"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Enquanto isso, lá na cabine dos caminhoneiros...

Entrevista imaginaria com o ator Morgan Freeman


[... Caso o criminalista não pensasse de maneira tão criminosa como o criminoso, jamais poderia apanhá-lo. Caso o missionário tivesse encontrado Deus em seu coração, não precisaria inculcá-lo em outras pessoas de maneira tão obstinada. No fundo de seu coração ele é um descrente e, ao converter os outros, tenta converter a si mesmo...]
Rudiger Dahlke
(In: A doença como linguagem da alma, p. 51)



Acusado por um grupo de mulheres de as ter assediado, Morgan Freeman, o ator americano com seus 80 anos e um Oscar na biografia não parecia abatido pela acusação. Propus a ele este bate-papo ao que ele condescendeu sem frescuras:

EU - Freeman, como é, aos 80 anos, ser acusado por amigas de trabalho de fazer com elas "comentários picantes"?

MORGAN - Antes de tudo, quero esclarecer que eu não tinha a mínima idéia de que "picantes" tem a ver com pica. E também, como não é minha área, não sabia identificar os sinais que o transtorno bi-polar imprime nas mulheres. Na fase maníaca fingem querer sentar em teu colo e na fase depressiva te acusam de ser um estuprador perigoso.

EU - Tem alguma verdade contida na acusação dessas oito mulheres?
Tem! Como sou um homem negro,  fui criado num ambiente muito afetivo e carinhoso. (Minha família tem origens numa religião panteísta, enquanto as mulheres que me acusam são monoteístas)... Mamei nas tetas de minha mãe até bem tarde e até dei umas mamadas nas tetas de uma vizinha, amiga de minha mãe. Sempre em público e às claras. Além da mãe e das irmãs, havia minhas tias, minhas primas, as vizinhas e amigas de minha mãe que me beijavam, me abraçavam, me tocavam afetuosamente sempre que me viam, fatos que turbinaram meu afeto, meu olfato e meu fascínio pelo corpo feminino. Não vou negar, o corpo feminino, até hoje, com 80 anos, me produz um suave e delicado frenessi... Não foi por acaso que ganhei um Óscar de melhor ator exatamente com o filme Menina de Ouro...

EU - Mas você assediou alguém? 
MORGAN - Odeio essa palavra! Mas sem isso aí que chamam cretinamente de assédio, a espécie já teria desaparecido. A sedução, como meio, foi o que tirou a humanidade da miséria que foram nossos primórdios. Conheço mulheres que mergulharam em depressão profunda porque passaram a não ser mais olhadas e nem desejadas... Um homem vive embalado praticamente só pela sedução cotidiana, sei que as mulheres também o são, e até muito mais, a diferença é que nelas a sedução é um fim e não um meio. Diferentemente de nós, se satisfazem neuroticamente apenas com a sedução. Ambivalentes com o próprio corpo e com os próprios desejos, num momento querem e no outro sucumbem à culpa. Num dia, por generosidade maternal, se prontificam a nos abrir a braguilha, já, no outro, censuram nosso olhar e até nossos afetos. O que é uma pena! Os homens - esses bobalhões -  foram enganados pela cultura, acreditaram que o desejo delas era igual ao deles... Não é! E agora não conseguem divisar a fronteira entre o "amor" e o "estupro". Aprenderam que a sexualidade era uma manifestação anímica saudável e revolucionária e de repente, se veem diante de um manual burocrático, doentio e recheado de protocolos.

EU - Seja objetivo: você assediou alguém?
MORGAN - Por ser um homem de cinema, sempre vivi rodeado de beldades. Além das 8 que me estão denunciando, já frequentei  a alcova de uma centena e sempre usando as mesmas "estratégias" amorosas. Será que todas elas me veem como um "estuprador"? É uma pena que as mulheres ainda continuem complexas e problemáticas como na época de Freud. Aliás, não foi por acaso que o velho judeu fez, a uma colega sua, a pergunta que até hoje não foi convenientemente respondida: O que quer uma mulher? Para o homem, todo mundo sabe, o gozo sexual é seu principal objetivo. Nos faz bem para o corpo e para a alma. Alma? Desculpe a  apelação! Interditar nosso desejo por problemas moralistas e ideológicos é uma idiotice que só fará com que se escancarem ainda mais as portas do inferno civilizatório...

EU - Você está preocupado com essa denuncia?
MORGAN - O que mais me preocupou foi elas declararem que eu as toquei de forma inadequada. Isso é grave! Isso não! Isso me preocupou! Como é que um homem com 80 anos que frequentou a alcova de inúmeras beldades, judias e luteranas, pode ser acusado disto. Eu mais do que ninguém, tenho convicção de que meu toque é preciso, que sei tocar no lugar certo e de maneira adequada. Em termos de vibrato, só perco para Paganini...

