions contre la Russie, avenir de l’Union européenne). Quant à son futur cabinet, Donald Trump l’a bâti à son image. Blanc, masculin, riche, vieux. Et très inexpérimenté. Le grand saut dans l’inconnu débute ce vendredi.
Frédéric Autran envoyé spécial à Washington