quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Pruitt-Igor & Brasília / Ou: As ruínas da modernidade...


"Olhe por cima de seu ombro, você está fazendo muitos inimigos. E, nesta cidade, vadias são enterradas".
Sara Shepard



Pruitt-Igor
Brasília
No segundo capitulo do livro La trampa de la diversidad (Las ruínas de la modernidad) o autor (Daniel Barnabé) dedica umas cinco páginas a grandes projetos arquitectónicos dos anos 60,70, sem contudo mencionar Brasília e nem mesmo Niemayer. Faz uma apresentação especial do Complexo residencial urbano conhecido por Pruitt-Igor, projectado e construído em 1955, na cidade de Saint Louis (Missouri) pelo arquiteto japonês Minoru Yamasaki e que foi demolido a dinamites nos anos 72/76.
O que chama atenção neste assunto é:

1) a semelhança arquitetônica desta, com a construção de Brasília; (Ou será que qualquer semelhança é mera coincidência? 

2) o sucateamento descarado dos prédios, dos apartamentos, das paredes, das ruas e viadutos, (das duas) como se tivessem sido feitos deliberadamente para albergar burocratas de segunda classe, semi-pobres junto a uma legião de subalternos e do lupemproletariado; 

3) que Pruitt-Igor foi arquitectada e inaugurada em 1955 e Brasília em 61. 

4) que provavelmente Bsb, com o pretexto de modernidade e dos baixos custos, foi baseada nos núcleos suburbanos fodidos de outros países (como esse do Missouri, como a banlieue de Paris e como os cortiços verticais do leste europeu)... 

Mas.., o mais importante disso tudo, é Pruitt-Igor (essa merda suburbana ) ter sido demolida com bananas de dinamite menos de três décadas depois de ser inaugurada, e por razões diversas, principalmente por não cumprir adequadamente com as funções de urbanidade e de civilidade... Outra curiosidade no texto, é que Le Corbusier é citado enquanto o velho Niemayer... não. 



terça-feira, 13 de novembro de 2018

A armadilha da diversidade... Ou: o rebanho indo para o brejo...

O mendigo K que todas os dias vai a um café da Granvia bebericar um capuccino com um bolo de cenoura, estava lá, com outros dois mendigos, um da Romênia e outro da Holanda, nesta manhã do dia13, aproveitando o sol que "milagrosamente' reapareceu... e discutiam um livro já sem capa que estava sobre a mesa. Um livro de Daniel Barnabé com o titulo: La trampa de la diversidade ou: (como el neoliberalismo fragmentó la identidad de la classe trabalhadora). O assunto - foi logo me prevenindo - é fundamental, principalmente para os latino-americanos que ficam irresponsavelmente e como papagaios repetindo e colocando em prática o que os teóricos daqui, na porralouquice, colocam em pauta sem ter consciência da armadilha em que estão caindo... Puxou uma cadeira para que eu me sentasse e foi lendo alguns trechos:  

1. "El gran invento (e a malandragem) de la diversidad es convertir nuestra individualidad en aparente lucha política, activismo social y movilización. La bandera deja de ser colectivista para ser expresión de diversidad, diversidad hasta el limite, es decir, individualidad. (...) Los hombres y mujeres que luchaban por una sociedad más justa combatiam la desigualdad...  Agora se reafirma e se reivindica la diferencia sin percibir que, tras ella, podemos estar defendiendo lo que siempre combatimos." Entende?

