"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 25 de março de 2018

A Páscoa e o Sabbath...

"Volando sull'Atlantico si accorge que il jet è abitato da persone morte, che vano verso il nulla..."
Ennio Flaiano
(Diario degli errori, página 83)

Neste domingo quase de Páscoa encontrei o mendigo K. bem na entrada da Feira de Porta-Portense. Estava visivelmente feliz com o sol que, finalmente, despencava sobre o rio Tibre e sobre Roma. Exibiu-me ironicamente o livro  de Jean-François REVEL que estava lendo: LA CONOSCENZA INUTILE e um ramo de oliveira que levava no bolso. Tossiu uma tosse que parecia de tuberculose e agregou: 
- bento pelo Papa argentino! Bento ou benzido? 
Como hoje é Páscoa (?) - me alertou - a cidade parece estar em pleno Sabbath, todo mundo com uma touceira de ervas sob o braço. - Apontou para nosso redor, e realmente todos, velhos, velhas, jovens e até alguns lazarones levavam pelo menos um ramo de ervas. Vinham ou iam para o Vaticano para que o Papa argentino os benzesse...  
Contou-me, em seguida numa espécie de regressão neurótica que quando era criança, em sua casa sempre havia atrás das portas (junto à espingarda) algum tipo de erva benta pelos padres ou até mesmo pelas freiras da cidade. Ervas de emergência! Que eram queimadas quando havia tempestades, ventanias, incêndios, epidemias, noticias de que o diabo estava solto, para que as crianças não mijassem na cama ou coisa parecida. Lembrou naquele momento que muitas vezes, em sua infância, no meio de madrugadas cheias de trovões e de vendavais, via sua mãe andando pelos quartos do imenso casarão onde viviam rezando em voz alta e  queimando aquelas folhas como se fosse incenso... E que, mesmo com sua pouca idade, interpretava tudo aquilo como um fantástico  ritual de feitiçaria ou a iniciação de um Sabbath. Diminuiu a voz para confessar-me que secretamente, sempre torcia pela tempestade, que gostaria de ver, pela manhã, a cidade destroçada e arruinada... Com os postes caídos, as ruas congestionadas de lama e gelo e os armazéns fumegando no meio de cinzas... E que, claro, quando a tempestade passava, todo mundo da cidade (era uma cidade praticamente só de carpinteiros), entre Porco dios  e outras blasfêmias iam consertar as portas, janelas e telhados que haviam sido despedaçados... todos acreditando (ou fingindo acreditar) que aquele "diluvio" havia sido interditado por causa daquelas singelas folhas bentas incineradas ou daquelas poesias em latim... Deu uma gargalhada e apontando para duas velhinhas que passavam pelas ruínas de Porta Portense me alertou: observe, preste atenção como tudo isso parece uma grande jornada de feitiçaria... 
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EM TEMPO - Depois que já nos havíamos despedido ele me fez quase aos gritos uma observação, aparentemente fora de contexto, mas cheia de sarcasmo:
- Bazzo, e quando alguém no Brasil voltar a lhe perguntar por quê os corruptos (e suas amantes) querem cada vez mais dinheiro, faça-os conhecer algumas imagens do Golfo de Napoli e principalmente da ilha de Capri... (deu uma longa gargalhada e desapareceu).



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