terça-feira, 19 de setembro de 2017

A Cura gay e a idiotice vigente...

[Ne maudis pas les ténèbres, allume ta chandelle!]
Thomas S. Szasz
(In: le péché second)

Os jornais estão bombando com a volta da discussão sobre A CURA GAY. Os pastores insistem que os gays devem ser curados e atribuem à psicologia essa insólita tarefa. Parece que até conquistaram o apoio da justiça, pois ontem um juiz aqui da cidade determinou (derrotando uma petição do CFP) que SIM, os psicólogos podem praticar a Cura Gay. (faltou ao ilustríssimo juiz
dizer com que técnica, com qual método, a partir de qual marco teórico e a serviço de quem).
É evidente que há uma ignorância imensa por trás dessa discussão e que as partes envolvidas parecem não ter a mínima idéia do que é um processo analítico ou um processo psicoterapêutico.  É evidente que a imensa maioria ainda confunde a formação de um psicólogo com a de um teólogo, de uma freira, de um adivinho ou até mesmo de um policial. Por isso é que essa discussão infame toma esses ares de primarismo acabrunhador...  que nos causa vergonha! 
Quem vai a um psicólogo - consciente de que ele não é um feiticeiro e nem um xamã - não vai em busca de cura alguma.  Curar-se? Curar-se de quê? Um psicólogo não cura nada, não foi treinado para curar nada. Seu papel é outro. Quem quiser saber qual, que se debruce sobre as 3426 páginas da Obra Completa de Freud. E se, eventualmente, um sujeito  está em conflito com a sua sexualidade ou com seu cardápio (seja ele homossexual, heterossexual, pansexual, assexuado, pedófilo, zoófilo, teófilo ou o que quer que seja) pode recorrer sim, a um profissional da área da psicologia, da psicanálise ou da psiquiatria para entender e esclarecer para si mesmo o que lhe está acontecendo e, se a partir, daí resolver mudar radicalmente, direcionar seu desejo para outro objeto qualquer, para as árvores do parque da cidade - por exemplo - poderá fazê-lo ao "bel prazer" sem que ninguém, e muito menos o psicoterapêuta (suposto-saber) interfira em sua decisão. 
Mas, atenção:  É importante reconhecer que esse projeto idiota dos pastores não é inédito na história do mundo, que também os heterosexuais trazem até hoje nas costas as marcas do chicote clerical e que a maioria dos transtornos genitais de homens e mulheres da atualidade está calcada na repressão secular que sofreram. As igrejas, no geral, sempre pretenderam curar, não apenas os gays, as lésbicas e os libertinos, mas todos os seres sexuados. É evidente que o conflito e o problema dos religiosos, não é com a homossexualidade, é com os bagos e com a vulva... Em uma palavra, com a sexualidade. Se sua crença fanática no absurdo não lhes permite conviver nem com o próprio desejo, imaginem então, com o dos outros... 
E já que falei em religiosos, um pormenor importante nesta discussão é registrar que nos últimos anos os religiosos de todas as categorias, seitas e laias praticamente invadiram e se apropriaram das faculdades de psicologia e de direito pelo país afora.  Por que? Porque acreditam (equivocadamente) que ali podem existir  instrumentos de maior eficiência para turbinar o adestramento da fé, da submissão e da moral pré vitoriana sobre o populacho.





segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Cora Coralina, Voltaire e a nova Procuradora Geral da república...

[ O estudo da metafísica consiste em procurar, num quarto escuro, um gato preto que não está lá...]
Voltaire

Hoje, nas primeiras horas da manhã encontrei o mendigo K tentando entrar no STJ para assistir a posse da nova procuradora. Estava engravatado e usava um sapato cheio de remendos, mas tão bem engraxado que refletia a fila de políticos credenciados, as vidraças e as colunas daquela casa. Enquanto tentava convencer os guardas de que estava desarmado, de que não tinha antecedentes criminais, que tinha carteira de cidadão, que tinha paixão pela justiça, que tinha dois filhos advogados, que sempre depositou esperanças no judiciário e que desejava testemunhar a posse da primeira senhora na cadeira de Procuradora Geral da República, não descolava da orelha esquerda o radio de pilhas do tamanho de uma caixa de fósforos que sempre o acompanha. 
Lá dentro a procuradora, cercada pelas maiores autoridades do país, recém havia iniciado seu discurso de posse. De repente o vi recuar e desistir de dialogar com o guarda que não desperdiçava a oportunidade de exercer seu micro poder. Cabisbaixo e completamente desolado me dirigiu a palavra.
Desisto! Já não pretendo mais testemunhar essa posse! - permaneci em silêncio e ele continuou -  A doutora acaba de referir-se à Constituição como se fosse uma Cabala e de mencionar além de Deus, o Papa e Cora Coralina... Cora Coralina, a velhinha poetisa de Goiás, ainda vai, mas Deus e o Papa argentino... logo ali nos gabinetes e aposentos de um judiciário?! Quando é que sairemos da Idade Média? Não diziam que estávamos num Estado laico? Agnóstico? E até inspirado em Voltaire?

Enquanto isso... ali na Rocinha...








sábado, 16 de setembro de 2017

Ioga para mendigos... OM Shanti Om!!!

