"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 6 de maio de 2018

No rabo do cometa halley...

Meu cachorro acordou-me às 3 da madrugada dizendo que era hora de sair para ver a chuva de meteoritos, aqueles fragmentos que o cometa halley foi deixando em sua passagem lá por 1986. 
Quando percebeu que eu estava quase em estado cataléptico, preveniu-me: Bazzo, depois desta, só daqui a uns 60 anos, quando então já estaremos prá lá de Marrakesh!!! E quando nós mesmos seremos menos que um fragmento! 
Diante de tal argumento, pulei do meio dos lençóis.
A cidade estava deserta. Saímos com um mapa estelar nas mãos, um guía das constelações daqueles construídos pelos chineses ainda no tempo de Chen Zhuo, e rumamos para o fundo da noite esperançosos de ver alguma coisa, pelo menos no espaço, algo que diminuísse, pelo menos momentaneamente, a mediocridade e o tédio secular da condição humana. Claro que além dessa vã ilusão íamos também convictos de que poderíamos levar uma facada ou um tiro na primeira esquina (mas Brasília nem sequer tem esquinas!) 
No 'céu', apenas uma meia lua cercada por aquela aura que só é vista pelos delirantes e pelos míopes. 
Quatro ou cinco casais de fotógrafos se mordiscavam neuroticamente na Praça dos Três Poderes. Dois guardas que haviam exagerado na cachaça, com as mãos direitas apoiadas sobre os coldres, juravam estar vendo pedaços de meteoritos por todos os lados. Um dos casais que havia acabado de dar uns tragos numa garrafinha de Ayahuasca (o chá sagrado dos amazônicos) apontava para os lados da Papuda e jurava estar vendo além de meteoritos em zigue-zague, uma procissão de ancestrais que dançavam e que se banhavam na nascente do Rio Amazonas... Os que ainda estavam com o nariz manchado por uma farinha branca diziam ver o Cometa fazendo piruetas, soltando fogo pelo rabo e voltando, fazendo o caminho tortuoso do Eterno Retorno. 
Só nós que por mais que nos animássemos, não víamos nada. Para nós, em nossa cegueira, nem sequer as pobres Três Marias estavam visíveis... Tudo era neblina, o céu estava distante demais, tudo era silêncio e escuridão! 
Voltando para casa, meu cachorro, bocejando e visivelmente decepcionado, olhou para os quatro cantos do mundo e resmungou esta frase de Livingstone: "Um vasto corpo com uma alma esquálida..."

6 comentários:

  1. https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2018/05/06/interna-brasil,678706/surfista-carioca-que-morreu-pegando-onda-pode-virar-santo-catolico.shtml

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    1. https://www.midiamax.com.br/mundo/2018/chuva-de-meteoritos-atingira-a-terra-entre-nesta-madrugada/

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  2. https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/25/eps/1524679056_056165.html

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  3. https://www.youtube.com/watch?v=6Rw_1Q4ZOZs

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  4. https://www.youtube.com/watch?v=T6gqruLnyME

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  5. Isto me lembrou Murilo Mendes e sua grande metamorfose após a passagem do Cometa Harley! Um céu forradinho de estrelas é invejavelmente mágico!

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