"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 31 de março de 2018

As viagens, os ingênuos e os larápios...


“Ao meio do caminho de nossa vida, me encontrei em uma selva escura, onde a via direita estava turvada” 
Dante 
(na Divina Comédia)

Se no passado as viagens significavam uma ruptura com as prisões domésticas, com a babaquice do sedentarismo e da 'estabilidade', agora se transformam num verdadeiro miserere de ovelhas pelo planeta afora onde tudo está dominado pelas mesmas aves de rapina. O turismo, frequentemente adjetivado de prostitutivo, continua sendo, mas não mais genital, comercial. Muito pior. Pelo menos aquele implicava prazer e gozo. 
As agências de viagens, os hotéis, os navios, os aviões, os trens,(os velozes e os tartarugas) os restaurantes, as casas de câmbio, os cartões de crédito, os ônibus panorâmicos, as gôndolas, os tuk-tuk, os alugadores de bicicletas... os vendedores de ships... a seda falsificada... e as camisas de puro cotton por 9 euros... tudo pertence aos mesmos grupos de larápios que manipulam os rebanhos para que, pelo menos uma vez por ano, no quase religioso mês de férias, viagem e lhes transfiram as míseras economias poupadas/acumuladas no ano de acosso e de escravidão. E há médicos, gerentes de bancos, vendedores de seguro, padres e radialistas nos aeroportos para descolar um clonazepan, um cartão de crédito ou uma hóstia (mesmo que seja virtual) aos mais fóbicos e para propagandear as maravilhas dos passeios... Depois da emissão do passaporte, cada sorriso te custa no mínimo um euro. A putaria comercial tomou conta de tudo e até, repito, superou a putaria genital. Agências de viagens; líderes de tours, nutricionistas, fotógrafos, massagens, gorjetas, taxistas, carregadores de malas, puxa-sacos, traficantes, internamentos, convenções... e os bandos vão enlouquecidos, com duas ou três malas pelos países que os especialistas decidem, acreditando que isto lhes renderá mais status, reconhecimento, cultura, razão para seguir vivendo e que a viagem os tornará menos impostores ou pelo menos impostores menos vulneráveis... Grupos de velhos, de gordos, de para-olímpicos, de especialistas em espinha dorsal,  de homogenitais, de ioguis, de negros, de amarelos, de albinos, de devotos da Nazaré... Grupos de senhores do Lyons, da TFP, da Nova Ordem Mundial... Gente que vai para um Congresso geriátrico de comunistas em Budapest ou de jovens fascistas em Milão. Reunião de charlatães anônimos em Paris ou nos Alpes... De deprimidos que vão meditar no Tibet! Ou fumar hashishe em Marrakesh! A ralé adora atravessar o planeta para assistir a um jogo de futebol, a uma corrida de cavalos ou ao milionésimo quinto Concerto de Mozart... (os cavalos, os jogadores e as próprias orquestras sinfônicas também são dos mesmos donos... e os violinos estavam desafinados...) 
E na frente desses bandos de energúmenos sempre vai um guia poliglota (claro), lembrando que o inglês é obrigatório e que (as devidas escolinhas também são dos mesmos proprietários)... Natal, Páscoa, Fim de ano, casamentos, batismos, terceiras núpcias... E o odioso ruído de malas sendo arrastadas pelos luxuosos aeroportos do mundo. Fiumicino! Charles de Gaule! O de São Petsburgo me foge o nome... E a cada momento vem um idiota falar-te em inglês, com você que não sabe mais nem mesmo o teu idioma materno. (Existirá algo mais deprimente e melancólico do que ver o escravo se esforçando para falar o