[...Che i dodici dei, oltre a Diana e a Giove, i migliori e i più grandi, maledicano chiunque osi

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Faulkner & o tempo...



"Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse: estou lhe dando o mausoléu de toda a esperança e de todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda a experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e néscios..." 
(William Faulkner) 








BALI EM LAVAS... a ilha que sempre foi o melhor roteiro para os vagabundos lúcidos dos anos 80...

"Um homem que sofria cruelmente de sede se lamentava:
Ah, como eu invejo aqueles que se afogam!..." (Saadi, in: Paroles persanes)







segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Porquê o capitalismo engendra um rebanho vil e asqueroso...

"O poder corrompe. A impotência também..."
Thomas  S. Szasz

Parte significativa do eleitorado de Brasilia chorou hoje ao saber que o ilustríssimo Luciano Huch desistiu de candidatar-se à Presidência da República e outra parte, ainda mais significativa, chorou copiosamente e com mais desespero quando soube logo pela manhã, pela boca de um velho jornalista de rádio, que o mesmo Huch, fatura por ano 85 milhões de dólares, o que significa uns 7 milhões de dólares por mês... Que tal? Não é um bom faturamento para um país onde 80% da população vive na penúria e às margens da desgraça? O  jornalista que deu a noticia o fez praticamente de quatro, babando e tentando justificar essa infâmia asquerosa com a verborréia e com a subserviência que todos conhecemos. 
O mendigo K, que já estava ao par dessa aberração fez o discurso de sempre: É por isso - me disse com cólera - que o capitalismo, associado à indigência mental é algo asqueroso... algo que transforma as pessoas em seres ainda mais vis e desprezíveis do que já são...!!! Cria condições para uns vivaldinos,  trapaceiros e zé roelas ganharem fortunas enquanto a maioria de otários apodrece na miséria. Me disse isso e pediu licença para vomitar e para retirar-se porque ia para casa reler, outra vez, o Livro vermelho de Mao Tsé Tung...

Elogio da preguiça...

Eloge de la paresse au bureau

Par  


Un dossier urgent à terminer ? Ça peut attendre demain !

De nos jours, la procrastination est vue comme un handicap, presque une tare sociale dont on s’avoue victime en baissant honteusement la tête, tel un lépreux improductif. Comme le laisse entendre Tim Urban, auteur du blog « Wait but why », le procrastinateur abriterait dans son cerveau un « singe de gratification instantanée » piratant sans cesse son système de prises de décisions rationnelles. Au quotidien, sous l’influence de ce macaque inconséquent, c’est avec une culpabilité latente que l’on se livre aux virées sans fin sur Instagram, à la lecture interminable de pages Wikipédia, aux recherches « ulysséennes » de destinations week-ends sur Airbnb. Autant d’activités menées de front durant les heures de travail dans une ambiance de semi-clandestinité dommageable pour les nerfs.

Culpabilité

Lorsqu’on remet consciencieusement à demain ce que l’on pourrait faireaujourd’hui, on a toujours ce sentiment désagréable d’être un adolescent contraint de camoufler aux yeux de parents puritains une coupable activité masturbatoire. N’est-il pas curieux de se sentir ainsi en faute alors que l’on est simplement en train de mettre son esprit au repos ? Rappelons que certains vont jusqu’à rapprocher le mot « travail » du latin tripalium, nom d’un instrument de torture… A la lumière crue de cette exhumation étymologique parfois contestée, il est donc grand temps de réviser nos a priori : non, la procrastination ne doit plus êtreenvisagée comme l’expression d’une inadaptation sociale, mais plutôt comme un signe enviable de bonne santé mentale. D’après une étude menée par la revue Computers in Human Behavior, le fait de regarder des vidéos de chats permettrait notamment de dissiper les émotions négatives et de provoquer un regain d’énergie chez le travailleur.

Distraction = concentration

Si elle ne devient pas un moyen de fuir nos responsabilités mais uniquement de les différer, la procrastination est sans doute la meilleure réponse qui soit à l’accélération du temps productif. « Distraction is the new concentration », professe même le poète américain ­Kenneth Goldsmith, qui propose, dans le cadre de l’université de Pennsylvanie, des cours de cyber-glandouille intitulés « Wasting Time on the Internet ». Flâner sur le Web serait, pour Goldsmith, le moyen d’élargir son horizon créatif, de s’ouvrir à des sphères inexplorées de son propre inconscient et de cultiver sa capacité à tisser des liens inattendus, ce qui pourrait constituer une bonne définition de ce qu’est l’intelligence.
En ce qui me concerne, j’ai transformé ma tendance à la procrastination en véritable méthode de travail. Tel Lance Armstrong pratiquant l’autotransfusion sanguine, mon « moi présent » a ainsi pour habitude de déléguer à mon « moi futur » les tâches qui lui incombent, en vue de susciter in fine un état de transe productif pareil au coup de pédale qui permet de partir sans effort à l’assaut de l’Alpe-d’Huez. Est-ce que ça marche vraiment ? Permettez-moi de ne pas concluredans la précipitation et de terminer auparavant le visionnage de ce passionnant documentaire : L’Histoire cachée de la Grande Muraille de Chine. (Le Monde de hoje)

domingo, 26 de novembro de 2017

Miguel Angelo e o micro e ridículo pênis de David...



