terça-feira, 17 de setembro de 2019

Discurso imaginário do Bolsonaro na ONU...

Ilustres senhores, é com um esforço imenso e com um prazer igualmente imenso que estou aqui para abrir esta Assembléia...
Quero iniciar minha fala com uma epígrafe que ilustra um dos livros mais lidos em nosso século e que com certeza os senhores logo identificarão:


"Nenhum homem é uma ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da terra.
Se um Pequeno Torrão carregado pelo mar deixa menor a Europa, como se um Promontório fosse, ou a Herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procureis saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti."

Como os senhores sabem, este pensamento pertence a John Donne, e foi inserido por Ernest Hemingway no princípio de sua obra Por quem os sinos dobram.

John Donne, os senhores também sabem, foi um poeta e padre anglicano britânico (1572-1631). Com 26 anos e como Secretário Particular de Sir Thomas Egerton, passou a encontrar-se clandestinamente com uma moça de 17 anos com quem acabou casando em sigilo. Descoberto, perdeu o cargo e foi preso. Ao sair da prisão passou a advogar, a escrever poesia e a produzir panfletos contra a igreja Católica...

Nunca procureis saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti! 
Gosto desta frase. Ela poderia até ter sido o grito de luta de todos os proletários do mundo! Dos proletários e do lupemproletariado...

Sei que muitos dos senhores estão curiosos para ouvir-me: como deve ser um sujeito misógino, homofóbico, racista, ultradireitista, capacho do imperialismo, um homem que odeia o meio ambiente, que quer destruir as Universidades e por fim que é descrito como um pobre fascista... que acaba de recuperar-se de uma facada...? E que governa um país tropical, com o subsolo ainda repleto de esmeraldas, diamantes, ouro e água...

Os que os induziram a esse conceito sobre mim o fizeram de má fé. Seria educativo e revolucionário que ao voltar para vossos países lhes proporcionassem umas boas chicotadas... Lhes sugiro isto, mas o faço apenas por fazer, pois sei que como escrevia Orwell, os burocratas e outros homens 'práticos' costumam votar aos poetas um desprezo tão profundo que lhes é indiferente o que estes escrevem...

Misógino? segundo os psicólogos e psiquiatras, é aquele que tem aversão nojo e até fobia pelos genitais femininos. Não é o meu caso, estou a mil anos luz disso, senhores!

Homofóbico? Outra inverdade. Cada um que faça com seu corpo o quem bem quiser! O que não consigo é simpatizar com um partido, uma seita ou com uma república gay. Lá nos trópicos, os senhores sabem, desde sempre as pessoas tiveram a liberdade de expressar seu desejo e sua sexualidade da forma que bem entenderem, mas, sem tirania. Tanto a tirania heterossexual como a tirania homossexual são abomináveis... Aliás, a tirania dos brochas é a pior de todas...

Racista? É até uma ironia que muitos jornais até de vossos países me tenham rotulado de racista. Basta voltar sete ou oito páginas da história para ter uma lembrança dolorosa sobre esse assunto e ver onde é que realmente esta ancorado esse sentimento nefasto. Mas, uma coisa é verdade: diferentemente de muitos demagogos, acreditamos que os negros, eles sim é que têm que buscar a soberania, por si mesmos. Não será um Estado ou um governo, por Decreto, quem os tornará soberanos...

Contra indígenas? Nosso projeto é deixar de tratar nossos índios como se tivessem algum retardo, facilitar-lhes a soberania e a passagem dos guetos e dos subterrâneos da civilidade para a própria civilidade. E de maneira afetiva e respeitosa... 
Os senhores sabem (ou não sabem?) que, na situação em que vivem, um simples  carcará infectado por um vírus de sarampo ou de gripe que pouse sobre uma maloca, pode significar, em um curto espaço de tempo, o extermínio de uma etnia... E há ainda um romantismo rousseauniano e doentio a respeito desse assunto que deve ser tratado com mais ciência e com menos poesia... É chegado o momento de separar a criação literária da honestidade intelectual.
Muitos dos senhores devem ter ouvido lá em vossas escolas primárias que inúmeros nativos e autóctones lá dos trópicos eram levados das selvas e das aldeias para a Europa para serem exibidos em jaulas aos vossos tataravós. E que quando muitos de vossos ancestrais chegavam lá em seus habitats, os índios tinham a terra e vossos parentes a Bíblia. Hoje, ao redor do planeta, os índios estão com a Bíblia e as terras escrituradas em nome dos senhores... Será que vossos jornalistas não sabem disso? Não lhes parece bizarro? Mas os tempos agora são outros! 
A propósito: não vejo nenhum autóctone entre nós. E nem na platéia. O que foi feito com essa brava gente?