EU - Por quê então desculpar-se? 
MORGAN - Ora! Desculpei-me por uma obrigação social. Mas na intimidade, tenho me explicado e me desculpado verdadeiramente apenas ao meu desejo. Só ao meu desejo é que devo explicações. E como vou explicar ao meu desejo que existe um protocolo a seguir? Um protocolo que é completamente contrário a Ele. Isto é, que é potencialmente brochante?

EU - Quer mandar alguma mensagem ao mundo antes de  ter que  repassar alguns milhões de dólares para elas ou antes de ir para uma penitenciária?
MORGAN - O mundo será mais vibrante e mais saudável quando as mulheres, ao invés de ficarem refugiadas na histeria, na heterofobia e no moralismo, passarem elas próprias a valorizar o gozo e a assediar o "objeto de seus desejos". Quando entenderem que o "assédio" não é necessariamente um crime, mas a linguagem revolucionária, encantadora e transcendente de nosso mundo anímico.




quarta-feira, 23 de maio de 2018

De caminhões, de trens e de martírio voluntário...

Escrever te converte em alguém que sempre se equivoca. A ilusão de que algum dia possas acertar é a perversão que te faz seguir adiante...]
Philipp Roth

Há três dias não se fala em outra coisa no país além da greve dos caminhoneiros. E eles estão por aí, sorridentes, jogando dominó em baixo de seus caminhões, falando um idioma que só eles entendem, requentando feijoadas feitas há uma semana atrás ainda por suas velhas e com o umbigo para fora de camisas sem botão... 
O governo, pressionado, cacareja desculpas e promessas, jura que o problema dos aumentos é de ordem internacional enquanto as filas crescem nos postos aqui da cidade, postos de vivaldinos que oferecem o desconto miserável de um centavo e cinquenta aos indigentes disfarçados que, recentemente foram induzidos por demagogos inescrupulosos a comprar carros quando não tinham condições de fazer a manutenção nem sequer de suas bicicletas e carroças. 
E todo mundo dá palpites, esbraveja e cospe nas paredes enquanto as donas de casa estão angustiadas porque já está faltando cebolas no mercado e band-aid nas farmácias. 
Os poetas e os filósofos de plantão acham incrível que caminhoneiros, que frequentemente são acusados de cheirar cocaína e de prostituir crianças ao longo das estradas, tenham capacidade de fazer parar o país... Mas é só uma especulação impotente desses poetas, a verdade é que ali na entrada da cidade há centenas de caminhões parados e em desafio, muitos deles com buzinas ligadas e rosários pendurados no retrovisor. No para-choque de um Alfa Romeo 69 pode-se ler: "não me siga, que eu também estou perdido".
Os governantes de plantão vão rápidos de um ministério a outro. Ligações pra lá e pra cá fingindo ter algum tipo de autoridade e de importância. Ligam para as amantes cancelando o jantar e a noitada. Ingerem suas pílulas de uso continuo, ficam indignados com Lênin e com Trotsky que, para eles, foram os únicos idealizadores das greves. E, o pior é que, de vez em quando, lhes chega ao quarto andar do ministério um grito da turba, em coro, querendo ver LULA LIVRE! 
O celular da secretária não para de anunciar a morte de dois judeus com mais de oitenta anos: Alberto Dines e Philip Roth... Os funcionários pés de chinelo já foram embora, não deixaram nem papel disponível nos toaletes e o trânsito lá fora parece uma centopéia...  a esplanada vai ficando vazia e deserta... Há uma espécie de melancolia no ar. Só falta um buzinaço e o ronco dos caminhões estacionando em frente à catedral. Pensam em baixar os preços dos combustíveis por decreto e de maneira emergencial para mandar esses trogloditas de volta para as estradas e para seus estados, mas não sabem mais lidar sozinhos com a matemática. E o Meirelles agora é candidato! Resolvem apelar para a cordialidade e para a paciência popular e até pedir às divindades que interfiram de alguma maneira... 
Da promessa secular de construir uma estrada de ferro que vá do Ceará até a Foz do Iguaçu, ninguém diz nada, o que reforça a idéia de que há uma espécie de retardo cognitivo em nossos gestores, em seus vices e nas massas em geral. 
O mendigo K que estava no gabinete de um desses ministros biônicos se atreveu a perguntar-lhe: por quê não se constrói uma estrada de ferro que ziguezagueie diariamente pelo país afora, pelas montanhas, pela beirada dos rios, pelo meio das plantações de  trigo e de girassóis, mais ou menos como aquela que vai de Viena a Atenas? 
Por quê não livrar-se do atraso dos caminhões instalando trens  silenciosos, perfumados e movidos a oxigênio ou a energia solar? Qual é o problema? Por quê essa burrice e essa neurose obsessiva por caminhões e por óleo diesel, esse combustível ridículo (idade da pedra) que suja as vidraças e as córneas e que rapidamente será banido da superfície civilizada do planeta?
O ministro, visivelmente enfurecido, bebe mais um trago de alguma coisa, abre uma pasta de couro, remexe nela e, sem dizer nada, exibe-lhe a foto de um trem lotado na periferia de uma grande cidade da Índia... Para, em seguida, resmungar: o problema não é de transporte é de controle de natalidade!!! Há gente demais no mundo! E a maioria parasitando...