Qual teria sido a  verdadeira intenção de Miguelangelo ao esculpir a estatua de David, essa aí de Florença, com um genital desse tamanho? Ora! Que vexame! Isso não é um genital que se apresente! Simulacro descarado! Isso é o "pipi" de uma criança de três anos. Uma vergonha! Uma heresia! Uma obra descaradamente anti-sexual. Um monumento a serviço do papado e à morte da libido! Uma aberração estético/sexual! Quase uma provocação para com o cara que matou Golias com apenas uma pedrada e também para com um povo que teve entre os seus um Casanova, um Nero, um Calígula e um Paganini. Estaria o escultor, já naquela época prestando algúm serviço às habitantes de Lesbos? 
Alguns críticos que conheço dizem que na mão direita de David há oculta uma pinça. Não sei. Mas mesmo assim Florença continua recebendo todas as semanas milhares de turistas famintos por arte e por cultura e todos se enfileiram por ali, pela Via Ricasoli, para fotografar aquele escândalo anti-pênis e anti-homem, aquela obra anti-genital e aquela afronta ao phalo... Que porra de Renascimento representava esse tal Miguelangelo? 
Freud, em 1913, dedicou também a ele (como o fez com Leonardo da Vinci) e a sua escultura de Moisés uns quatro capítulos, mas não mencionou para nada o ridículo pênis de David. E ele, mais do que ninguém, especialista em histerias e em narcisismo primário, bem que poderia ter dado alguma explicação ao caso, não é verdade? 
Vejam como a imagem abaixo explicita bem a diferença de "mentalidades"
 entre os florentinos e os atenienses...


Como resmungaria Vargas Vila: "A virtude cristã é uma virtude de escravos (...) O cristianismo que prostituiu todas as artes não conseguiu criar nenhuma. Toda a estatuária cristã não produziu uma Vênus de Milo e nem sequer uma Vitória de Samotracia. Toda a pintura cristã, desde Raphael até Puvis de Chavannes, não serve senão para fazer a humanidade sentir a ausência insubstituível de Fidias e de Polignoto (...) Os escravos e os monges que fundaram essa religião de escravos e de mendigos não se conformaram em apenas ignorar a arte, fizeram de tudo para castrá-la... E fazendo de Apolo um Orígines miserável e dedicando-se a contrafazer artistas, povoaram de eunucos as galerias de seus museus e o  coro da Capela Sixtina. E o mundo, mergulhado no desastre, ante o naufrágio da beleza, espera. Espera o quê? A morte de Roma e a ressurreição de Atenas...".

Cuidado! O martírio voluntário não será tomado em consideração no além...

Neste período do ano Brasília fica congestionada de mendigos, indigentes, andarilhos, vagabundos, desocupados, famílias em trânsito, malandros e lazarones, fodidos crônicos da pátria que vêm de todos os cantos, uns expulsos pelas 'autoridades' de lá, e outros já viciados no folclore do natal que aproveitam da melancolia urbana e da culpa dos burgueses  para vir recolher restos, sobras, esmolas e outras porcarias. Normalmente se instalam em barracas, em pontos estratégicos da cidade, próximos à caçambas ou lixeiras de supermercados e ficam por lá, como "hienas", com suas "hienazinhas" nos braços, aterrorrizando os casais ou as senhoras sozinhas que voltam da igreja, do cabeleireiro ou mesmo de um trottoir dominical extra. Há mais de quatro semanas ali pelos lados da rodoviária fica instalado um homem de uns 60/70 anos que está com um parkinson em estado avançado. Seus braços, pescoço e pernas estão em permanente agito e até agora nenhum doutor e nenhuma autoridade foi lá para, sequer, saber seu nome... 
Muita gente, lembrando da história de Lázaro, da desertificação social, do crepúsculo de suas próprias fantasias e de outras misérias, se sente obrigada a dispensar-lhes pelo menos um "Feliz Natal & um próspero ano novo!" Mas é visível o incômodo burguês, mesmo daqueles travestidos de 'apóstolos' quando lhes dão alguns míseros centavos que estavam perdidos no fundo do bolso ou da madame que desce do quinto andar para presentear-lhes com uma bandeja de presunto e queijo cuja validade expirou ontem... 
Hoje, dia 26, com a cidade molhada pelo chuvisco da madrugada, havia um desses andarilhos rondando uma lixeira aqui pelos arredores de minha quadra e, bizarramente, levava uma cruz às costas. Antropológica e esteticamente a imagem era fantástica. Era uma cruz feita de maneira artesanal, dois galhos de aroeira sobrepostos e amarrados firmemente com meio metro de arame. Devia pesar uns vinte quilos e o sujeito, que a transportava além de ser só ossos, ainda tinha no rosto uma expressão de máximo sofrimento. Soltava até uns breves soluços e gemidos quando percebia que alguém o observava. Um senhor de paletó marrom, meio gagá, típico funcionário público aposentado que cruzou com ele e que ficou visivelmente emocionado, deu-lhe uma nota de vinte reais e o alertou: “ Cuidado!, o martírio voluntário não será tomado em consideração no além..."

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Noticias da sexta-feira black...

[Um velho alegre é um louco inofensivo que pôde curar-se de todas as paixões, menos da do ridículo...]
Vargas Vila