2. O uso e abuso que o comércio esta fazendo da diversidade é espetacular. Por  exemplo: uma simples loja de brinquedos eróticos consegue publicar uma reportagem com este título: "Uma eroteca vegana feminista, transgêneros e respeitosa com a diversidade relacional e corporal" Caralho! Bazzo. Percebe a malandragem e o charlatanismo que há nisso? Aliás, você sabia que nos EEUU se vende até perucas para vaginas? O neoliberalismo enrabou todo mundo. Distraiu uma juventude alienada e babaca com essas estórias de viadagem, de pureza, de género, de diversidade enquanto aperfeiçoava seus negócios e turbinava seus bancos e lucros. Veja o caso da Frida Kahlo. Romantizaram cinicamente suas desgraças e transformaram sua pós-existência num negócio! De uma simples pintora (quase freira) que flertava com o comunismo, que "era casada com um porco" e que nem era feminista (segundo escreveu E. Shackelford em 1990, no New York Times) foi transformada em algo que nunca foi e hoje seu nome vende bolsas, sapatos, pulseiras, perfumes, roupas, crenças e o diabo a quatro. Tudo é convertido hipocritamente em supermercado. Recentemente foi motivo de piada a descoberta de que a Theresa May, a líder das direitas britânicas, levava no braço uma pulseira da camarada Frida Kahlo. Como é possível, se perguntavam os rebanhos na rua que uma conservadora como ela leve no braço uma pulseira com a marca de uma comunista? 
Resposta: porque tudo é teatro, festim de milionários por um lado e festim de mendigos por outro. Acreditem: há um transtorno de personalidade generalizado. O mundo é um circo e cada vez mais suburbano... Quê miséria!!! 
Disse isso, deu o último trago em seu capuccino, bateu-me nas costas e saiu por uma porta dos fundos sem pagar a conta...


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A dignidade da Europa se afoga no Mediterrâneo...


"...Y aprenderían convertirse en hombres del mundo, primer paso para llegar a convertirse en hombres del universo..."
G.K. Chesterton

Ontem a manifestação ali na Puerta del sol foi das mulheres. Imigradas e marginais asiáticas, mouras, ciganas, negras e latino-americanas...
 Já era noite e seus gritos de guerra se dirigiam basicamente ao racismo institucionalizado espanhol e, claro, contra os "brancos heterossexuais, exploradores, violadores, hijos de puta" e etc. Logo de inicio já se podia perceber que não se tratava apenas de mais  uma das neuróticas manifestações de "diversidade", mas de classe. Os cartazes abaixo podem dar uma ideia geral das inquietudes e das angústias dessas mulheres que, por não poderem viver livremente em seus países de origem, foram obrigadas a vir para cá, a dispersar-se pela Europa e viver diversas situações de exploração e de violência. Havia literalmente de tudo na manifestação e as acusações contra a Espanha "colonizadora e racista" foi feita até por uma cigana sobrevivente de Auschuwitz e que vive atualmente nos EEUU... As representantes de cada grupo (ciganas, negras, árabes, asiáticas...) leram emocionadas a seus manifestos, todos impregnados de romantismo, de idealismo e até mesmo de um certo sensualismo e a multidão gritava com os punhos para o alto... Teve até uma pessoa de identidade confusa que, no meio de seu discurso pronunciou esta frase + ou - enigmática: Somos todas Malinche!
Malinche? Mas como? Malinche não foi a índia mexicana que aliou-se ao velho Cortês e que traiu descaradamente a seu povo?
Gritos e punhos para o alto!
A dignidade da Europa se afoga no Mediterrâneo! gritava outra, referindo-se aos africanos que morrem afogados ao tentar chegar no território espanhol. Denunciaram o acosso sexual pelo que passam as domésticas asiáticas; a violência policial; a burocracia para conseguir documentos; a necessidade de viver em guetos; alguns assassinatos brutais de imigrantes inocentes, as deportações e as prisões; o colonialismo ainda vigente, sem esquecer de mencionar a imoralidade cotidiana da repressão policial contra os negros "manteros"(esses que, sobre mantas, vendem por aí produtos nas calçadas e que de meia em meia hora são obrigados a recolher suas coisas e fugir da polícia...). 
Aos gritos falaram sobre o preconceito secular contra os ciganos, contra o lesbianismo, contra os negros e sobre a ironia que é sutilmente dirigida aos chineses, japoneses e outros asiáticos, tanto por suas características como por sua dificuldade de falar o espanhol... Acusaram a Espanha de ter roubado tudo da América latina: as terras, os alimentos, a cultura, a flora, a dignidade, os metais, a música e etc. Foi um show! Um show revolucionário contra o Estado, contra a monarquia e contra o capitalismo. Mas que perdia completamente o sentido para aqueles que, horas antes, haviam presenciado uma mulher negra enrolada na bandeira da Nicaragua, nos arredores da Almudena, denunciando os crimes absurdos e estúpidos cometidos no dia-a-dia naquele país, pelo "camarada"Noriega"... Enfim, para o show ter sido completo, só faltou a música (abaixo) do Manu Chao:




































sábado, 10 de novembro de 2018

O fantástico legado árabe na Espanha...