Já que as escolas fracassaram... As prisões remediam... Ou: Quando é que nos livraremos de Machado de Assis???


[...O autor tem direito ao prefácio; mas ao leitor pertence o posfácio...] F. Nietzsche

 


(No Correio Braziliense de hoje)

Graças à leitura de obras de escritores como Machado de Assis, o empresário Luiz Estevão, condenado a 26 anos de cadeia, reduzirá o tempo atrás das grades. Nenhum preso do sistema penitenciário do Distrito Federal tem hoje direito a esse benefício, não regulamentado em Brasília. Mesmo assim, os desembargadores da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT) decidiram, na última segunda-feira, assegurar a diminuição de pena ao ex-senador. O critério recomendado pelo Conselho Nacional de Justiça é a redução de quatro dias para cada livro comprovadamente lido pelo preso, até o máximo de 12 obras por ano. Com isso, é possível abreviar o tempo no cárcere em até 48 dias a cada ano. A partir da regulamentação do benefício autorizado a Luiz Estevão, a tendência é de que haja a liberação da benesse a outros presos.
Desde 2016, Luiz Estevão tentava conseguir o benefício na Vara de Execuções Penais. Ele recorreu, então, à segunda instância. No fim de 2016, a 1ª Turma Criminal manteve o entendimento da Vara de Execuções Penais de que Estevão não atendia aos critérios para a concessão. A defesa do senador cassado recorreu à Câmara Criminal, que, por maioria de votos, decidiu conceder a remição de pena ao empresário. Após a publicação do acórdão, a Vara de Execuções Penais terá de definir os detalhes da implementação do benefício e a possível extensão a outros detentos do Distrito Federal.
Até então, o entendimento do TJDFT era de que a redução para Luiz Estevão representaria um “um privilégio, uma ofensa ao princípio da isonomia”. Em uma das decisões que proferiu sobre o assunto, a juíza da Vara de Execuções Penais, Leila Cury, argumentou que as resenhas apresentadas pela defesa à VEP “não atendiam, ainda que minimamente, aos critérios estabelecidos pela portaria que determinou o direito à remição por leitura”.
À época, a juíza destacou as dificuldades em implementar o benefício no sistema penitenciário do DF: “A análise deve ser feita de forma detalhada e responsável, levando em consideração, inclusive, a realidade atual do sistema penitenciário, em especial no que tange à superlotação das unidades prisionais e ao acentuado deficit de servidores nelas lotados. Tais circunstâncias têm gerado dificuldades relativas às atividades mais básicas dos estabelecimentos penais”.
Em uma das decisões da VEP sobre o assunto, fica clara a preocupação com possíveis irregularidades, capazes de desvirtuar a iniciativa. “A elaboração de resenha presencial é necessária para evitar possíveis fraudes. A entrada no sistema prisional de resenhas previamente elaboradas por terceiros não seria difícil, e o instituto perderia a função para a qual foi criado. Poderia transmutar-se em ‘moeda de troca’ nas penitenciárias”, diz um trecho da decisão.

Resenhas

Segundo o advogado de Luiz Estevão, Wilson Sahade, o empresário “leu obras de renome, como Machado de Assis”. “Ele apresentou as resenhas junto com as obras e se colocou à disposição para fazer os relatos pessoalmente, caso houvesse dúvida sobre a autoria”, explica Sahade. Segundo ele, a defesa recorreu à Justiça para garantir a remição de pena pela leitura, porque faltava uma regulamentação pelo poder público.
Condenado a 26 anos de cadeia pelas fraudes na construção do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, Luiz Estevão teve a punição aumentada em mais dois anos, em abril deste ano. A partir de uma denúncia do Ministério Público Federal de 2003, o senador cassado foi condenado novamente por sonegação fiscal. Entre as ações que ainda tramitam contra o empresário está uma de improbidade administrativa, ajuizada em agosto de 2016. Ele é acusado de pagar por uma reforma em uma das alas da Papuda, onde está preso.
Em nota, a Secretaria de Educação informou que seleciona professores para participar do projeto de remição de pena pela leitura, chamado de “Ler liberta”. A previsão é de que haja a implementação em junho. Em abril, a pasta e a Secretaria de Segurança Pública assinaram uma portaria conjunta para a execução da iniciativa. “Está previsto o atendimento para 10% dos custodiados de cada estabelecimento penal, considerando os níveis de escolaridade. Os critérios estabelecidos seguem o determinado na legislação vigente”, informou a Secretaria de Educação. A lista de 46 obras do projeto traz títulos de autores como Ariano Suassuna, Jorge Amado, Lima Barreto, Clarice Lispector, Liev Tolstoi e Franz Kafka.

