segunda-feira, 20 de maio de 2019

domingo, 19 de maio de 2019

O texto "anônimo" do Bolsonaro e o galinheiro da Irmã Dulce...

"... el vino es fuerte, el rey es más fuerte que el vino, las mujeres son más fuertes que el rey, pero la verdad es más fuerte que todo..."
Martin Lutero


Os estóicos, os otimistas, os farsantes e os crentes de plantão (sempre muito bem remunerados) estão fingindo espanto e horror diante do texto "niilista" que o Bolsonaro divulgou nesta semana. Estrebucham, corrigem as vírgulas e os circunflexos do texto, juram que seu autor só pode ser leitor do Eclesiastes ou a reencarnação de um anjo caído, que foi Jânio Quadros que ditou o texto ali num Centro Espírita, que nada daquilo é verdade, que foi um desabafo do Getúlio feito numa aparição relâmpago ali no Centro de Tradições Gaúchas querendo justificar o petardo que detonou contra si mesmo num dia relativamente ensolarado e ainda fresco pela brisa do mar......  Enfim que a carta é puro rancor e ressentimento contra a pátria, pura covardia, uma declaração de pessimismo impotente e um certo desprezo pelas máfias e os petimetres organizados... Um desses falsários de plantão pago há décadas para manter o entusiasmo, a ilusão e a esperança entre o populacho e o rebanho em desespero chegou até a insinuar que o Bolsonaro é leitor sistemático não apenas do Eclesiastes, mas também de Vargas Vila e de Cioran. Que o capitão  deve ler Cioran no original, isto é, em romeno.

Independente de todas essas cochinadas, as razões que levaram o Bolsonario a publicar esse texto são ainda um mistério, mas qualquer um, mesmo que não viva em Brasília, sabe que política e socialmente esta tudo dominado, que  não é possível mover uma cadeira ou um pentelho de lugar sem a autorização e sem o consentimento dos tubarões vivos e dos tubarões mortos, de suas famílias e também do Papa. Que existe uma corja (de esquerda e de direita) que navegou até onde quis e que queimou todos os navios. Que nos últimos cem anos governo nenhum conseguiu tapar um buraco, salvar os rios e as matas, racionalizar a justiça, tirar o sistema educacional da beirada do abismo e nem fazer um esgoto ou um hospital funcionar decentemente. Aliás, a Irmã Dulce, recentemente elevada ao status de Santa pelo Papa argentino, foi a única neste país que conseguiu, "milagrosamente" e lá na Bahia, transformar um galinheiro em hospital... Repito: a base para santificá-la foi ter transformado um galinheiro em hospital...
Enfim, todo mundo minimamente ético e sóbrio sabe que nossa sociedade vem há séculos sendo comandada por padres, por advogados e por milícias sem que ninguém tenha se atrevido a pedir esclarecimentos ou fazer escândalos... O mais bizarro é que agora, que o Bolsonaro, (também elevado misteriosamente à presidência) ao dar de cara com esse paredão putrefato está querendo cair fora (exatamente como muitos outros malandros profissionais já o fizeram, só que com menos manha e com mais ingenuidade...) os vivaldinos de plantão fazem de conta que até então não haviam percebido nada... e estrebucham...
Diante deste espetáculo melancólico, burlesco e masoquista até ouço os velhos anarquistas russos e italianos cochichando vitoriosos entre si: o melhor governo é aquele que menos governa!  E la nave è naufragada...
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NB: Quem já leu Diário de um século, de Norberto Bobbio, deve lembrar-se que lá na página 2 há um parágrafo que se refere à Itália, mas que se multiplicado por 4 pode ser usado também para nossa situação nacional: "Um país marcado, do alto, pela prepotência e, embaixo, pelo servilismo. pela arrogância e pela má vontade, pela astúcia como arte suprema de governo e pela esperteza como pobre arte de sobreviver, pela grande intriga e pelo pequeno subterfúgio..."

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Do neoliberalismo, dos turistas babacas e da melancolia de uma saracura...