idioma de seu patrão, de seu colonizador e de seu senhor?!) O ruído das malas sendo arrastadas. E a policia que sabendo ou não trabalha exclusivamente para os trustes está sempre lá, em pé, como um cão de fila, atenta. Os tais agentes não dormem mais depois do atentado no prédio de N.York. Para eles pode haver terroristas até dentro de uma caixa de fósforo. E na hora de ir para o avião a humilhação é ainda maior. Só falta enfiarem um detector de metais no rabo dos passageiros em busca de alguma ameaça. E todo mundo, inclusive as mulheres, tiram os sapatos, abrem as pernas (como poucas vezes), levantam os braços  e se entregam quase amorosa e perdidamente ao 'tira' que, em nome da ordem, da segurança, dos oligopólios e inclusive da moral lhes dá uma "geral" entre as pregas.  Umas, logo em seguida, até enviam um WhatsApp para os familiares confessando que nunca foram tão felizes. Com o atestado de inofensivos que essa revista lhes concede, vão sorridentes, recolocando as calças em direção ao free shop. Aliás, para chegar ao avião, é necessário passar por dentro de todas as lojas duty-free, que não têm nada de free e cujos donos são os mesmos das agências de viagens, dos hotéis, dos seguros-saúde, dos puteiros, dos restaurantes, das casas de chá só para lésbicas nas ilhas gregas, das lojinhas de souvenirs espalhadas pelo planeta e até das imensas catedrais que sempre são visitadas pelos bandos e que cobram pela visita do ambiente sagrado quase o preço de uma cerveja num Pub... E, paradoxalmente, quanto mais pobre e fodido é o país de onde os viajantes são originários, mais cartões de crédito na carteira, mais endinheiramento e mais petulância... 
E passou a ser quase um delito ir à Lisboa, por exemplo, sem encher diariamente as tripas de bacalhau, sem passar o dia comendo pasteizinhos de Belém e bebendo vinho. Estar em Roma sem andar com meia pizza na bolsa é quase um sacrilégio. E em Londres, quem não comer diariamente aquele peixe com batatas fritas é logo suspeito de pertencer ao Estado Islâmico!
São roubados e feitos de trouxas pelos pequenos ratos de hotéis, de rua, de restaurantes, cabares e etc, sem sequer tomar conhecimento. Só quando voltam para seus países destroçados e vis é que os gerentes de bancos (principais agentes de tudo o que lhes relato), vão comunicar-lhes da rapina que foram vítimas e oferecer-lhes de imediato (e cordialmente) um novo empréstimo para cobrir os prejuízos e para as férias do próximo ano... Que tal agora dar um pulinho até A Índia!??? 
Uma vergonha! Uma loucura! Uma miséria! Uma escravidão disfarçada! Impossível não sentir-se uma ovelha!
Neste momento - por exemplo - aqui na porta de embarque 43 parece um acampamento de refugiados e praticamente só de mulheres. Elas, que no passado só frequentavam os lupanares greco/romanos, que depois migraram para as igrejas e que agora estão se lançando desvairadamente pelas estradas do mundo... E é curioso que todos esses fdp deixam para cagar aqui no aeroporto. Por quê não levantaram meia hora antes e o fizeram no hotel? Já dentro do avião, o que parecia um acampamento de refugiados começa a parecer-se com a Nave dos loucos mencionada por Foucault e pelos psicanalistas mexicanos... 
As turbinas são acionadas e la nave va...
Ao desembarcar no aeroporto de Brasília, o mendigo K que havia chegado uns minutos antes do Azerbaijão, veio recepcionar-me e murmurou  cinicamente: bem vindo ao nono circulo de Dante!!!