"Adonde volver sus miradas, sin encontrar alguna víctima de la renuncia???"
Max Stirner

Neste sábado de manhã encontrei o mendigo K na Rodoviária. Estava numa fila imensa da Itapemirim com destino ao Rio de Janeiro. Perguntei-lhe se levava uma AR15 na mochila e ele me respondeu que sim, enquanto abria a bolsa para exibir-me o livro do Jack Kerouac: Los vagabundos del Dharma  e para me comunicar: vou praticar Ioga nas ruas do Rio de Janeiro. 
Inicialmente achei que estava me gozando, mas ele logo explicou: Já ouviu falar da Lalita? Trata-se de uma instrutora de Ioga que 3 vezes por semana pratica nas ruas do Rio com os homeless, mendigos, vagabundos, andarilhos, profetas, rejeitados, ladrões, faquires, ambulantes, fumadores de crack e sujeitos terminais, gente que saiu recentemente do Pinel, bandidos de todas as laias, ansiosos em geral que nunca se atreveram a abrir seus "corações" para a alta sociedade... 
Meditar. Preciso meditar. Tenho 40 anos de estradas e de ruas para serem meditadas. Passei 40 anos na prática, agora vou para a teoria. Preciso dar um novo significado a muitas de minhas fraquezas... O desejo, como dizem os budistas, é a fonte de todo o sofrimento... (deu uma risada cética). Todas as manhãs, quase de madrugada, essa tal Lalita (falei Lalita e não Lolita) se encontra com a mendigada na Praça São Salvador, em Laranjeiras ou então no Parque Guinle. Nas segunda-feiras a prática é no Aterro do Flamengo e às quintas-feiras na Praça Paris, na Glória... A partir de agora, - me disse com deboche - sou um vagabundo do Dharma!.
Terminou sua explicação, juntou as mãos numa das mais comuns posições da Ioga e cantou o mantra OM Shanti Om!!! enquanto o motorista, com a mão esquerda tapando o nariz, jogava com a direita sua mochila para os fundos do bagageiro... 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A fome, os coelhos da Venezuela... e a possibilidade de um porvir canibal...

"O homem é a mais forte razão de ateísmo que existe sobre a terra; o homem é um argumento contra Deus..."
Vargas Villa

Foi noticia em diversos jornais latino-americanos de esquerda, de direita e até nos ambidestros, a tentativa quase desesperada do Presidente Maduro para resolver o problema da fome na Venezuela: criar e comer coelhos
E o Estado já começou a doar casais de coelhos para as famílias mais pobres, apostando que eles, (os coelhos) apesar da crise, ainda estejam com o desejo, com a sexualidade e com a fertilidade em dia. Dizem que um casal pode gerar até 80 filhotes por ano, o que daria para comer praticamente sete por mês... O problema - e que se manifestou logo após a primeira leva de coelhos distribuídos às comunidades - é que também lá, o coelho é visto como um animalzinho que mobiliza mais o afeto do que a fome e que, mesmo depois do discurso do ministro da agricultura afirmando que "um coelho além de não ser um mascote significa dois quilos e meio de carne, proteína e pouco colesterol", as pessoas, ao invés de levá-los ao forno os estão criando como animais de estimação. 
Dizem que na época do Presidente Chaves houve um programa parecido, com galinhas, mas que não deu lá muito certo. 
E quando o assunto é a 'revolução das tripas', alguns historiadores lembram os ratos e os cachorros que na China foram dizimados para fins semelhantes e que inclusive, recentemente, aquele país passou a importar até asnos do nordeste brasileiro para serem banqueteados... 
E quem não se lembra que mesmo aqui no Brasil, na época de um dos nossos tantos e velhos demagogos, para aplacar a fúria popular, também houve promoção de frangos?...
Os mais cínicos, quando são convidados a abordar o assunto dos pobres coelhos venezuelanos costumam problematizar: Qual é o problema! Se até na França esse é um prato sofisticado? Qual a diferença entre matar e comer um coelho e matar e comer uma vaca? Um leitão? Uma galinha? Uma  tilapia?
Realmente, ninguém tem dúvidas de que a traição e a canalhice é a mesma! 
Mas é bom que aqueles bobalhões que encostados nos umbrais das churrascarias só sabem palitar os dentes e coçar a barriga fiquem espertos...  Que prestem bem atenção pois, pelo jeito, não demorará muito para que neste sanatório de tradição "judáico-cristã" se volte a instituir, mesmo que seja apenas como um luxo ou como um ritual de exotismo, aquele antigo costume dos tupinambas que os portugueses conheceram tão bem...

Enquanto os chefões, miseráveis e mascarados, se agitam... e a república, prostituída, se despedaça...


"Rogar! A quem?
Indignar-se! Contra quê? Contra quem?
A mesma mudez e a mesma solidão refletirão o gesto tanto daquele que dobra a cabeça e se ajoelha, como daquele que, colérico, levanta os punhos no vazio e cospe contra o céu deserto... O mesmo horizonte inerte e impiedoso registrará a manifestação dessas duas larvas realizando o mesmo gesto de impotência... sozinhas, desesperadas e vencidas..."
Vargas Vila