Ultradireitista? Ora, todo mundo fala por aí que foi a má administração dos governos de esquerda que endireitou o mundo... Nunca tive a fantasia de vir a ser Presidente de meu país. E mais, ouvindo os discursos das diversas facções que se dizem de esquerda lá na América Latina, eu posso lhes garantir que tenho um DNA bem mais esquerdista do que eles... Fascista? Sobre o fascismo e sobre Mussolini a única coisa que sei é que sua última amante tinha uns trinta anos a menos que ele e que proibiu as businas em Roma... Por fim, que os dois foram fuzilados e pendurados nas ruas de Milão, como porcos...

Capacho do imperialismo? Ora, isso só os meus 4 anos de governo poderão responder.


Um homem que odeia o meio ambiente? Que tocou fogo na Amazônia? Ora, não sejamos sectários. É evidente que a Amazônia pertence a todos nós. Por casualidade, parte dela esta em nosso território. Em função de sua extensão continental o esforço para protegê-la e para preservá-la é quase sobre-humano. Não somos idiotas e nem pirômanos! Temos dificuldade para tocar fogo até nas samambaias que crescem nos fundos de nossas casas... É melancólico ouvir alguns dos senhores ou de vossos jornalistas opinar sobre ela sem nunca terem ido, sequer, ao parque de vossas cidades. Sem saberem diferenciar uma castanheira de quinhentos anos de um abacateiro... Já ouvi muitos dos senhores falando das selvas tropicais como se estivessem falando dos Quatro Rios do Éden! Acordem! Quero convidá-los a passar uma noite na selva! Ou mesmo na beira dela. Um ou dois dias nas pequenas embarcações que descem ou que sobem pelo Rio Amazonas. Que tentem apagar uma labareda que foi engendrada pelo sol escaldante dos trópicos (estamos quase entrando no equinócio) ou pelo isqueiro de um desvairado que, na noite anterior, saltou os muros de um hospício.
Somos um país fascinante. Temos por lá muito daquilo que em vossas terras está ficando minguado e escasso. Estamos aqui para isso. Não é verdade? Para negociar. Mas sem plusvalia, sem exploração, sem agiotismo. Sem cartas por debaixo da mesa. Sem subserviência. Sem a distribuição de dinheiro para comprar reputação. E sem a malícia dos séculos de colonialismo. Aprendemos com Hemingway e com o poeta John Donne, que é para nós que os sinos dobram...

Um homem que quer destruir as universidades? Bobagem! Quero apenas que elas voltem a fomentar o talento, a genialidade e o espírito libertário de seus alunos ao invés de travá-lo, de reprimi-lo e de doméstica-lo. Quero que os professores e os reitores substituam a baboseira do TCC por uma volta ao mundo... Para graduar-se ao invés de apresentar o TCC o aluno apresentará ao professor o seu passaporte... me entendem? Paraguai? Nota 3. Sudão? Nota 7. Picos do Himalaia? Nota 9,9!
 Sempre antes de tratar de algum assunto relativo às universidades costumo ler e reler o último discurso de Unamuno quando este ainda era reitor da Universidade de Salamanca... Leiam! Sou milico mas não sou burro!

Por finalizar, quero responder uma pergunta que me foi feita ali nos bastidores. 
Qual é meu projeto principal para o país? 
Resposta: construir uma ferrovia de ponta a ponta. Se possível que chegue até à Terra do fogo, na Argentina e a Chichén Itzá, no México. Com trens comerciais e de luxo, para passageiros. 
Uma ferrovia altera para melhor e para sempre a educação, a saúde, a auto-estima  a sexualidade, o espírito revolucionário e até a felicidade de um povo. Na Russia, construíram a Transsiberiana, que vai de Moscou a Vladivostok, praticamente só com mão de obra de prisioneiros... e no Brasil, 

Vous connaissez, hypocrites messieurs, mes égaux et mes frères...

nossas penitenciárias estão praticamente lotadas... e todo mundo coçando o saco...
Muito obrigado!



Há décadas, turbinados a base de ópio...