 .
[...aquele que colocar as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador e um tirano. Eu o declaro meu inimigo...]
Pierre-Joseph Proudhon

Hoje encontrei o mendigo K. no meio desta tarde quase chuvosa. Caminhava meio bêbado pela Av. Beira mar.
Como sempre, estava se queixando. Agora da exploração comercial. Estava indignado com os sete ou oito camarões que lhe custaram cento e quarenta reais ali num mercado popular... e muito mais ainda com os garçons de uma pizzaria que, por três pedaços com dois copos de cerveja artesanal lhe rapinaram os últimos centavos... Repetiu-me que depois de assaltos como esses, faz um esforço imenso para conter seus instintos primitivos e numa espécie de consolo, sempre volta a ler o Manifesto Comunista do Marx e do Engels...   
  - Olhando para o mar por onde naquele exato momento passava um buque repleto de bobalhões e otários com suas câmeras, suas bandeirinhas e suas caricaturas de felicidade - repetia os principais chavões das leis econômicas marxistas e lançava maldições contra o liberalismo económico (essa licença cretina para roubar)...
Repetiu mais cinco ou seis maldições contra os protocolos inevitáveis da sociedade e rumou para o hotel ali próximo onde estava hospedado e que, segundo ele, teria que arrumar as malas e partir porque o ar condicionado de seu quarto, atualmente com defeito, o fazia lembrar involuntariamente da Sibéria... 
Antes de passar pelo umbral de seu hotel apontou o dedo para uma espécie de saracuras que, sobre as pedras no meio do mar eram, para ele, o signo perfeito da melancolia...





sábado, 11 de maio de 2019

Enquanto isso, nos mares do sul...

A tempestade que viria da Patagônia nao apareceu, mas esta todo mundo de cara fechada a espera do sol. Teríamos herdado esse costume dos caranguejos?
Na hora do breakfest os casais não se dirigem a palavra e nem sequer se olham. Há um ódio levitando entre os personagens, principalmente por três motivos:
1.  Desde que acordaram  um acusa o outro de ser responsável pela ausencia do sol e pelo marasmo do sul.
2. O cara veio para cá com a fantasia de,
 finalmente, passar uma semana trepando. Já, ela, veio com a ideia fixa de "descansar", passar os sete dias com as perninhas fechadas e com os pés mergulhados nesse imenso pântano que, com seus 9 mil quilômetros, é o maior das Américas.
3. Porque o casal - como dizia Ambrose Bierce - é constituído por um Patrão, uma Patroa e dois Escravos...
Tenho ouvido estórias de vários pescadores. Parecem educados na Escola de Frankfurt. Sabem tudo sobre o mar e sobre as patologias infantis dos turistas. Dividem as ondas com as gaivotas e não gostam de ouvir dizer que ambos são gigolôs do mar...
E la nave va...

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Parasitando o mar imenso...

As pequenas montanhas que lembram vulcões que não vomitaram estão escondidas na neblina. Quase antes do dia amanhecer um caçador de moedas aparece ali nas areias com seu sensor. Ele, cinco seis gaivotas famintas, um ou outro que exagerou na dose, o mar, em sua longa e obsessiva lenga-lenga, e os surfistas, essa confraria de babacoes dos anos 60  
 passam ali a manhã inteira, de uma onda a outra, legitimando o pensamento de Fernando Pessoa de que 'a vida não basta!' E não pensem que são só adolescentes! Adolescentes que a mãe só deixou saírem de casa depois das orações matinais. Não. A maioria é de sujeitos já descendo a ladeira...
O vento vindo lá das geleiras de Bariloche ou do Himalaia uiva na esquina da pensão.
O caçador de moedas estaciona a meio metro da espuma do mar, enfia a enxada na areia, recolhe alguma coisa e a deposita num saco. As gaivotas que o assistem continuam imóveis como pinguins. Alguém lhes joga uma tainha. Elas quase se matam para disputar aquele cadáver ... Os turistas, cada um parasitando o mar a sua maneira, passam olhando com desconfiança e desanimo para as nuvens negras que são trazidas, segundo eles, lá da Patagônia e que ameaçam estragar as fantasias de todos... 
O mendigo K que saiu do meio de uma onda tenebrosa com uma prancha de surf veio contar-me que o nome Joaquina, desta praia, refere-se a uma senhora que ensinava as mulheres da região a fazer rendas e que, num momento de distração, ali junto ao paredão de pedras, foi puxada pelo mar... e ficou flutuando sobre suas rendas até desaparecer definitivamente e para sempre no meio das ondas...

domingo, 5 de maio de 2019

Relendo Karl Jaspers...