Hoje, ainda sob os fulgores da sexta-feira negra ir ao mercado, - mercado comum que não tem nada a ver com Casas da Banha & Cia - mesmo que seja só para comprar três pãezinhos franceses, é uma aventura. Uma multidão estranha, literalmente estranha se acotovela e faz filas por todos os lados, empurrando carrinhos transbordantes como se lá fora houvesse sido deflagrada uma guerra. Como se o Kin Jong-un tivesse lançado um míssil em direção à América Latina ou coisa parecida... Carnes, muitas carnes! Umas até pingando sangue pelos corredores. Ovos, farinhas, lasanhas, pedaços de bacon, perus decapitados e papel higiênico. Muito papel higiênico. Também cotonetes, cervejas, espumantes, aguas gaseificadas e panetones. Ultimamente tenho entrado na fila reservada para os velhinhos, mas já  estou decidido a voltar para uma que fica mais à esquerda do mercado onde se perfilam pessoas de todas as idades e onde a demora para chegar ao caixa também pode ser até  de 40 minutos, mesmo que seja só para pagar uma latinha de sardinhas ou um pacote de fósforos. A dos velhinhos, que, teoricamente deveria ser a mais rápida já que eles, se ficarem muito tempo em pé, podem ter um colapso, uma hipoglicemia, cair e quebrar o fêmur, o pescoço etc, acaba sendo a mais lenta uma vez que eles demoram até vinte minutos para achar o cartão nos bolsos do paletó, não lembram a senha, tremulam, ficam fazendo gracejos, pechinchando por bagatelas, falando dos remédios que tomam e exigindo que a moça do caixa vá conferir preços e data de validade dos produtos e etc. Hoje mesmo, uma senhora de uns noventa anos que estava na mesma fila que eu, com um lenço preto amarrado de qualquer jeito por sobre uma cabeleira quase inexistente, criou a maior confusão quando percebeu que tinha comprado meio frango achando que se tratava de meio peru. Chamou o marido que estava lá na porta de entrada com cara de bobalhão esperando com um guarda-chuva aberto e que parecia ser até mais demente e cego do que ela... Foi uma confusão dos diabos. Havia também uma senhora chinesa dois passos a minha frente que de tão velha lembrava as invasões de Genghis Khan. Ela  olhava por cima dos óculos para meus cabelos com tanta insistência como se eu fosse de outro planeta. Percebi que levava uma caneta vermelha enfiada entre as tetas, duas tetas minúsculas que já se haviam esparramado pelo tórax. Na parte superior da caneta, em alto relevo, havia uma caricatura sutil do velho Mao Tsé Tung. Por problemas óbvios de linguagem demorou mais tempo que os outros para ser despachada. Tempo em que os outros velhinhos da fila, todos mais ou menos sonâmbulos, tiranos, rabugentos e, evidentemente nada tolerantes, lançavam inquietudes e maldições para todos os lados... 
Chuviscava lá no asfalto. Enfiado embaixo de uma lona improvisada, quase junto a uma parada de taxis, um senhor também pertencente à quarta idade girava calmamente e sem ritmo a manivela de um realejo e a moça do caixa, apesar de jovem - mas que em termos de lucidez não se diferenciava muito daquele corolário de senectude - parecia  ter capitalizado para si todas as impaciências, ansiedades, melancolias e desilusões do mundo...

Os cariocas... Ary Barroso... Aquadrilha do Brasil... e o povo Inzoneiro...



"Procure abrir teu cérebro com a mesma frequência que abres tua braguilha..."
(Escrito nos muros de Paris em maio de 68)




Aqui em Brasília, cidadela fundada praticamente por pessoas vindas compulsoriamente do Rio de Janeiro, atualmente é unânime a indignação e a raiva com o silêncio e com a passividade dos cariocas e conterrâneos que por lá ficaram diante das últimas revelações de roubo, de corrupção, de sacanagem e de sucateamento da urbe como um todo... Os presídios e as cadeias estão abarrotados de políticos e de crápulas que destruíram a cidade.., outros tantos estão ainda em seus postos... enquanto a população arruinada, permanece de joelhos e à mingua. Quieta! Servil! Cordial! Retesada na praia no meio de caranguejos e bebendo cerveja (essa bebida diurética de plebeus e de subalternos) com os braços repousando sobre a barriga...

Discutindo com o mendigo K o absurdo e as razões daquela subserviência, passividade e até cumplicidade da população com todos aqueles gatunos ele me deu uma explicação curiosa: Ora, Ary Barroso já nos havia prevenido e até feito o diagnóstico daquela gente. Lembra de Ary Barroso? Aquele sujeito com cara de babaca que compôs Aquarela do Brasil? (Aquadrilha do Brasil!) Que morreu de cirrose hepática e que está enterrado no Cemitério João Batista? Lembra? Lembra de Aquarela do Brasil (1939)? Pois bem, já na segunda linha da letra dessa música ele chama aquela gente de Inzoneira: mulato inzoneiro. (Ouvir abaixo).

Brasil, meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos

Sabe o que é inzoneiro? Segundo os dicionários quer dizer: sonso, mentiroso, intrigante, fofoqueiro... Será que Ary Barroso estaria sendo apenas um mineiro caluniador?

Não importa. O que é curioso é que mesmo tendo sido diagnosticada como inzoneira, a população  do Rio ainda o homenageou com um busto de bronze que está em frente a um boteco no Leme... Isso explica? Ou quer mais?














quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Enquanto isso... lá nos cafundós de uma vila européia...


"Os rebanhos humanos me espantam e me atraem ao mesmo tempo com uma repulsão e uma fascinação de abismo, terríveis e vis, cheios de realidades ferozes eles respiram o horror de viver: sua sedução é algo doentio, um paludismo que nos invade lentamente... É necessário ascender, ascender muito para respirar ar puro e livrar-nos da fascinação do abismo..."
Vargas Vila
(De los viñedos de la eternidade, volume 25, pp 88,90)



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

DO CIRCO BUROCRÁTICO/PEDAGOGICO... Ou: Eis aí o sintoma de um país infanticida que virou hospício...


