sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Mendigo K e a Noite de Ano Novo... Namastê...



E o Mendigo K apareceu nesta primeira sexta-feira do NOVO ANO.

Parecia eufórico e chegou até a exibir um punhado de notas de vinte reais que os dias festivos lhe teriam rendido. Feliz Ano Novo! Ia despachando para seus colegas de infortúnio e até para as donas de casa que atravessavam a rua com suas sacolas de mercado e seus passinhos de prisão de ventre...

Feliz Ano Novo!

Feliz e Próspero Ano Novo!!!

Namastê... Namastê... Namastê...

E como é de praxe até nas melhores famílias, uns queriam saber dos outros o que fizeram na noite de 31, quando os governos, com seus alcaguetes, bêbados e gestores acionaram seus foguetes, suas luzinhas piscantes e suas trapaças. Viva! Viva! Viva! os que inventaram essa farsa!!!

Ele, depois de ouvir seus colegas e até o velhaco português, dono da padaria, relatou que esteve lá no templo budista e que chegou até a dar umas badaladas no sino imenso que há lá, usado nestas ocasiões para atrair discípulos e para tentar dar sentido à vida, um sentido que até Buda jurava não existir...

Insistia que foi um show. Que nunca havia visto tantos órfãos juntos, gordos e anoréxicos, velhos e jovens, ignorantes e ilustrados que se abraçavam e que vertiam lágrimas uns nas orelhas, pescoço e ombros dos outros. Feliz ano novo! Feliz ano novo! E prosperidade! Que sejamos prósperos! Diziam uns aos outros. Enquanto os foguetes lançados lá na Esplanada dos Ministérios brilhavam acima de suas cabeças, o sino badalava, os mais cínicos faziam quele gesto clássico dos nepaleses quando dizem "namasté" uns aos outros; e saiam gritos das janelas dos prédios, os carros buzinavam, e todo mundo falava ao telefone, até os inimigos mortais se faziam juras e promessas de amor, moralistas e moralizantes. Iriam dedicar-se mais às crianças; emagrecer; tornar-se veganos e até mais humanos com os animais; que pagariam as dívidas e os impostos; que trepariam em casa pelo menos duas vezes por semana; que iriam reler a bíblia, o Corão, o Talmud, ser mais Zen do que nunca e dedicar-se inteiramente ao cumprimento dos 8 preceitos básicos do budismo e, se necessário, até voltar a estudar a Lobsang Rampa e a Madame Blavatski. Lembram dos fanáticos do terceiro olho? 

E meio orgulhoso, jurava que havia reconhecido lá, no meio da turba, e que até o haviam cumprimentado, estrangeiros, gente da diplomacia, grandes engenheiros, médicos acupunturistas, jornalistas, músicos, mocinhas solitárias de 500 reais a hora e até poetas, e um ou outro daqueles charlatães e malandros do haicai... E que na camiseta de um deles havia, além de uma foto do Bashô, a inscrição paradoxal de um conhecido romeno: O poeta é um místico que, por não poder elevar-se à volúpia do silêncio, limita-se à volúpia da palavra...

Conforme os ponteiros do relógio avançavam aumentava  a ansiedade e a fila para pegar a senha do jantar ia crescendo... Pratinhos da culinária japonesa, pasteizinhos enfeitados e o cheiro nauseabundo dos peixes crus... Comer. As tripas festejam todos os anos e todos os dias. Fazer jejum? Sim, sim... mas não agora, camarada Buda! Há ainda muitas seringas e muitas bariátricas para o Ano Novo! Namastê!!!

E se não fosse interrompido, a fala daquele mendigo parecia não ter fim. E quando alguém o questionou por, sendo cristão, ter ido a um templo  budista ele respirou fundo e se defendeu: É que conheço e frequento todos os outros templos da cidade o ano inteiro e desde que nasci! E foi citando com ar de beato: Catedral Metropolitana; Comunhão espírita; Igreja Batista Central de Brasília; Igreja Messiânica do Brasil; Vale do Amanhecer; Templo SHIN Budista Terra pura; Templo Seicho-No-Ie do Brasil; Templo da Boa vontade; Santuário menino Jesus de Praga; Santuário Mãe Rainha de Schoenstatt; Santuário Dom Bosco; Praça dos Orixás; Mesquita do Centro Islâmico e a igrejinha Nossa Senhora de Fátima... Por estar emocionado, chegou até a confundir templos com bocas de fumo e depois, como se estivesse se desculpando, concluiu: e muitas outras (umas que nem ouso mencionar) e outras que agora não me lembro...

O silêncio foi total e absoluto. A mendigada, acostumada a viver de desprezo e de migalhas, ficou de boca aberta...













quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Duvido que você não sinta vergonha...




"... Um louco.
Isto causa horror! 
E você, leitor, em que categoria se enquadra? 
Na dos tolos ou na dos loucos? Tenho certeza que se pudesse escolher preferiria a última condição".
Flaubert


Duvido que, mesmo tendo a sensibilidade rude de um búfalo, você não sinta vergonha ouvindo os gritos daquele brasileiro (com uma crise de rins) berrando por socorro lá na entrada de um hospital nos EEUU e sendo absolutamente ignorado...

Duvido que você tendo assistido a tentativa de linchamento daqueles dois turistas ali em Porto Galinhas (Pernambuco), não tenha, pelo menos, ficado ruborizado...

Duvido que você, olhando ao redor, para toda essa miséria e essa ilíada de ignorantes que nos cerca, com uns, cinicamente vampirando e drenando a outros, consiga seguir com essa postura de múmia...

Duvido que você acompanhe o caso do banco Master, sem que seus instintos mais primitivos venham à tona...

Enfim, duvido que você, por mais babaca e alienado que seja, ainda tenha dúvidas a respeito do grau de insanidade e de miserabilidade em que se é jogado ao nascer. Duvido que você, sóbrio, sem cocaína, sem cachaça e sem nenhum tipo de misticismo, recomendaria este lugar a alguém...