Foto: Reuters
FABRICANTE ESTADOUNIDENSE SE DECLARA EN BANCARROTA TRAS RECIBIR MÁS DE 2 600 DEMANDAS POR EPIDEMIA DE OPIOIDES
"Purdue Pharma, fabricante estadounidense de oxicodona, se ha declarado en bancarrota este domingo tras recibir más de 2 600 demandas que alegan que la compañía alimentó la mortal epidemia de opioides en el país. El gigante farmacéutico llegó a un acuerdo provisional con un tribunal de Nueva York para resolver las demandas recibidas, procedentes de distintos estados del país. Asimismo, otros 24 estados todavía se oponen al acuerdo propuesto. Los denunciantes buscan una indemnización de miles de millones de dólares por concepto de daños, porque aseguran que la compañía comercializó calmantes recetados «de manera agresiva» sin avisar a médicos y pacientes sobre sus riesgos de adicción y sobredosis. No obstante, tanto Purdue Pharma como Sackler han negado las acusaciones. (RT)"


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Enquanto isso...


{...A espantosa verdade é saber que se trata de uma ficção, e que você acredita nela por vontade própria...}
W. Stevens





































sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A cirurgia do Presidente e a espetacularização das intervenções médicas...


"Un pedante que vio a Solón llorar la muerte de un hijo, le dijo: Para qué lloras así, si eso de nada sirve? Y el sabio le respondió: Por eso precisamente, porque no sirve..."
Citado por Miguel de Unamuno
(IN: Del sentimiento trágico de la vida, página 63)

Desde a morte do Tancredo Neves, com todo aquele espetáculo midiático, hospitalar e mortuário esse costume exibicionista, sádico e estranho tem pautado a vida política no país. 
O que é que leva uma autoridade como o Presidente da República a deixar-se filmar, fotografar e entrevistar numa cama de hospital e até mesmo exibir suas entranhas aos eleitores e até aos adversários? Não tem sentido algum essa exposição, essa divulgação, essa exibição, esse vexame e esse espetáculo grotesco. Não é possível que na equipe dessas autoridades não haja alguém com uma função parecida a de um ombudsman que pelo menos, zele pela dignidade, pela decência e pela estima do doente!
E os médicos? Será que os 10 anos acadêmicos, os horrores das enfermarias e dos IMLs e a insistência obsessiva da cátedra pelo cumprimento dos protocolos hipocraticos não foram suficientes para fazê-los compreender que a discrição, a sensatez e a preservação da intimidade do doente é fundamental para sua reabilitação, tanto física como mental? E que, pelo contrário, a exibição de suas entranhas e debilidades a um público anônimo, muitas vezes perverso, não lhe favorecerá em nada? De onde advém essa necessidade de dar uma aula sobre o corpo do doente, descrever para leigos e bobalhões a longitude e a magnitude de suas vísceras e de outras misérias da condição humana? 

NÃO A APOSENTADORIA!

"Hecho de polvo y tiempo, el hombre dura menos que la liviana melodia..."
Jorge Luis Borges


Nesta sexta-feira de sol abrasante encontrei o mendigo K em frente ao ministério da Previdência Social. Estava  encostado nos paredões de vidro, fumando um cigarro vindo do Paraguai e segurando um cartaz que tinha como titulo:

NÃO A APOSENTADORIA!

E que.., em letras menores, continuava:

A aposentadoria é um exílio!
Um degredo! 
Mesmo que dobrem teu soldo, aposentar-se é uma fria! Um arranjo maléfico! 
Uma invenção e um truque descarado dos jovens para livrar-se dos velhos...
Realmente, a gerontocracia é uma infâmia, mas fazer o quê?

A aposentadoria é vitória da inexperiência e da ignorância sobre a experiência e o saber!

Os funcionários e os sindicalistas que chegavam, até com menos de 50 anos e loucos para se aposentarem o olhavam com suspeita e como um inimigo.