Vigia que substituiu o que matou crianças em Janaúba tem doença mental (Correio Braziliense de hoje)



Luiz Ribeiro/EM/DA Press
O vigia Damião Soares dos Santos, de 50 anos, que em 5 de outubro ateou fogo na creche Gente Inocente, em Janaúba (Norte de Minas), causando as mortes dele próprio e de outras 11 pessoas – nove crianças, uma professora e uma funcionária da instituição –, além de ter deixado mais de 40 feridas, sofria de transtorno psiquiátrico, com delírio persecutório (mania de perseguição), apontam as investigações. Damião, que premeditou o crime, estava afastado da função. Mas o vigia que o substituiu no Centro Municipal Educação Infantil (Cemei) Hélio Soares de Souza, de 50 anos, também sofre de problemas psiquiátricos e chegou a declarar em depoimento que “não suportava ficar perto de crianças quando elas brincavam, por conta dos gritos”. Ele foi afastado depois da tragédia.Continua depois da publicidade
A ação foi protocolada pelo defensor público Gustavo Dayrell. Além de indenizações individuais para as vítimas e/ou suas famílias, ele solicita pagamento pela prefeitura de R$ 3 milhões por danos coletivos, com a destinação do montante para o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Janaúba, para serem aplicados em ações em favor da infância e da adolescência. De acordo com o defensor, “após o juiz reconhecer a responsabilidade do município”, seriam feitos os cálculos dos valores individuais para as famílias, de acordo com cada caso.
Na ação, é feito também um pedido de liminar para o pagamento imediato pela prefeitura de um valor mensal para as mães e pais que ficaram impedidos de trabalhar pela necessidade de cuidar dos filhos vítimas do incêndio. A mesma solicitação vale para familiares da servidora Geny Lopes Martins, que ajudava a manter o sustento da casa.
Na representação são anexadas cópias de reportagens do Estado de Minas que mostram a situação de pobreza das famílias das vítimas do incêndio no Cemei e a expectativa delas de receber alguma indenização da prefeitura.
O defensor público cobra a indenização sob o argumento de que “em virtude da posição de garantidor, o município é responsável pela incolumidade (integridade) física das crianças enquanto estiverem nas dependências da creche, respondendo por qualquer lesão sofrida, seja qual for sua natureza. Também aponta que houve omissão por parte da municipalidade por permitir o funcionamento da creche mesmo sem alvará do Corpo de Bombeiros, sendo que o prédio não contava com extintores e com saída de emergências.

Negligência

Gustavo Dayrell lembra que o vigia Damião Soares dos Santos tinha “graves problemas psiquiátricos”, com delírio persecutório, quadro que apresentava desde 2014 e que havia indícios de que o fato era de conhecimento poder público, sem o afastamento imediato do servidor. O defensor sustenta ainda que houve negligência por parte da Secretaria Municipal de Educação de Janaúba em relação ao vigia indicado para substituir Damião na Creche Gente Inocente, que também apresenta problemas mentais.
“Há relatos de negligência da Secretaria Municipal de Educação no que tange ao outro vigia da Creche Gente Inocente, Sr. Hélio Soares de Souza, que, muito embora tivesse alertado sobre seus graves problemas psiquiátricos, ainda assim fora designado para trabalhar em creches municipais (..)”, diz a ação.
Em depoimento prestado na Defensoria Pública, Hélio Soares de Souza, que começou a trabalhar na Prefeitura de Janaúba em 2008 (junto com Damião), informa que começou a prestar serviço em uma biblioteca em 2010 e que em dezembro de 2014 foi transferido para a Creche Nesmaria Mendes. Informou que em maio deste ano foi “convocado” para trabalhar no Cemei Gente Inocente, em substituição ao vigilante Damião Soares, que tiraria “férias”. O documento encaminhado à Justiça informa ainda “que o declarante falou sobre seu estado de saúde mental debilitado e alertou que já tinha, inclusive, protocolado há mais tempo em tal Secretaria (Municipal de Educação) os laudos médicos atestando tais problemas (…) e que o remédio que toma lhe dá reações negativas, como desconcentração e sonolência”. 

Alertas

No depoimento, o vigia diz ainda que ficou afastado por 45 dias, mas que depois “recebeu telefonema da Creche Gente Inocente para novamente cobrir ‘férias’ de Damião, que tinha adoecido”. Ele afirma ter alertado “que não tinha condições psicológicas de trabalhar na creche”, mas que mesmo assim foi mantido no trabalho na unidade, de onde foi afastado somente após o incêndio. Ainda no depoimento prestado à Defensoria Pública, Hélio diz que “não suportava ficar perto de crianças quando elas brincavam, por conta dos gritos”.
Na ação é citado ainda depoimento da psicóloga Antunes Cristo Barbosa Costa, que informa ter atendido  Hélio Soares em agosto e que ele “relatou que sentia desconforto com os barulhos habituais das crianças, aumentando seu estado de nervosismo”.
Ouvida pela reportagem do EM na tarde de ontem, a procuradora da Prefeitura de Janaúba, Neide Lopes Lacerda, disse que a municipalidade não tomou conhecimento de nenhuma documentação recebida pela prefeitura que atestasse que o vigia Hélio Soares Souza sofre de problemas psiquiátricos. “A administração somente pode afastar o servidor por doença mental mediante documento que ateste a sua incapacidade para o serviço devido aos problemas mentais”.
A procuradora disse que a prefeitura somente vai se manifestar sobre a ação civil pública ajuizada pela Defensoria Pública Estadual cobrando indenização para as famílias das vítimas da tragédia na Creche Inocente quando for notificada pela Justiça, o que ainda não ocorreu. Ela também não quis comentar sobre uma proposta de acordo da prefeitura a ser apresentada às famílias para evitar demanda judicial, o que já tinha sido anunciado pela própria administração municipal.






segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Saber de utilidade pública...