Mecânica e pedreiro

Além dos pedidos por remição de pena por leitura, Luiz Estevão pediu à Justiça autorização para fazer cursos profissionalizantes, como de inglês, mecânica e pedreiro. Com as aulas, ele também poderá abater dias na prisão. 


"Ele apresentou as resenhas junto com as obras e se colocou à disposição para fazer os relatos pessoalmente, caso houvesse dúvida sobre a autoria”
Wilson Sahade, advogado de Luiz Estevão

O que diz a lei

A Lei Federal nº 12.433/2011, que alterou a Lei de Execução Penal, dispôs sobre a remição de parte do tempo de execução da pena por estudo ou por trabalho. O texto não menciona leitura. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça expediu a Recomendação 44, que “dispõe sobre atividades educacionais complementares para fins de remição da pena pelo estudo e estabelece critérios para a admissão pela leitura”. No texto, o CNJ recomendou que as unidades da Federação procurem colocar em prática o benefício, com critérios objetivos. A entidade sugere que o preso tenha de 21 a 30 dias para a leitura da obra, apresentando, ao fim do período, uma resenha.

No DF, a iniciativa foi instituída pela Lei Distrital nº 5.386/14. A norma determina que a Fundação de Amparo ao Preso e a Subsecretaria do Sistema Penitenciário serão responsáveis pela coordenação das ações. “As obras escolhidas pelo reeducando devem integrar títulos selecionados. As resenhas serão elaboradas a cada 30 dias, conforme modelos fixados pela Comissão de Remição pela Leitura, individualmente, de forma presencial, em local adequado e perante funcionários do estabelecimento penal”, diz o texto legal. O preso receberá nota e deverá atingir o mínimo de seis pontos. Segundo a lei distrital, a comissão será composta por um professor de língua portuguesa e um pedagogo.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Uma breve história da bebedeira...

Eis aí um livro que ninguém pode deixar de ler, tanto os abstêmios, como os bêbados e principalmente aqueles que por ingenuidade, por idealismo e às vezes por mau caratismo, pretendem "curá-los". Abaixo uns breves "tragos", começando por uma declaração do badalado e incensado psicólogo americano William James:
Nos pobres e iletrados, a embriaguez ocupa o lugar dos concertos e da literatura. 

2.  Em 9000 a.C., inventamos a agricultura porque queríamos nos embebedar com regularidade. p. 26

3. Na maior parte da história da humanidade, os líderes políticos foram enterrados com tudo o que precisariam para uma boa bebedeira post morten... (p. 10)

4.  Como diz um provérbio sumério: "Ele é assustador como um homem que não conhece a cerveja". (p. 30)

5. Do México às ilhas do Pacifico à China antiga há ou houve um misticismo bêbado, com deuses sendo encontrados no fundo da garrafa.  (p.47)

6.  Platão achava que se você pode confiar num cara quando está bêbado, pode confiar nele em qualquer situação. (p.52)

7.  Na verdade, o sistema de classes em Atenas se erguia em torno do tamanho dos vinhedos... e os melhores vinhos eram de Lesbos... (p.54)

8. A  dinastia Shang caiu porque estava todo mundo mamado ( p.62)

9. O palácio não pode evitar o terreno baldio. Uma barcaça não pode evitar a palha. Um homem nascido livre não pode evitar o trabalho forçado. A filha de um rei não pode evitar a taberna. (p.33)
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A primeira coisa que Noé fez quando as águas do dilúvio baixaram, foi plantar uma vinha.

No Antigo Testamento há umas duzentas referências ao vinho. "Então o Senhor despertou como de um sono, como se fosse um guerreiro dominado pelo vinho". (Salmos)

E a Última Ceia? Jesus toma um trago e ordena a seus seguidores que o façam também: "Este  cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória a mim".

E o casamento em Canaã? Jesus está na festa e acaba o vinho. Então ele transforma água em quinhentos litros de vinho.