Que os sujeitos resistam e morram trabalhando! - Seguia dizendo o cartaz -
É ridículo exigir que o sujeito passe 35 ou 40 anos acorrentado numa escravidão qualquer e, de repente,
quando o cara já está fodido, mandá-lo 'passear'. Vá para casa! Descanse! Você já deu sua parte! Desfrute da vida!
Desfrutar da vida, um caralho!
É um horror deparar-se cotidianamente com um exército de velhotes troteando por aí com suas sacolas de remédios. Jogando damas com os taxistas ou enchendo o saco das balconistas dos mercados ou dos porteiros dos prédios. Os vejo aqui do alto e não escondem a marcha depressiva de quem esta sufocado pela solidão e pelo ócio e de quem não esta indo para lugar nenhum... Fodidos e soterrados por um saber acumulado que agora os intoxica! Vão falando sozinhos, com os postes, com os cachorros e com os pedregulhos onde tropeçam... Com suas camisas brancas e mal passadas param diante dos prédios, colocam as duas mãos sobre os rins e com dificuldade olham longamente para o último andar como se tivessem visto lá no alto um disco voador ou uma aparição da virgem. Outros vão com seus passinhos curtos e perigosos até a lotérica da esquina pagar a conta da luz ou comprar um remédio para suas velhas que os olham temerosas das janelas... Aposentar-se um caralho! Não seja otário! 
Obrigue o Estado a suportá-lo.
E não adianta enganar-se e ir perfumada (o) e sorridente fazer bordados por aí com outras velhinhas ou com outros velhinhos gagás! Vender empadinhas nos semáforos, filiar-se a uma congregação de voluntários, ir lavar as cuecas dos padres e pentear os longos cabelos das freiras nos conventos, ir cuidar crianças dos outros quando não soubeste cuidar nem das tuas, ou sair por aí implorando outra maneira de penitenciar-se. Ridículo!
Não! 
Continue indo a teu trabalho, lá onde esta sepultada toda tua saúde, toda tua rebeldia e toda tua indignação... (mesmo que seja só para enxugar gelo) mesmo que seja só com uma perna, de muletas, de cadeira de rodas, em uma maca..., da maneira que for, mas permaneça lá em tua antiga e conhecida servidão, em tua mesa de trabalho, com tuas algemas lubrificadas, com as chaves de tuas gavetas, teus fetiches, tuas neuroses e tuas senhas nos bolsos do uniforme... E que os novos escravos tenham a paciência de suportar-te até o juízo final... Mesmo que seja só por um último e senil capricho, para não dizer: ato de vingança...


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

BRASIL: Quase 600 anos de surrealismo...




Dois homens foram presos nesta terça-feira (10/9), em Campestre, no Sul de Minas Gerais, com 46kg de maconha distribuídos em 67 malotes. A droga estava em tabletes com a foto do ex-presidente Lula preso.

Um dos presos estava em um carro com outra pessoa, que conseguiu fugir. Eles estavam em "atitude suspeita", o que chamou a atenção da polícia. Um deles tentou escapar por um matagal, mas acabou sendo preso.

O outro detido foi encontrado com um carro que tinha um fundo falso, onde seria armazenada a droga. Ele foi preso em Machado, município que faz divisa com Campestre.
 
Os militares acreditam que os dois casos tenham ligação e que esse carro tenha feito o transbordo da droga para o outro veículo. A polícia ainda investiga a origem dos entorpecentes. A droga e os dois carros foram apreendidos. Os dois suspeitos foram presos em flagrante.
 
Com Estado de Minas 






A faca usada no ataque ao presidente Jair Bolsonaro, durante a campanha de 2018, será transferida para o Museu Criminal da Polícia Federal (PF), em Brasília, após decisão da Justiça. O juiz Bruno Savino, da 3ª Vara da Justiça Federal em Juiz de Fora (MG), atendeu pedido do Ministério Público Federal (MPF) e da PF, considerando haver "relevante valor histórico" na arma.
A lâmina de 30cm enfiada na barriga do presidente por Adélio Bispo de Oliveira estava há quase um ano em posse da Polícia Federal. Para o magistrado, a peça representa a violência sofrida por Bolsonaro e, sobretudo, "simboliza, a partir de uma ótica mais ampla, a agressão cometida contra o próprio regime representativo e democrático de direito".

Bruno Savino diz que o interesse na conservação do objeto "preserva a história política recente do país". A peça foi usada como prova no processo que concluiu ser Adélio o culpado pelo crime. O interesse em armazenar a faca foi informado à Justiça pela diretoria da Academia Nacional de Polícia, núcleo de formação da PF, com a justificativa de que a arma foi periciada pela corporação durante as diligências sobre o atentado.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

E a terra abandona o homem...


"Ao defrontarmos o Amazonas real, vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo tempo prefigurada. Além disto, sob o conceito estreitamente artístico, isto é, como um trecho da terra desabrochando em imagens capazes de se fundirem harmoniosamente na síntese de uma impressão empolgante, é de todo em todo inferior a um sem-número de outros lugares do nosso país. Toda a Amazonia, sob este aspecto, não vale o segmento do litoral que vai de Cabo Frio à ponta do munduba..."
Euclides da Cunha

"Depois de uma única enchente se desmancham os trabalhos de um hidrógrafo..."
Idem


"Não sou poeta. Falo a prosa da minha ciência. Revenons!
Frederico Hartt
(Citado por E da C.)