O mendigo K, Zumbi e o Natal...





"De que pode nos servir um homem que passou a vida inteira filosofando sem jamais inquietar ninguém?"
Diógenes

Hoje, dia em que se lembra e se reverencia a existência de Zumbi dos Palmares (1655-1695), encontrei o Mendigo K. ali em frente ao CONIC onde existe um monumento em homenagem a esse representante da cultura negra no Brasil. Estava sentado ao lado do monumento, vestindo uma roupa afro e com um um livro encorpado e espesso sobre os joelhos. Veio a meu encontro. Pensei que ia falar sobre a data comemorativa, sobre o dia em que cortaram a cabeça de zumbi e etc, mas não, com pose de líder religioso, folheou o livro que trazia, correu o dedo indicador pelas linhas da página ímpar e numa postura meia excêntrica como se estivesse explicando um teorema a um aluno disse: Veja como a cidade inteira já se movimenta em direção às festas de natal. Comemoram o dia 25 de dezembro como sendo o dia do nascimento de Cristo, apesar do nascimento ter sido em outra data... imposturas burocráticas!. 
Devo ter espressado algum sinal de dúvida, pois ele logo tentou explicar: No mês de dezembro a Palestina fica coberta de gelo e não há estrelas guiando reis magos na madrugada...  - soltou um riso cínico mas com um certo pudor de religioso -.  Mas isto não importa. O que é importante entender é a Culpa perpétua e o chamado pecado original dessa gente. - Fez uma longa pausa, leu alguma coisa numa página anterior e continuou: Com a morte de Cristo a humanidade herdou uma dívida impagável! O fato de Deus ter sacrificado seu filho "para nos salvar" nos colocou numa condição bizarra de devedores e de endividados... Observe como a dívida e a culpa da humanidade é impagável, vitalícia, eterna e perpétua! Disse isso ainda com ar professoral e saiu assobiando Noite Feliz...






domingo, 19 de novembro de 2017

Enquanto isso... num cemitério mexicano...


"Lo importante es la transformación que una idea pueda obrar en nosotros, no el mero hecho de razonarla"
(De Nietzsche, citada por Borges)




sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Olha aí a Black Friday...

O ano acabou! As surubas e as orgias de preços acabaram. Há muita porcaria encalhada nos porões e nas garagens... Olha aí a black friday...
Curiosamente nenhum negro ainda entrou na justiça para processar os comerciantes e suas lojas de, - com a tal Black friday (sexta-feira negra) - estarem inconscientemente manifestando algum vestígio de racismo. Pelo contrário, estão lá, excitados, movidos a sentimentos arcaicos, correndo de um lado a outro, no meio de japoneses, portugueses, índios, italianos, judeus, polacos, venezuelanos, paraguaios e etc, em busca de "promoções" e de porcarias sem utilidade. 
Todos os anos, sob o som da musiquinha de natal, se repete essa pantomima humilhante voltada basicamente àqueles que não controlam sua compulsão e que pensam adquirir reconhecimento, auto-estima e amor próprio comprando bobagens e, principalmente, penhorando suas existências...

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Leonardo da Vinci, o 'Salvator mundi' e a sutil clonagem de energúmenos e de trouxas no mundo...

Todo mundo assistiu nesta semana o leilão de uma obra supostamente pintada por Leonardo da Vinci que leva o titulo Salvator mundi por quatrocentos e tantos milhões de dólares. Vou repetir: quatrocentos e tantos milhões de dólares... 
Uma civilização cujos 2/3 passam fome e vivem numa penúria, numa ignorância e numa miséria de dar pena, investir uma quantia dessas em meio metro quadrado de tela é uma infâmia. Uma canalhice e uma mistificação abominável. Até o Da Vinci, se ainda estivesse por aí, vomitaria nas paredes da famosa casa de leilões Christie's e daria um pontapé no traseiro do energúmeno que fez tal aquisição. 
Ah, mas é de Leonardo da Vinci!  - se exaltam em ganidos os otários -.
É do geólogo, do estrategista e do dissecador de cadáveres! - Resmungam excitados os mais sensíveis - . 
Do quase santo do renascimento!!! Esbravejam os eruditos e donos de galerias...
Do mesmo que pintou a Mona Lisa e São Geronimo  no deserto! Do mesmo a quem Freud dedicou 42 páginas de suas Obras Completas! - Cacarejam os leiloeiros. - E depois.., não podemos ignorar que nesse quadro está pintado o Salvador do mundo! Suspiram os crentes... E prosseguem: é verdade que com o mesmo fervor que lhe era peculiar pintou também a Mona Lisa (que era a mulher de um nobre florentino chamado Francesco de Giocondo...) mas também pintou o Salvador do mundo! E isto, para nós ocidentais é o que importa! 
Ah, quem não tem amor a arte é um degenerado! 
Ah, o dinheiro é para isso mesmo! Agora, pelo menos, o quadro estará seguro e protegido dos larápios, dos hereges e dos cupins na parede de uma mansão, de uma catedral ou de um palácio!!! 
Seguem assim cacarejando as massas e os energúmenos clonados mentalmente enquanto roem unhas para repor o cálcio que lhes falta...


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A ocupação de Brasília... que não houve... E o próximo trem para Pasárgada...