quinta-feira, 29 de março de 2018

Quanto mais longe se viaja, menos se sabe..." Cacarejava Lao-Tsé


Como dizia Lao Tsé: "Quanto mais longe se viaja menos se sabe..."
(Citado no livro de Ana Vicente: As mulheres portuguesas vistas por viajantes estrangeiros, Séculos XVIII, XIX e XX)

Atravessei praticamente a cidade inteira a pé para comprar um presente para meu cachorro e também para duas ou três cadelinhas, suas amigas. Numa esquina, próximo a um bar famoso que vende pastéis de bacalhau, um homem de outro país, em pé, encostado numa parede, comia as unhas. Até aí, tudo bem, quem é que já não comeu as próprias unhas?, não é verdade?, o bizarro é que ele, para chegar às unhas, havia comido as partes das luvas de couro que correspondiam a elas. Com exceção do polegar da mão esquerda. Pediu-me uma moeda. Vasculhei os bolsos e não encontrei nada para dar lhe. Sorriu-me como se estivesse me amaldiçoando ou pelo menos acusando-me de miserável! 
Hoje é Quinta-feira de Ramos. Subi até à Catedral da Sé pensando em assistir lá algum ritual da Idade Média, mas as procissões e tudo o mais estão programadas para amanhã e domingo. Perdi. 
Quando coloquei os pés dentro daquele templo de puro mármore e de vitrais estupendos ouvi o padre citando uma parte do Apocalipse onde João, lá em sua caverna de Patmos escreveu que teria ouvido de alguém a frase: Eu sou o Alfa e o Omega... Bocejei. Como não lembrar-se imediatamente do poema PARASITAS, do Guerra Junqueiro?

Ontem, na rua, inesperadamente, uma manifestação (outra) agora, reivindicando trabalho. Trabalho!.. e principalmente para os jovens. Percebem a sacanagem e o mau caráter dos velhos? 
Iam gritando pelas ruas da cidade - infestada de turistas espanhóis e italianos-  cheios de convicção que a luta continua! No meio da gritaria, dos buzinaços e das trombetas de David,  líderes sindicais quiseram saber minha opinião sobre o "ato" e ficaram surpresos quando eu lhes disse que nós, lá no Brasil, (principalmente a juventude) ao invés de estar exigindo MAIS trabalho estava fazendo todo o possível para se livrar dele para sempre. Senti que não gostaram. Mesmo eu tendo lhes mostrado o livro de Ivan Illich que levava na bolsa: LE PROFESSIONI MUTILANTI e lhes fornecendo alguns dados estatísticos da quantidade de internos em manicômios por causa do trabalho, senti que
se retiraram achando que eu era mais um desses pobres e alienados idiotas que vagavam pelo mundo sem consciência política nenhuma... Ouvi atenta e clinicamente as criticas e observei que continuaram marchando com o mesmo entusiasmo e convicção, balançando bandeiras no ar e gritando que a luta continuaria.., e que queriam, a qualquer custo, MAIS trabalho. Trabalho e estabilidade! Vejam só: Trabalho e estabilidade! Quando esta é exatamente a formula perfeita para o desvario e para a mediocridade!!!
Na frente e na retaguarda da manifestação, por ironia ou por sarcasmo iam, como dizem aqui, comboios da polícia e bem atentos... 
Bah! Tive novamente aquele insight mencionado por Cioran: meu conflito não é com a sociedade e nem com a humanidade, é com a criação. E LA NAVE VA...























terça-feira, 27 de março de 2018

Vejam aí o resultado do processo civilizatório e da ideologia de género. Desse jeito, logo logo nem se venderá mais cuecas...(imagens gravadas no Museu Nacional de arqueologia/Nápoles)

[...Quando il camaleonte è al potere, cambia colore l'ambiente...]
Stanislaw J. Lec