Se você quer ler algo fascinante sobre a Amazônia e sobre o Rio Amazonas, leia no livro acima, pelo menos o primeiro capítulo: TERRA SEM HISTÓRIA. O mendigo K que também o esta lendo indagou-me: Como é que Euclides da Cunha não passou a ser leitura e estudo obrigatório ainda nas nossas pré-escolas, desde 1910?
Sem nenhum romantismo, telurismo ou nacionalismo babaca, o livro é Impressionante! Esclarecedor! Universal! E, para os mais frágeis, até poético.
Vejam estes trechos sobre o Rio Amazonas: 
"Neste ponto, o rio Amazonas, que sobre todos desafia o nosso lirismo patriótico, é o menos brasileiro dos rios. É um estranho adversário, entregue dia e noite à faina de solapar a sua própria terra.  Herbert Smith, iludido ante a poderosa massa de águas barrentas, que o viajante vê em pleno oceano antes de ver o Brasil, imaginou-lhe uma tarefa portentosa: a construção de um continente. Explicou: depondo-se aqueles sedimentos no fundo tranquilo do atlântico , novas terras aflorariam nas vagas e ao cabo de um esforço milenário. (...) É o efeito maravilhoso de uma espécie de imigração telúrica. A terra abandona o homem. Vai em busca de outras latitudes. E o Amazonas, nesse construir o seu verdadeiro delta em zonas tão remotas do outro hemisfério, traduz, de fato, a viagem incógnita de um território em marcha, mudando-se pelos tempos adiante, sem parar um segundo, e tornando cada vez menores, num desmatamento ininterrupto, as largas superfícies que atravessa... (...) Se sobre uma linha férrea corresse dia e noite, sem parar, um trem contínuo carregado de tijuco e areias, esta enorme quantidade de materiais seria ainda menor do que a de fato é transportada pelas águas... (...) Sempre desordenado, e revolto, e vacilante, destruindo e construindo, reconstruindo e devastando, apagando numa hora o que erigiu em decênios - com a ânsia, com a tortura, com o exaspero de monstruoso artista incontestável a retocar, a refazer e a recomeçar perpetuamente um quadro indefinido... (...) Assim se erigiu recentemente a ilha de Caruru, com dois quilômetros quadrados de área; e se reconstroem todas as que se observam acima dos canais de Breves. Mas formam-se para se destruírem, ou deslocarem-se incessantemente. As ilhas trabalhadas pelas mesmas correntes que as geraram, desbarrancam-se a montante e restauram-se a jusante, e vão lento a lento derivando rio abaixo, ao modo de monstruosos pontões desmastreados, de longas proas abatidas e popas altas, a navegarem dia e noite com velocidade insensível. Por fim, desgastam-se e acabam. A de Urucurituba durou dez anos (1840-1850), mercê  da superfície vastíssima; e apagou-se numa enchente..."
E a terra abandona o homem! 
E la nave va...

terça-feira, 10 de setembro de 2019

A testosterona dos sabiás. Um texto fascinante!

Marcos Rodrigues
Doutor em zoologia pela Universidade de Oxford (UK). Hoje, é professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais.

O efeito do equinócio sobre o canto dos sabiás

Marcos Rodrigues
terça-feira, 1 outubro 2013 21:44
Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris). Foto: CG Machado.
Equinócio é o nome dado à data do ano quando o dia e a noite têm o mesmo número de horas. Tecnicamente, o equinócio é mais do que isso. O equinócio é o momento em que o movimento de revolução da Terra em torno do Sol faz com que este último se encontre no zênite do equador. Assim os raios solares atingem perpendicularmente o eixo de rotação da Terra. O equinócio ocorre duas vezes durante o ano e, nesse momento, o período de exposição à luz do sol (fotoperíodo) é exatamente igual ao período da noite.
Há duas datas de equinócio ao ano; a primeira por volta do dia 20 de março, que dá início ao outono no hemisfério sul e a primavera no hemisfério norte; a segunda por volta do dia 21 de setembro, que dá início à primavera no hemisfério sul e ao outono no hemisfério norte.

Equinócio. Fonte: imagem retirada da
Equinócio. Fonte: imagem retirada da

Faz alguns dias que entramos na primavera. A partir desta data, todos os dias terão um minuto a mais de sol do que o dia anterior, e o mesmo minuto a menos de noite. Mais luz significa que as plantas terão mais tempo para tragá-la e traduzi-la em “verde novo, em folha, em graça, em vida, em força, em luz”. Com isso essas plantas crescem, nascem folhas novas. Isso significa comida pra os animais herbívoros, aqueles que comem plantas, sendo as folhas verdes e suculentas as preferidas. Dentre estes animais destacam-se os insetos, que a partir do equinócio saem de suas vidas letárgicas com o único propósito de comer e se reproduzir. São milhões, bilhões, trilhões, sabe-se lá quantos insetos herbívoros brotam neste momento. Mal sabemos ainda o número de espécies de insetos no mundo, quiçá o número de indivíduos de cada espécie!
Esses insetos, geralmente em formas larvais, as quais algumas chamamos de ‘lagartas’ ou ‘taturanas’, ou mesmo nas suas formas adultas, são devoradores de folhas, e engordam a uma velocidade estonteante, tornando-os pratos cheios e nutritivos aos animais insetívoros. Dentre eles, destacam-se as aves, que até então, antes do equinócio, vinham economizando o máximo de energia devido à escassez destes insetos. Assim, essas aves voavam menos, interagiam menos e cantavam menos.