"Senhor, pai, tenha piedade, que eu pedirei eternamente a Deus por Vossa Senhoria"
F. Dostoiévski
(Memória da casa dos mortos, página 219)

Durante a semana inteira circularam boatos, vídeos e noticias  assegurando que no dia 15 de novembro (hoje) dia da Proclamação da República viriam grupos incendiários do Brasil inteiro para invadir e ocupar Brasília e o Congresso Nacional, bem como para esbofetear e prender políticos e vagabundos da cidade e, por fim, fazer uma intervenção militar e livrar o Brasil da cloaca e da situação calamitosa em que se encontra. Muita gente que conheço acreditou nessa ameaça e até ficou excitada imaginando que finalmente, se sairia dessa mesmice desoladora.
 Teve até gente que fez estoque de comida, de água, de ansioliticos e principalmente de papel higiênico em casa...  Alguns síndicos até programaram rezas e terços nas garagens e nas portarias dos prédios... 
Amanheceu o dia... e nada. Só as nuvens magrit (ianas) presagiando um lindo dia...
As donas de casa, visceralmente reacionárias, indignadas e com as tetas apoiadas nas janelas se perguntavam: que aconteceu com o pessoal das cruzadas? Teriam errado o caminho? Chegarão amanhã? Tiveram alguma visão negativa no meio da estrada? Resolveram esperar Godot?  
Em frente ao palco do Congresso Nacional apenas dois ou três caminhões e um ônibus. 50 ou 100  discursantes no estilo dos sindicalistas dos anos 80 e nada mais. 
Muito foguetório e pouca prática. Os discursos e as críticas iam de encontro tanto a figuras legendárias como a do magnata húngaro George Soros como a de comunistas nativos, anônimos e imaginários de fins de semana... 
Fiquei realmente impressionado com o ódio que havia nos discursos contra as universidades brasileiras. O que os professores teriam feito ou estariam fazendo  para gerar tanta fúria? Fiquei lá ouvindo aquela gente mais ou menos desiludida, mais ou menos descontrolada, mas cheia de convicções discursando e apontando com ferocidade para o Congresso nacional vazio como sendo um ninho de bestas, ladrões, larápios que deveriam ser caçados... Com quê argumentos alguém se atreveria a discordar deles? 
Faixas. Muitas faixas fincadas no gramado da esplanada falando do já sabido: tudo está falido! No meio de todos as discursos incluíam com frequência o nome de Deus e de Cristo. Um discursante, do alto de um caminhão que passava em frente à catedral chegou a mencionar e pedir ajuda à padroeira da cidade... O que pensariam essas entidades metafísicas de tudo isso?
 O mendigo K que estava lá usando um uniforme militar daqueles de camuflagem e de luta na selva me cochichou: é impressionante como passamos da antropologia para a teologia em segundos... 
Parole, parole, parole... Todo mundo turvando as aguas para dar impressão de profundidade... Muitas palavras até às 5 horas da tarde diante de um congresso silencioso, literalmente vazio e de uma cidade em plena crise de narcolepsia. 
Por mais alienado que se possa ser, num clima desses é difícil não sentir em si mesmo os sinais doentios do subdesenvolvimento, da misantropia e da melancolia.
Enfim, sem estar lá muito preocupado com a comédia póstuma (como diria Baudrillard em seu La ilusión vital), 
gostaria de saber a que hora partirá o próximo trem para Pasárgada?











segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Queremos DEUS! Gritam os manifestantes nacionalistas em Varsóvia, na Polonia. Tudo bem, mas talvez Deus esteja de saco cheio com eles.. E a recíproca não seja verdadeira....

(Pauline Moulot - Libération - hoje)
Le 11 novembre, la Pologne a célébré sa fête de l’indépendance. A cette occasion, plusieurs manifestations ont eu lieu à Varsovie : douze, selon la correspondante de RFI.
La grande marche nationaliste, à laquelle vous faites référence, a rassemblé 60 000 personnes selon la police. Elle a été organisée par l’extrême droite : le Camp national radical (ONR) et la Jeunesse de la Grande-Pologne. L’ONR se présente comme «un héritier du mouvement fasciste des années 30 du même nom, qui s’est battu pour débarrasser la Pologne des Juifs dans les années précédant l’holocauste» écrit le Wall Street Journal. Ils soutiennent que «l’arrivée de réfugiés syriens en Europe fait partie d’une conspiration menée par des financiers juifs, qui travaillent avec les communistes de l’Union européenne pour amener des musulmans en Europe et, avec, la charia et l’homosexualité. Ce groupe a régulièrement organisé des événements pour commémorer le pogrom de 1936 contre les juifs», écrit encore le quotidien américain.
Voici quelques slogans entendus dans la manifestation : «Pas de Pologne islamiste, pas de Pologne laïque, mais une Pologne catholique», rapporte RFI qui parle de slogans «ouvertement anti-européens, anti-libéraux et islamophobes». «Outre les classiques "Dieu, honneur et patrie" et "Gloire à nos héros", quelques slogans xénophobes ont été entendus : "La Pologne pure, la Pologne blanche", "Foutez le camp avec vos réfugiés" ou "A coups de marteau, à coups de faucille, battre la racaille rouge" – ce dernier compris à la fois comme anticommuniste et antirusse»détaille l’AFP.
Le mot d’ordre de la manifestation, «Nous voulons Dieu», vient d’un chant traditionnel catholique cité par Donald Trump lors d’une visite à Varsovie cet été qui, aujourd’hui, peut parfois être interprété comme un rejet de l’islam, selon l’agence de presse.
Pour autant, plusieurs journalistes ont tenu à préciser que tous les participants à la manifestation ne se réclamaient pas du groupe néonazi et n’étaient pas d’extrême droite. L’AFP écrit ainsi : «Cependant, des participants interrogés par l’AFP ont nié toute motivation politique ou religieuse. "Cette marche n’est pas faite pour soutenir le gouvernement, la plupart d’entre nous n’ont aucune opinion politique", a dit un travailleur manuel de 43 ans venu de Piaseczno, près de Varsovie. "Simplement, en venant ici, je me sens appartenir à la nation, je me sens fier d’être Polonais." […] Une jeune manifestante, cuisinière dans un hôtel quatre étoiles, vient de rentrer au pays après avoir passé trois ans en Grande-Bretagne. "Je n’ai aucun lien avec l’ONR ou la Jeunesse de la Grande-Pologne, je suis venue ici pour me sentir à nouveau Polonaise", confie-t-elle.»
«Je dirais que certaines personnes ici ont des vues extrêmes, peut-être 30% de ceux qui manifestent, mais 70% d’entre eux sont simplement en train de défiler calmement, sans crier aucun slogan fasciste», explique un témoin cité par l’AFP.
«Un certain nombre de manifestants ont affirmé ne pas appartenir à une quelconque organisation raciste ou néofasciste mais ne voyaient pas de problème dans le ton général qu’a pris l’événement le plus important en Pologne de la fête de l’indépendance. "Bien sûr qu’il y a des nationalistes et des fascistes à cette manifestation, a dit Mateusz, 27 ans et enveloppé dans un drapeau polonais. "Ça ne me dérange pas. Je suis juste content d’être ici"», rapporte le Wall Street Journal.
Le reporter du quotidien américain a par ailleurs été accusé d’avoir diffusé une fake news en tweetant son article accompagné du commentaire : «60 000 Polonais ont défilé derrière des manifestants agitant des insignes nazis et un groupe brûle des effigies de juifs.» Il a ensuite annoncé avoir supprimé ce tweet dont la formulation «donnait l’impression que 60 000 personnes ont défilé pour des groupes ethno-autoritaires alors que la majorité a marché joyeusement, en étant à leurs côtés en connaissance de cause.»

