"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 29 de março de 2018

Quanto mais longe se viaja, menos se sabe..." Cacarejava Lao-Tsé


Como dizia Lao Tsé: "Quanto mais longe se viaja menos se sabe..."
(Citado no livro de Ana Vicente: As mulheres portuguesas vistas por viajantes estrangeiros, Séculos XVIII, XIX e XX)

Atravessei praticamente a cidade inteira a pé para comprar um presente para meu cachorro e também para duas ou três cadelinhas, suas amigas. Numa esquina, próximo a um bar famoso que vende pastéis de bacalhau, um homem de outro país, em pé, encostado numa parede, comia as unhas. Até aí, tudo bem, quem é que já não comeu as próprias unhas?, não é verdade?, o bizarro é que ele, para chegar às unhas, havia comido as partes das luvas de couro que correspondiam a elas. Com exceção do polegar da mão esquerda. Pediu-me uma moeda. Vasculhei os bolsos e não encontrei nada para dar lhe. Sorriu-me como se estivesse me amaldiçoando ou pelo menos acusando-me de miserável! 
Hoje é Quinta-feira de Ramos. Subi até à Catedral da Sé pensando em assistir lá algum ritual da Idade Média, mas as procissões e tudo o mais estão programadas para amanhã e domingo. Perdi. 
Quando coloquei os pés dentro daquele templo de puro mármore e de vitrais estupendos ouvi o padre citando uma parte do Apocalipse onde João, lá em sua caverna de Patmos escreveu que teria ouvido de alguém a frase: Eu sou o Alfa e o Omega... Bocejei. Como não lembrar-se imediatamente do poema PARASITAS, do Guerra Junqueiro?

Ontem, na rua, inesperadamente, uma manifestação (outra) agora, reivindicando trabalho. Trabalho!.. e principalmente para os jovens. Percebem a sacanagem e o mau caráter dos velhos? 
Iam gritando pelas ruas da cidade - infestada de turistas espanhóis e italianos-  cheios de convicção que a luta continua! No meio da gritaria, dos buzinaços e das trombetas de David,  líderes sindicais quiseram saber minha opinião sobre o "ato" e ficaram surpresos quando eu lhes disse que nós, lá no Brasil, (principalmente a juventude) ao invés de estar exigindo MAIS trabalho estava fazendo todo o possível para se livrar dele para sempre. Senti que não gostaram. Mesmo eu tendo lhes mostrado o livro de Ivan Illich que levava na bolsa: LE PROFESSIONI MUTILANTI e lhes fornecendo alguns dados estatísticos da quantidade de internos em manicômios por causa do trabalho, senti que
se retiraram achando que eu era mais um desses pobres e alienados idiotas que vagavam pelo mundo sem consciência política nenhuma... Ouvi atenta e clinicamente as criticas e observei que continuaram marchando com o mesmo entusiasmo e convicção, balançando bandeiras no ar e gritando que a luta continuaria.., e que queriam, a qualquer custo, MAIS trabalho. Trabalho e estabilidade! Vejam só: Trabalho e estabilidade! Quando esta é exatamente a formula perfeita para o desvario e para a mediocridade!!!
Na frente e na retaguarda da manifestação, por ironia ou por sarcasmo iam, como dizem aqui, comboios da polícia e bem atentos... 
Bah! Tive novamente aquele insight mencionado por Cioran: meu conflito não é com a sociedade e nem com a humanidade, é com a criação. E LA NAVE VA...























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