Ipês amarelos anunciam a chegada do equinócio. Foto: A. Catani
Ipês amarelos anunciam a chegada do equinócio. Foto: A. Catani

O aumento da luminosidade depois do equinócio começa pouco a pouco a penetrar pelo crânio e pelos olhos das aves, atingindo células especiais do hipotálamo que desencadeiam a síntese de hormônios. Hormônios são substâncias químicas liberadas por uma célula, que afetam células em outras partes do organismo. Tais hormônios atuam na produção de óvulos dentro do ovário das fêmeas e no crescimento e produção de espermatozoides nos testículos dos machos. Especificamente nos machos, o hormônio principal que desencadeia tudo isso é a testosterona.
O equinócio e a testosterona

Sabiá do barranco ([i]Turdus leucomelas[/i]). Foto: CG Machado
Sabiá do barranco ([i]Turdus leucomelas[/i]). Foto: CG Machado


“O canto do sabiá, e de tantas outras aves, é apenas o efeito indireto da quantidade de luz no ambiente, consequência da posição do planeta em relação ao astro rei, o Sol.”
Mas a testosterona faz muito mais do que isso. É um hormônio que, de alguma maneira, altera drasticamente o comportamento do indivíduo. Aquele que era um sujeito pacato e solitário, cujo único objetivo em vida era se alimentar e fugir de predadores começa a ter o desejo de encontrar parceiros sexuais. Se você já passou por isso sabe do que estou falando: desejo, necessidade, vontade. Esse indivíduo pacato passa a ser um falador incessante. Repare como, a partir deste equinócio, os sabiás do seu jardim de repente começaram a emitir o melodioso e até melancólico canto desde o alvorecer até o anoitecer. Antes do equinócio, nada disso acontecia. As aves cantam veementemente durante o período da manhã porque é quando as fêmeas estão férteis. A fertilização do ovo deve ser alcançada nas primeiras horas da manhã para que o ovo, que leva 24 horas para ser formado, apresente seu maior peso e, portanto desconforto para fêmea, durante a madrugada, quando ela está repousando e escondida de eventuais predadores. As fêmeas então botam seus ovos no primeiro lume da manhã. A cantoria dos machos atinge então seu pico neste horário. Outro pico de cantoria acontece no anoitecer, quando os machos estão defendendo suas posições para a manhã seguinte.
O canto das aves tem duas funções inequívocas e suplementares: atrair parceiros sexuais e repelir competidores potenciais. Assim, quando o sabiá e a maioria das aves cantam, transmitem a mensagem de que estão disponíveis: sexualmente ativos. O sabiá também está dizendo que aquele território, cheio de recursos alimentares e locais para se construir um ninho é seu, e de mais ninguém. O problema é que os outros sabiás, outrora sujeitos tão pacatos como o primeiro, também estão sob o domínio da testosterona. Esse hormônio tem ainda o efeito de deixar o indivíduo violento. Embates aéreos entre vizinhos tornam-se comuns, e não é raro que ocorram mortes durante as disputas territoriais. Já presenciei casos de óbito entre sabiás e entre sanhaços que visitam meu jardim regularmente. Uma violência, diria o leigo. A natureza, diria o biólogo.
Já está demonstrado que estes embates ocorrem porque é da fêmea a palavra final. Ela é quem escolhe seu parceiro sexual. A escolha é feita levando-se em conta uma série de quesitos, como tamanho do repertório vocal do macho e até as condições da plumagem do macho.
O canto do sabiá, e de tantas outras aves, é apenas o efeito indireto da quantidade de luz no ambiente, consequência da posição do planeta em relação ao astro rei, o Sol. O equinócio da primavera é retratado classicamente, por exemplo, no filme ‘Bambi’ de Walt Disney, como o alvorecer do amor, das flores coloridas, das folhas verdes que brotam dos bordos desfolhados pelo longo, tenebroso e cruel inverno. Mas o equinócio da primavera pode ser visto como o cavaleiro que traz a testosterona, que gera a violência, e a necessidade do indivíduo de permanecer eternamente neste mundo através da reprodução, custe o que custar.