Ao sair com meu cachorro neste domingo de sol fomos surpreendidos, a menos de cem metros de minha casa, por um grupo de jovens que armava um altar em baixo de uma árvore. Que bizarro! Será que vão levantar mais uma igreja aí? Seriam os Filhos de Jeová?  - Me perguntou o cachorro enquanto mijava no pneu de uma bicicleta - . Ou os Hare Krishnas? Ou os Crentes do Sétimo dia? Ou os Mórmons? Ou os Adventistas? Ou os Luteranos da Cochinchina? Ou os Maometanos? Ou os Espíritas? Ou os da Nova Jeruzalem? Ou os Neo Petencostais? Ou os da Legião da Boa Vontade? Ou os Filhos de Xangô? Ou os fiéis do Vale do Amanhecer? Ou os do Templo de Salomon? Mas há um japonês entre eles! me alerta meu cachorro. Seriam os da Seicho-No-Iê? Ou os do Templo Messiânico Universal? Mas podem ser os da igreja ortodoxa grega? Mas as moças que estavam entre o grupo pareciam aquelas que acompanham o Henry Cristo. Seria o Henry Christus? Aquele que jura ser a reencarnação de Cristo? Ou seriam os fundadores da Cova de Jacó? Os da Ananda Marga? Um grupo remanescente de OSHO? Ou o pessoal da Igreja da Cienciologia? Ou os da Escola do Quarto Caminho? Ou um grupo de Maçons? Ou os da seita Missão da Luz Divina? Ou os da Nova Era? Ou, os Meninos de Deus? Ou a turma do Sai Baba? Os ufonistas? Ou de alguma Seita Satânica? Ou, talvez, os da seita de gnósticos que habitam os cafundós das montanhas de Goiás Velho? Ou seriam os pupilos da Madame Blavatsky?, aquela que gostava de recomendar: "Olhem as hostes das almas. Vejam como elas pairam sobre o mar tempestuoso da vida humana"... 
 Instintivamente quis dar meia volta, mas meu cachorro, até mais curioso do que eu, me arrastou naquela direção e, apesar de haver umas 300 seitas na cidade, concluiu: são Católicos Romanos.
Passeamos e damos voltas por uns vinte minutos pela solidão da cidade, cruzando aqui e ali com outros sujeitos também com cachorros e quando voltamos, aquele altar já estava cercado por uma multidão que rezava em voz alta e em tom de súplica. Reconheci lá quase todas as velhinhas do entorno de mãos dadas com seus tutores ou amparadas por seus filhos. Na face uma expressão melancólico/apocalíptica. 
Meu cachorro levantou as orelhas e prestou atenção nas rezas e nas cantorias. Curiosamente não pediam pelos 150 milhões da Mega Sena, nem por pimentões sem inseticidas, nem pela caída do Bolsonaro, nem pela santificação do Lula... Imploravam por perdão e por uma vaga no paraíso. Inacreditável! Meu cachorro olhou-me fixamente nos olhos como se exigisse uma explicação ou como se me perguntasse: que porra de pecado essa pobre gente pode ter cometido? Pedem perdão a quem e para quê? De onde lhes advém essa culpabilidade?
Permanecemos próximos ao grupo por uns minutos até que um dos organizadores nos convidou gentilmente a participar daquela histeria coletiva. Consultei meu cachorro e ele, mais herege do que Pilatos, moveu a cabeça negativamente, sugerindo-me que não deveríamos atravessar os limites liturgicos daquele evento. 
Voltamos para casa. E eu, que pensava estar definitivamente aposentado, me surpreendi em minha mesa de estudos com a obrigação ética de reler vagarosa e atentamente o Volume 1. do Karl Jaspers que trata especificamente de Psicopatologia Geral... E la nave va...

Papo cabeça para este estupendo domingo solar...

sábado, 4 de maio de 2019

O mendigo K, a internet e o comunismo...

Nesta manhã quase chuvosa de sábado encontrei o Mendigo K numa casa de Alfajores chilenos. Estava com uma amiga do submundo urbano vestida com trapos coloridos que a deixava com aspecto de uma princesa de Benares. Fez a devida e exagerada cerimônia da apresentação e foi me relatando: Vinha dizendo para minha amiga que a "invenção" da Internet salvou a humanidade do ridículo. Que nada nos últimos 5 mil anos do mundo foi mais fantástico e mais interessante que a Internet! E que nada é mais comunista! Sim, comunista! Os energúmenos que perdem o fôlego quando ouvem falar de comunismo são os mesmos que estão o dia inteiro desfrutando desta maravilha (puxou um celular de entre os farrapos). Nunca o  mundo foi mais e mais completamente comunista. Socializou os meios de informações e de comunicações entre magnatas, novos ricos e fodidos sem nenhuma guerra civil e sem nenhuma inquisição... Tudo agora nos é comum. O que acontece lá no Himalaia nos chega em segundos. E isto é uma maravilha! Quem foi mesmo que inventou essa maravilha? Qualquer um pode ilustrar-se. Quem é que teria acesso aos textos do Bashô ou às gravuras de Daumier se não fosse a internet?  Qualquer um pode aprender o que quiser mesmo estando ali sob um viaduto ou ali no meio do cerrado. Desde um idioma até sobre a vida cotidiana dos etíopes ... Receber aulas sobre física, sobre Max Stirner ou sobre fungos. Sobre o cérebro, sobre nossos ancestrais, sobre a dinamite, sobre as transações entre os astros. E tudo de graça! Sem gastar um centavo! Agora somos todos camaradas!  E  os Internautas unidos jamais serão vencidos! - proclamou num tom brejeiro, jocoso e cínico com um dos punhos levantados.
Mesmo que a denuncia do Baumann seja correta e que a internet tenha realmente aberto espaço e dado voz a uma legião anônima de imbecis, mesmo que isto seja verdadeiro, não importa. A maravilha esta consolidada e a humanidade escapou da maior de todas as acusações e do maior de todos os fiascos: o de vir pelos séculos afora só replicando babaquices e asneiras...