Biblioteca e sanatório mental...

Uma leitura fundamental, principalmente para quem costuma frequentar bibliotecas é este livro do Gilbert K. Chesterton: Lectura y loucura, tradução de Lunacy and Letters que, apesar de ter sido escrito em Londres em1958, tem plena vigência, não apenas por aqui, (nas cidades hospício européias) mas em qualquer grande biblioteca, inclusive latino-americana. 
Para onde ir? Se perguntam os verdadeiramente transtornados, quando amanhece o dia. Para a biblioteca lhes responde uma voz sacana e maliciosa saída dos labirintos do inconsciente... E ali, no meio de prateleiras empoeiradas e cheias de ácaros, em companhia de milhares de outros loucos (autores) passam os dias delirantes de suas existências... fingindo que a vida tem algum sentido... Enquanto, lá fora, os lobos ignorantes uivam... E la nave va...



Já na página 7 do livro (são 260) se pode ler: "São numerosos os indícios que nos levam a conclusão, verdadeiramente assombrosa, de que a Biblioteca do Museu Britânico, além de seus múltiples serviços, desempenha muitas vezes as funções de um sanatório mental...". E mais adiante, na página14: "Los riesgos de enajenación mental que conlleva la literatura se deben no tanto al amor por los libros como a la indiferença hacia la vida, los sentimentos y  todo cuanto aparece reflejado en los libros..."

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

De Almudena à Passionaria...

A festa de hoje em Madrid, é a maior de todas.
 Comemora-se neste dia de novembro o dia da Santa Almudena, a padroeira da cidade. Sua estória como a de todas as santas do mundo é cercada por lendas e mistérios bizarros. Dizem que quando os mouros invadiram a Espanha, lá pelo século VIII, um bispo de Toledo orientou seus beatos para que escondessem a imagem da Santa. E que depois da reconquista, uns trezentos anos depois, já com os árabes expulsos, o Papa Gregorio, junto com o rei Afonso VI e caterva, saíram em procissão pelas ruas de Madrid em busca da imagem. Ao passarem lá pelos lados de la Pureza de la Vega, não é que a santa despencou de uma muralha aos pés dos peregrinos!... Era o milagre! E mais: as velas que haviam sido postas lá num buraco da muralha, há três séculos atrás, junto com a imagem, ainda estavam queimando...
O sol está uma maravilha e todo mundo, milhares de pessoas, com hálito de Pata Negra e de Rioja vão à Basílica de Almudena levar um ramito de flores à santa... A Passionária, por sua vez, repousa em paz... e decepcionada com seus camaradas...
Passionária? Outra entidade feminina espanhola, também famosa e mistificada pelos sectários, só que de outra religião, e que esta enterrada ali no Cemitério Civil é a Passionária (a basca Dolores Ibárruri Gómez). Qual é o comunista espanhol ou latino-americano que ainda não acendeu uma vela à velha Passionária? E que não tem atrás da porta, junto as de Lênin e de Madre Teresa, uma fotografia dessa mulher? Os comunistas que sobraram por aqui ainda perdem o fôlego quando relatam as bravuras dessa mulher nos anos calientes de Franco. Um senhor a quem ouvi falando dela e de outros "camaradas" numa das esquinas seculares de La plaza Mayor, se referia poeticamente ao período da ditadura franquista como A NOITE DE PEDRA (La noche de piedra).
Uma frase que é atribuída a essa senhora e que deve ter assustado e causado um estrago imenso às confrarias idealistas/comunistas da época foi esta: 
"Más vale matar a cien inocentes do que dejar escapar a un solo culpable"
E la nave va...