Sabiá-poca ([i]Turdus amaurochalinus[/i]). Foto: CG Machado
Sabiá-poca ([i]Turdus amaurochalinus[/i]). Foto: CG Machado


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Olavo, Adorno, os Beatles e as feridas narcísicas...









https://psicoativo.com/2016/11/as-3-feridas-narcisicas-da-humanidade-copernico-darwin-e-freud.html

E os censores estão de volta! Só estavam hibernando...

[ A pessoa "normalmente" alienada, em razão de agir mais ou menos como os demais, é considerada sã...]
R.D. Laing
IN: A política da experiência e a ave do paraíso, p. 21

A semana que passou foi pródiga em censuras. 
Lá na Bienal do Livro no Rio de janeiro o prefeito e os juízes mandaram recolher um livro que exibia na capa o beijo bucal entre dois "pederastas" e aqui em Brasília, a Sociedade Israelita ficou indignada com a foto que um jornal da cidade exibiu na primeira página com um aluno secundarista simulando a leitura do livro Minha Luta (Mein Kampt), de Hitler. 
Quanto ao beijo na boca entre dois machos, convenhamos, não é nada se comparado ao Beijo grego (coprofagia) que vem sendo praticado por aí, nos bastidores, desde ainda antes da República e ainda antes de ser fundada a igreja do digníssimo Prefeito. 
Já, a respeito do Mein Kampt, é uma bobagem os judeus quererem riscá-lo do mapa. Não conseguirão e, pelo contrário, querendo escondê-lo, farão com que até os analfabetos tenham curiosidade por ele. 
Ora!, num planeta onde está todo mundo meio f. e meio descalibrado e onde ninguém se atreve a falar sequer em CONTROLE DE NATALIDADE, que cada um beije e que leia o que achar que lhe será menos fatal!
_____________________________________
Em tempo: Enquanto isso, lá no município de Campina Grande, na Paraíba, os vereadores acabam de propor uma lei que obriga o estudo da Bíblia nas escolas, tanto nas privadas como nas públicas... E mais: com o argumento de que é um livro através do qual os alunos podem aprender além de ciência, geografia e história! Que tal?
E que ninguém estranhe se em outros municípios, por aí, para fazer um contra ponto àquela idiotice, outros porra-loucas propuserem a obrigatoriedade dos alunos lerem diariamente a obra prima de Sade: 120 dias de Sodoma.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A Amazonia como a última página do Genesis, a ser escrita...

Neste dia de sol e também como ontem, quase desértico, o mendigo K repousava a sombra dos ipês que foram semeados por aí, por algum político demagogo ou por algum pássaro. Não parecia disposto a longos assuntos e lia com entusiasmo um livro escrito e publicado em 1917 que tinha por título: INFERNO VERDE, de autoria de Alberto Rangel e com preâmbulo de Euclides da Cunha,  sobre a Amazônia. 
"Para vê-la, deve-se renunciar ao propósito de descortiná-la", estava escrito e sublinhado na página 4 do preâmbulo... Mas a frase que mais parecia tê-lo impressionado e que a repetiu mais de uma vez foi esta: "Realmente, a Amazônia é a última página, ainda a escrever-se, do Genesis..."
Misteriosamente, pensei na Mulher do Macron e logo em seguida, na mulher de César...

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O enfiador de linha em agulha de mão e a pós-modernidade...

"Mangia oggi meno di ieri
Mangia domani meno di oggi
Mangia poco.
Mangia pochissimo.
Mangia sempre meno.
Prova a non mangiare affatto..."
Página 44 - Aforismi avvertimenti e altri scritti