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Ministros... jacús, crustáceos, carneiros e patos...

Só da boca para fora




"Depois da revolução todos vocês poderão comer pão, ouvir poesias e ter urinóis de ouro..."
Promessas dos bolcheviques aos proletários

Até os vegetarianos e os veganos (sem falar de todos os tipos de invejosos) ficaram salivando quando viram a lista de produtos que os senhores do Supremo estavam adquirindo para seus banquetes intimistas, normalmente administrados depois de suas longas e intermináveis discussões em latim sobre a miséria nacional, sobre um ou outro crime... e depois de mandarem uns ou outros corruptos e corruptores para trás das grades... 
Que tal um medalhão de lagosta na manteiga queimada seguido por um trago de assemblage envelhecido em barris de carvalho francês? Que tal um jacú à la brésilienne? 
Mas, segundo os jornais, a lagosta nesses festins, não é tudo, é apenas um luxo a parte. Não se pode menosprezar o arroz com lascas de patos, as codornas parcialmente cremadas, os filés e as partes nobres dos carneiros... Convenhamos: uma verdadeira carnificina! Sem falar das águas, dos licores e das sobremesas, por que, afinal, as noites brasilienses são mornas, longas e aconchegantes, com ruas quase sempre vazias, alguém ouvindo o Adágio em G menor do Albinoni e com fumaça de narguilé emergindo das varandas...
Não é por acaso que as lixeiras nas mansões destes senhores são as mais disputadas pelos mendigos e até por outras classes de subalternos. Segundo o mendigo K. quando amanhece o dia, não é difícil encontrar lá nos containers restos de vinho, guardanapos ensopados de manteiga alemã e uma ou outra pata daqueles crustáceos nojentos e asquerosos...



Video enviado por um colaborador anônimo...
   


quinta-feira, 2 de maio de 2019

Para os que quiserem perder o resto das esperanças...