domingo, 12 de novembro de 2017

O mendigo K, a estagiária de 17 anos e a senhora com aspecto equino...

"Cujo céu tinha a monstruosa imponência de um estábulo incendiado..."
Garcia Marquez
(página 57, O enterro do diabo)

Hoje, domingo, dia 12 de novembro de 2017, com a cidade chuviscando,  encontrei o mendigo K na entrada de um dos shoppings mais sofisticados da cidade, aquele onde estão concentradas aquelas boutiques que vendem chapéus a 2 mil reais, tênis a mil euros, calcinhas a 480, vestidos e bolsas por pequenas fortunas e etc. É lá que a suposta classe alta, as novas ricas se acotovelam nos fins de tarde para bebericar um chocolate e para conseguir gastar os milhões que seus maridos, amantes ou filhos rapinam honradamente por aí...
Estava na entrada principal junto a duas portas de vidro, com uma capa preta de chuva segurando um cartaz de meio metro quadrado onde se podia ler: "CONTRATO ESTAGIÁRIA COM 17 ANOS E QUE FALE VÁRIOS IDIOMAS PARA ORGANIZAR MINHA BIBLIOTECA". 
Achei curioso aquele anuncio, não apenas pelo perfil da moça que ele pretendia contratar, mas porque nem imaginava que ele tivesse uma biblioteca em casa. Uma senhora elegante, exageradamente perfumada e com aspecto equino que passava por lá enquanto falávamos leu o cartaz, resmungou alguma coisa sobre as recentes denuncias de abusos sexuais em Hollywood, perguntou-lhe se sabia que dia 12 de novembro se comemorava o dia do nascimento da feminista Elizabeth Stanton e em seguida o acusou de estar cometendo um crime contra as leis trabalhistas, contra os direitos humanos, assédio moral etc., e por fim, que iria enquadrá-lo numa Lei que agora não lembro o número e nem o nome... 
Vi que ficou furioso, que baixou momentaneamente o cartaz, que lhe lançou um dos principais palavrões que está lá no apocalipse e que, como um banido do mundo, saiu caminhando no meio da chuva... Já estava quase anoitecendo e o céu - como diria o defunto Garcia Marquez - havia adquirido aquela monstruosa imponência dos estábulos incendiados... 

O affair William Waak - Toda discussão e intriga racial evidencia o mesmo desamparo e a mesma imbecilidade em todas as cores...


Ver livro abaixo, do psiquiatra Frantz Fanon, sobre o assunto



http://negrobelchior.cartacapital.com.br/voce-conhece-frantz-fanon/

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A transiberiana e nossa atração por solavancos...

Preparando-se para passar o Natal e o Fim-de-ano longe da república, o mendigo K. abordou-me no estacionamento do Ministério dos transportes visivelmente furioso. Enquanto ia abrindo um mapa da América Latina que levava nas mãos foi blasfemando. Burrice! Caipirismo! Mentalidade atrasada! Atração por solavancos! Inacreditável que não tenhamos uma ferrovia e trens que nos levem daqui para a América Latina e para o resto do continente. Brasília/Canadá, por exemplo. Cinco ou seis noites tomando vinho nos vagões, subindo e descendo montanhas de gelo, florestas, pântanos, desertos, abismos de pedras... Atravessando os andes com suas lhamas e seus condores. Um remanescente dos Incas no alto de uma rocha... Os desertos mexicanos, uma águia no topo de um peyot... a fronteira gringa... 
Todo mundo critica a Russia, falam mal de Lênin e até o confundem com Rasputin. Pura caipiragem! Minha ex sogra era russa. Ia uma vez por ano de São Petsburgo até Vladivostok pela Transiberiana. Vinte dias e vinte noites. Quase dez mil quilômetros! Uma das vezes resolveu ir até a China e trouxe de lá para sua filha de dezoito anos uma pomadinha erótica. Morreu com os lábios roxos e desfigurados imitando o ruído das rodas do trem. Amava os trens. Desenhava com nanquim as paisagens da Sibéria. Uma vez chegou a subir aos Montes Urais. Contava que perdeu um chapéu nas águas do Rio Naroda. E que passou horas lá, sobre uma montanha de gelo, lendo as obras de Nabokov, mas que sua verdadeira paixão era por Dostoievski. Por aquele louco e epiléptico autor de Memórias da casa dos mortos. Gostava de recitar pequenas frases que havia lido naquele tempo, tipo esta, sobre os insultos: "Que morras nas mãos de um turco!". "A dialética do insulto era muito apreciada. Ao bom insultador não faltavam aplausos, como aos autores." "Havia no presídio um polaco desertor, muito repugnante, mas que tocava violino, possuindo um que era mesmo seu e que representava toda sua fortuna..." 
Minha sogra adorava os russos, principalmente por eles terem cortado aquele imenso território com ferrovias. Uma ferrovia - dizia - acalma. Quem já sentiu o cheiro dos trens nunca os esquecerá! Os trens são terapêuticos. Uma nação que não tem trens esta condenada ao subdesenvolvimento, à estupidez dos caminhões e à calamidade mental...