Hoje, quinta-feira, 05 de setembro, a cidade esta em burburinho com as últimas denuncias de Palocci. Todo mundo, inclusive os larápios disfarçados, estão se sentindo roubados. Os velhinhos que estão com medo de perder suas aposentadorias repetem obsessivamente a frase conclusiva: só com os 200 bilhões da negociata delatada, daria para suprir todas as supostas falências da Previdência! E batem na testa, e sapateiam, e não sabem o que fazer com tanta indignação.
E foi nesse clima que encontrei o Mendigo  K no interior de um armarinho no shopping central da cidade. Ficou feliz quando me viu. Pediu licença para a moça que o atendia e veio falar-me: Bazzo, acabo de descobrir  a mais fascinante invenção da pós-modernidade. Antes que eu dissesse qualquer coisa foi tirando do interior de um pacote uma peça minúscula, amarela, inicialmente parecida com uma daquelas palhetas de tocar violão, só que tinha na ponta um arame dobrado e extremamente fino. Tirou aquela peça do pacote e colocou-a diante de meus olhos como se fosse algo transcendente. Que porra é essa?, perguntei: Ele riu e dirigindo-se a atendente ordenou: diga a esse mané o que é isto!
A moça, tímida, olhou para meu joelho machucado e exagerando na delicadeza, querendo fazer-se passar por uma mulher prendada e achando aquele papo muito estranho, disse-me objetivamente: é um enfiador de linha em agulha de mão!, e foi me explicando como funciona. Enquanto eu demonstrava real interesse por aquele singelo instrumento, ele foi falando, mais para a moça do que para mim: Passei minha vida inteira assistindo minha avó, minha mãe e outras velhinhas da região passando horas para enfiar uma linha na agulha. Rezavam, blasfemavam, jogavam a agulha e a linha janela abaixo, trocavam de óculos, iam lavar-se os olhos, usavam colírios,... e nada. Acabavam saindo de casa com as calças quase caindo ou até com as tetas quase para fora... Soube até de um alfaiate que ele próprio jogou-se pelas escadas depois de meia hora tentando consertar um paletó.  Agora não! Agora até um cego pode colocar os botões que lhe faltam... e até costurar sua fantasia para as passeatas do dia 7.
Gargalhou e foi para o fundo da loja acompanhado por outra vendedora para comprar meia dúzia de botões, duas agulhas, dois carretéis de linha e uma mini-tesoura... 

As alunas e as "tias" da pós-modernidade... e El pequeño libro rojo de la escuela...

Anteontem, ontem, e ainda hoje muitos dos comentários aqui da República giram ao redor das três ou quatro meninas de 17/18 anos que numa dessas escolas sucateadas da periferia foram surpreendidas no banheiro, semi-nuas, dançando um funk e com uma delas lhes apontando uma arma de brinquedo. 
Não sei se isso é uma perversão de minha parte, mas achei o roteiro  a performance e a mensagem simbólica dessas alunas, espetacular. As "tias", comendo bolachas e tomando chá na sala dos professores, quando ficaram sabendo, foram até o local da "festa", fizeram um escândalo, baixaram os olhos para não verem os corpos suados e semi-nus das moças, clamaram por ajuda divina - que não chegou -, depois comunicaram as famílias, chamaram a policia - que chegou -, cheiraram as paredes e as fechaduras buscando algum vestígio de erva e de fumaça, colocaram a culpa no Bolsonaro e pensaram até em comunicar o fato à ONU...
E o resto da turma que em suas salas decorava o nome das capitais brasileiras; a localização dos rios mais volumosos do mundo; a quantidade de soja que é produzida anualmente no Mato Grosso e em Goiás; a data em que foi engendrada a última constituição e o número de deputados e senadores que há no Congresso Nacional, parecia achar tudo normal... E era. 
A desagregação psico-social é visível até para quem é míope, e vem sendo gestada há décadas pela canalha que veio se sucedendo no poder .
Mais tarde, falando em estresse pós traumático, duas ou três das "tias" aproveitaram para pedir uma licença remunerada de uma semana e tudo ficou por isso mesmo.
Chegando em casa voltei a ler El pequeño libro rojo de la escuela, de Soren Hansen y Jesper Jensen.


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Enquanto isso...

Pesszimista Írások...


Quem não sente compaixão pelo Palocci?

Sem cair no pieguismo cristão, confesso que sinto compaixão pelo Palocci ao vê-lo fazendo delação de seus companheiros. 
Como médico e como "italiano" deve ser dobrado seu sofrimento, pois ao mesmo tempo está burlando o juramento de Hipócrates e o da máfia. 
E não é difícil prever que seu Por-vir não será nada fácil. Tanto pelos resmungos teatrais das hienas de esquerda como pelos aplausos teatrais das hienas de direita. 
Claro que como médico, tem condições de saber que tanto os resmungos de uns como os aplausos dos outros são procedentes de uma mesma patologia e de um mesmo caráter transtornado, mas...
E as revelações que vem fazendo, ninguém duvida de sua veracidade, são terríveis. E não pelo dinheiro e pelos bilhões roubados, EM SI, mas pelo que elas revelam da indignidade, da miséria, da canalhice, da voracidade e da solidão humana...

E depois... a cadeia, não importa o pedigre dos carcereiros, é algo tão abjeto e ignóbil que é capaz de alterar o DNA até de uma pedra...








terça-feira, 3 de setembro de 2019

A RODA DA VIDA! OU: Sobre o "jornalismo animalesco"...

"Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela"
Reflexão do húngaro: Joseph Pulitzer (1847-1911)