«Bajo toda enfermedad psíquica hay un conflicto social.»
Franco Basaglia

Quem quiser perder todas as esperanças no "progresso" e na emancipação de nossa gente, deve ir "dar uma volta"na Rodoviária do Plano Piloto lá pelas 8:00 horas da manhã. 
Nesta quinta-feira, por exemplo, além da própria rodoviária que esta prestes a ruir, a miséria inteira estava estampada lá. Gente que parece ter surgido de outro mundo envolta em seus trapos e em suas dores, negociando misérias e sofrimentos, perdidos e sem a mínima chance de alcançarem alguma dignidade. Dormindo, comendo e cagando na maior promiscuidade. Uma senhora de uns 60 anos, cercada por vendedores das mais variadas porcarias comia seu cuzcuz trazido de casa numa caixa de margarina. Enfiava seus dedos naquela meleca avermelhada e os levava à boca no meio de um tremelique doentio. Um homem visivelmente em estado terminal repousava a cabeça sobre seus chinelos... Por todos os lados vestígios de infortúnio e de transtornos mentais... Um horror e uma desgraceira infame, enquanto os gestores, os executivos, os DAS, os chupatintas apertados em suas gravatas e em suas cuecas participam de reuniões intermináveis e inúteis. Passam meses discutindo frases e palavras, projetos, leis, protocolos, anistias, bagatelas desprezíveis... Tudo inútil! E as escadas rolantes ainda estão interditadas. Desde que cheguei a esta cidade estão desativadas. Funcionam precariamente quinze dias e ficam quinze meses em manutenção! É evidente que, além do mau caratismo deve haver um deficit mental nas elites administrativas! E nesta manhã havia lá um técnico uniformizado, com um crachá no pescoço e cheio de pompas, instalando uma espécie de sensor num painel amarrado numa pilastra daquele cortiço... Inacreditável!   E o populacho dorme, hiberna, se contenta com sobras, restos, migalhas, humilhação. Sabe que se expressar alguma queixa, um guardinha de merda (subalterno do estado e seu vizinho lá nos cafundós do inferno) lhe meterá um cacetete na cabeça e o expulsará para o horror ainda pior das periferias. 
As madames e os executivos passam pelas ruas paralelas mais disfarçados possível em seus automóveis blindados de cinquenta mil euros, com os vidros escuros e com um celular ligado. A aporofobia é visível. E há pastores e seminaristas fazendo proselitismo entre aquela mendigada disfarçada. Lembram de Lázaro e de Jó. Vomitam suas idiotices metafísicas sobre aquela pobre gente. Dizem que é natural que neste mundo parte da espécie viva literalmente na merda, mas que já há um lugar reservado para eles nos céus. Insistem que nosso reino não é deste mundo, e que lá, no outro (para quem não for direto para o inferno) não haverá fome, nem frio, nem necessidade de dormir, nem de trepar. Que lá não haverá luta de classes  e nem necessidade de usar algodão puro, que todo mundo poderá andar pelado... Enfim, que os humildes serão, finalmente exaltados... 
E os mendigos, apesar de os olharem atentamente e fingirem acreditar, só não os jogam viaduto abaixo porque estão desnutridos, em estado de hipoglicemia e sem forças...

terça-feira, 30 de abril de 2019

Balburdiando... e girando em círculos como moscas...

"Não me venham agora gritar e fazer gestos de liberdade sacudindo no ar vossas correntes...!"
V.V.

Depois de prometer estrangular as áreas de humanas nas universidades, agora o Ministro da educação também ameaça cortar recursos daquelas universidades que, "ao invés de ensinar promovem a balbúrdia em seu interior". 
Balbúrdia! Esta palavra é pouco usada em nossa língua mas, por intuição, todo mundo entende que, neste caso é sinônimo de bagunça, de desordem, mediocridade, festanças, e etc. É visível que os governantes do momento têm uma visão bem antiga e retrograda da Universidade, quando ela ainda era apenas uma extensão dos conventos, das sacristias e das paróquias e seus mestres eram todos teólogos, monges, freiras, frades ou padres bizantinos... Dizem que a primeira a existir no mundo foi na Índia e que era administrada por um monge budista. E que foi seguida por outras no mundo islâmico, também administrada por líderes religiosos. E que quando chegou no ocidente, vía Bologna, era praticamente uma extensão do gheto jesuítico. 
Mas chorar e estrebuchar agora é tarde! 
A dita "esquerda" que em seus quase trinta anos no poder não conseguiu resolver dignamente a questão da Amazônia, nem a questão das terras, nem a questão das águas, nem a questão dos nativos; nem a questão dos esgotos; nem a questão dos cartórios; nem a questão das escolas; nem a questão dos hospitais; nem a questão dos bancos; nem a questão do envenenamento dos alimentos; nem a questão das estradas; nem dos Direitos Humanos; nem a questão da violência; nem a questão da polícia e dos presídios; nem a questão da miséria... e que nem sequer conseguiu convencer o populacho da importância de lavar-se as mãos... vê agora, catatônica e estupefata essa negligência refletir-se também nas universidades, lá onde os tais professores & gestores que, ao invés de, nestas duas ou três décadas, as terem transformado em centros universais libertários, focos de saber, de lucidez, de transbordamento e de prazer, deixaram tudo se deteriorar e cristalizar na mais ingênua mediocridade. Eles que poderiam ter feito de cada universidade algo, pelo menos com a dinâmica dos mercados persas, onde se aprenderia de teologia a satanismo; de Marques de Sade à Madre Tereza de Calcutá; de democracia a terrorismo; de marxismo e anarquismo a espiritismo; de circo a construção de galinheiros; de matemática a Tarôt; de streep-tease à renúncia radical; tanto a fazer partos como a administrar a eutanásia etc... agora choramingam e se apavoram ao ver que tanto o Estado como as Universidades serão, por um bom tempo, gerenciados e garoteados por homens educados sob os pressupostos da caserna. 
Que as universidades não cheguem a ser aquilo para que foram destinadas este é mais um dos sintomas de nossa burrice, de nossa pobreza mental, de nosso desvario e de nossa vã mediocridade... E la nave va...