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EM TEMPO - A midia europeia lembra e "comemora" os 20 anos do VIAGRA. 
Um velhinho da Calábria, visivelmente bem ilustrado, enquanto subia fatigado pela ladeira que leva à cratera do Vesúvio ia discursando para dois amigos de sua idade, de seu porte e de sua laia: - Quê dirão os historiadores daqui a cem anos sobre essa bengala do Phalo? Sobre essa Pilula do demónio ??? Sim, para as nossas velhas que já se sentiam libertas e livres da única obrigação matrimonial, a pílula só pode ser uma sacanagem, não apenas do capitalismo e da Pfizer, mas do diabo pois, para elas o que Freud denominou libido é apenas um falsete de demônio... Os sociólogos, claro, não se intimidarão em afirmar que se antes era pão e circo, agora é viagra  trabalho & cidadania!!! Para os beatos e até mesmo para os hereges, será lembrado como algo similar à  hóstia... Já, pelos lacanianos, será descrito como uma espécie de spaguetti ou bife de plástico que sacia e engana mas que não nutre, uma espécie de gerador de desejo descolado do Desejo... Entendem? Enquanto que para os estivadores e imigrados pobres, humilhados, fodidos e broxas, morando em cortiços e vivendo como escravos apenas de restos e de sonhos, essa pílula (mesmo a genérica ou falsificada) é a oitava maravilha do mundo...
A ladeira ficou mais íngreme e ele interrompeu o discurso por falta de fôlego. Um de seus amigos recitou, de forma irónica, um antigo pensamento cigano: "É, acender a chama é fácil, o difícil  é protegê-la do vento..."
A cratera do Vesúvio estava lá. Dois mil anos depois, intacta e sem nenhuma culpa... 
A multidão a olhava e a enquadrava por todos os ângulos e ela  lhes devolvia o enquadramento e o olhar com a mesma estupefação como se quisesse
  lembrar-lhes da frase de Nietzsche: Cuidado: se olhas demasiado para o abismo o abismo também começa a olhar-te......
De um lado, o antigo puteiro de Pompéia, do outro, a simpática e 'perigosa' Torre del grego... Herculano... E il mare...

segunda-feira, 26 de março de 2018

Gramsci, Shelley e o filho de Goethe no Cimitero Acattolico per gli stranieri...

P. B. 
Caminhando da estação Pirâmide, do metro, se chega em uns 15 minutos na entrada principal do Cimitero Acattolico di Roma, reservado aos estrangeiros e onde está enterrado Gramsci, o filho de Goethe, o poeta Keats e também o poeta Shelley, Von Humboldt, Garibaldi e uma trupe imensa de personagens considerados "não católicos", quase todos famosos que vieram consciente ou inconscientemente morrer em Roma: Vedere a Roma e dopo morrire!!! Diziam os imigrantes, mesmo os que não tiveram tempo...

Curiosamente, em todos os cemitérios europeus sempre há corvos, aqueles corvos  personagens do Edgar Allan Poe. E sempre piando, não sei se para  manter os mortos mortos ou se para prevenir os vivos. Foi praticamente um deles que me conduziu até a tumba de Gramsci. Quase junto ao paredão final da parte nova, sempre cultuado por velhos e jovens comunistas... O único gato que encontrei estava hibernando ao sol junto às tumbas de uma tal Principessa Anna Matchabelli (1803-1943), e de uma tal Danita Vuksan (1894-1939). Olhou-me com desprezo e desinteresadamente e voltou a dormir...
Uns dez 'necrófilos' circulavam pelas veredas entre as tumbas, praticamente todos com vestígios de insonia, uns visivelmente deprimidos, outros até chorando, outros naquela marcha característica de quem já, há muito tempo, perdeu o 'bonde da sanidade'... Seriam os beneficiados por Basaglia? O mais interessante aconteceu diante da lápide de Shelley: o poeta Shelley! Conhece? Uma moça elegante e com aspecto nada mórbido, falando italiano mas com perfil indefinido movia-se de um lado a outro enquanto recitava um dos mais famosos poemas do morto, chamado ODE AO VENTO DO OESTE. Sentei-me numa tumba próxima de onde ela se movia e fiquei assistindo, até com uma certa emoção aquele ritual pra lá de metafísico e possivelmente psico-patológico. Ela terminou sua apresentação com um filete de lágrimas que lhe escorria dos olhos pelas beiradas do nariz e veio presentear-me com uma cópia do referido poema. Os corvos piavam por todos os lados e por sobre nossas cabeças... o sol se infiltrava por entre os ramos das arvores e os mortos, em seu silêncio sepulcral, cada um no seu quadrado,  pareciam alertar-nos de que não voltariam para as ruas de Roma nem mesmo amarrados...

















































              III