Enquanto isso...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A ventania de ontem a noite e o sentido trágico da vida...

Não precisa nem ter lido Santo Agostinho, Kierkegaard, Unamuno ou Freud, para ter consciência do que é o tal 'sentido trágico' da vida. Basta sair por aí e falar com qualquer estranho na rua. Parece haver algo de sinistro e de apocalíptico espiando não apenas atrás das córneas, mas atrás de todas as coisas. Como se houvesse uma pressa em acabar. Como se, contra-fobicamente, se desejasse ir logo ao encontro do fim... 
O papo hoje, aqui no coração da república se concentra todo nos comentários sobre a ventania que ontem à noite se abateu sobre a cidade. Um radialista chegou a dizer que parecia um tsunami de vento. Árvores caídas por todos os lados, esgotos entupidos, telhados desfeitos, vidraças despedaçadas, uma escuridão de ponta a ponta... pequenos besouros amassados nas soleiras... Para frustração dos fofoqueiros e dos noticiários, não morreu ninguém. Mas Todo mundo quer contar e aumentar um pouco o que viu, colocando sempre em sua história boa parte de inverdades, mentiras, invenções e fantasias enigmáticas com a ilusão de diminuir o tédio cotidiano e de dar-se um pouco de importância. Como se quisesse que a turba o apontasse na rua e dissesse, com admiração: Aquele ali viveu o Caos e está vivo! Surfou na tempestade e está intacto! Bobagens infantis! Uma ficção que nos vêm de longe, ainda do tempo das cavernas...
O mendigo K falava futilidades com o pessoal da guarda presidencial que retirava pedaços de árvores das ruas que ficam ao redor do Palácio. Contava aos guardas que o vendaval havia começado exatamente às 3:15 da madrugada e que deixou seu barraco em pedaços. Que ficou todo esse tempo no meio do nada e acuado ao lado apenas de um saco de latas vazias e de um armário feito com caixas de ovos mas que também levitou e sumiu. Falava entusiasmado sobre a beleza e a transcendência do vento e da tempestade. Aquela água gelada e aquela falta de ar! Haveria alguma coisa mais fascinante do que uma ventania como aquela no meio da metafísica insinuante da madrugada? Perguntava.  Haveria alguma coisa mais fascinante que as rajadas que assobiavam nos postes e no tronco dos pequizeiros como se estivesse ameaçando limpar radicalmente a área infestada por todo tipo de hipocrisias e de infâmias? Os guardas o ouviam com curiosidade até que ele passou a relatar histórias e estórias de um realismo fantástico que teria presenciado das 3 às 4 da madrugada. De um baú repleto de dinheiro - por exemplo - que teria despencado das nuvens ao seu lado se despedaçado na queda e o dinheiro levantado voo em uma revoada parecida a de morcegos. Disse que no meio das cascatas de água e vento surgiu o padre Dom Bosco - aquele padreco que profetizou que nesta cidade haveria de brotar pão-de-ló e melado dos barrancos - e que fazia um esforço imenso para não deixar que o vento lhe levantasse a batina e lhe exibisse as nádegas... Depois apareceu JK e o Niemayer, sob a chuva, naquele passo moribundo e suspeito da senectude, um acusando o outro de ser responsável pelos descaminhos desta urbe. Os guardas que cortavam árvores com serras elétricas continuavam ouvindo-o mas já meio céticos. Jurou com uma certa alegria e fascinação que sua mulher havia sido levada pelo vendaval agarrada ao único bujão de gás que conseguiu comprar em vida e que os 3 volumes da Divina Comédia que estava lendo haviam ficado encharcados sob o colchão...
Os guardas receberam uma ligação telefônica de um alto escalão da república, desligaram imediatamente as moto-serras e puseram-se a olhar com um certo gozo para as nuvens que, lá por sobre as montanhas de Goiás pressagiavam e prognosticavam novas desgraças...  
Brasília parece gozar, mesmo que secretamente, quando se abate sobre ela um diluvio ou mesmo apenas uma tempestade, quando os carros são levados para os esgotos, o metrô e os ônibus não circulam, quando todo mundo aproveita para não ir enxugar gelo nos Ministérios e dormir. Dormir! O sono, todo mundo sabe, é o prenuncio da morte. Enfim, há um gozo por aqui quando a cidade, como diria Garcia Marquez: torna-se um povoado sem ninguém, com as casas fechadas e em cujos quartos ouve-se apenas o surdo fervedouro das palavras pronunciadas com ódio...