terça-feira, 22 de agosto de 2017

NO TENIM POR... As patologias de dois dias depois...

Um evento radical como um ato terrorista aciona nas massas em geral e nas pessoas em particular todas as sementes psicopatológicas que repousam em seus ossos e que, numa vida normal, poderiam passar desapercebidas para sempre. Ramblas é uma exemplo: Nestes dois dias após o atentado, apareceram por aí os perfis mais estranhos e que vão muito além dos descritos no CID 10. Histéricos, raivosos, místicos, direitistasl esquerdistas, fóbicos, islamofóbicos, fascistas, maníacos, revolucionários, reacion
arios, cristãos, ateus, islamistas, animistas, infantilóides, capitalistas, mendigos, comerciantes, hare krisnas, loucas e loucos  quase dementes. Pessoas que choravam e pessoas que não conseguiam conter um riso mais do que irônico. Velas, bonecas, poesias, nomes, detalhes, palmas, businaços, gritos, silêncios, prantos, desmaios, brigas, indignações, perversidades, instintos de vingança, compaixão, desesperança, fé no absurdo, sangue, lágrimas, sangria colecionadores de sinistros e uma moça sueca lambendo a bola enorme de um gelatto... A multidão gritando neste idioma bizarro: NO TENIM POR!) (Não temos medo!), mas com uma indisfarçavel insegurança. Colecionadores de desgraças e de sinistros! Sado-masoquistas!Policias com o dedo em suas metralhadoras, políticos em campanha, promessas, memórias das cruzadas, mulheres em burca caminhando com pressa e visivelmente intimidadas, um ou outro demente da OPUS DEI! Emoçòes,  descontroladas, moralismos e o Mercado de São José (esta maravilha) com os portões fechados... A midia internacional, os abutres com suas câmeras e as hienas, orações... esperanças... Apesar dos mortos-mortos e dos mortos-vivos a festa continua... A ramblas fascinante de Garcia Lorca transformada numa espécie de cemitério... Os comerciantes aumentam sutilmente o preço dos souvenirs, os taxistas fazem um buzinaço, o preço da paella sobe quatro euros... A avenida para o aeroporto fica congestionada. Culpa! Especialistas em sociologia, em psicologia, em terrorismo, em islamismo... monologam nos principais canais... O rei vai visitar as vítimas no hospital... um travesti dança no balcon do Museu do Sexo enquanto um jovem sem teto fuma um baseado na entrada da rua d 'hospital... Até uma mulher do ETA estava por lá enquanto um velhinho ex-hippie dos anos 60 tocava em sua guitarra o demagógico: Imagine the people...

sábado, 19 de agosto de 2017

Garcia Lorca, la Ramblas e o dia seguinte...





"La única calle de la tierra que yo desearía que no acabara nunca, rica en sonidos, abundante en brisas, hermosa de encuentros, antigua de sangre, es la Rambla de Barcelona." (Garcia Lorca)

domingo, 13 de agosto de 2017

La Rambla & a Sagrada Família...

Todos os caminhos aqui em Barcelona ou conduzem à igreja da Sagrada Família ou à fornicação. Milhares e milhares de beatos e principalmente de beatas do mundo inteiro vêm para cá para fazer uma visita à Sagrada Família, pedir um milagre, pagar uma promessa ou por pura e simples perversidade metafísica... Esta famosa igreja de que lhes falo é projeto do tal Gaudí e quase uma filial do vaticano. Ontem, sábado, por  exemplo, lá pelas 11:00 horas, todos os ingressos de visitação já haviam sido vendidos. R$: 16:00 Euros a entrada normal ou R$ 13:00 para os velhotes aposentados... Mais ou menos o mesmo preço de uma massagem tailandeza ali nos arredores da Ramblas... 
Como diria meu bisavô, embriagado com seus DNAs de comerciante: na vida tudo tem o seu preço!

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

As maravilhas de Barcelona...

Barcelona é uma Babilônia!
Mais gente nas ruas só em Beijing.
Acreditar que os espanhóis estão em crise econômica é uma ingenuidade que beira à demência! Vivem num frenesi e num auge de riquezas e de cultura invejável. Seus investimentos na pobre e miserável América Latina lhes garante a siesta de todos os dias, o luxo dos azeites, dos vinhos, das paellas, dos museus e das ramblas...
Um tiro na madrugada. Gritos. As gaivotas acordam e rosnam no telhados dos prédios. Alguém vai à janela. São 4:47. Dois homens de uns 35 anos, o cabelo cortado à militar se empurram, se esmurram e se agridem em árabe. Um deles, depois de apanhar, olha para as janelas do quarto andar e grita por Assam. Assam! Assam!.. Mas ninguém responde. São 4:55. Passa agora a chamar por Ali. Ali! Ali!..
Um cachorro late na varanda do lado. Mais gritos em árabe. É difícil saber se se esta em Barcelona ou em Casablanca... Quatro moças atravessam a rua quase em disparada, também falando em árabe e com vestimentas que lembram os beduínos...
Miró! Por todos os lados quando não se fala em Miró se fala em Gaudi, Picasso, Dali... Há malandros para todos os gostos... Mas Barcelona é uma maravilha! Quase uma Babilônia. O mar, o vinho e as azeitonas parecem alterar os hormônios das mulheres (para melhor)... Quando olho para a Ramblas penso na juventude brasileira perdendo a vida por lá... indo do nada para o nada e sem reclamar... Como escrevia Walter Benjamin: "No escribas la conclusión de la obra en tu quarto habitual. En el no encontrarás valor para acerlo"...

sábado, 5 de agosto de 2017

Neymar e os pés-de-chinelo......


 E o caso Neymar? 800 milhões de dólares! 9 milhões de reais por mês! 
Uma sociedade e uma civilização como a nossa, mergulhada na merda até o pescoço e comandada por "pés de chinelo" que aceita uma idiotice destas merece desaparecer. 
Cadê o meteorito que Nostradamus e que o Apocalipse haviam anunciado?
Mas, como hoje é sábado, vamos às leituras:







quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O paradoxo da flecha de Zenão...


Explicava Zenão: Uma flecha em voo está a todo instante em repouso. Ora, se um objeto está em repouso quando ocupa um espaço igual às suas próprias dimensões e se, a flecha em voo sempre ocupa espaço igual às suas próprias dimensões, logo a flecha em voo está em repouso...

O Sim e o Não dos pretensos Califes... Y asi se van los dias...

Desta vez a votação no Congresso Nacional foi um pouco diferente daquela do impeachment da Dilma. Apesar de algumas sutis e breves insinuações, não se falou em Deus, nem em Cristo e nem na família. O que aconteceu com nossos califes? Estariam se convertendo ao satanismo? Aliás, houve um dos votantes que, ao dizer SIM, o fez - segundo ele-, para votar contra o marxismo. Marxismo? Marx? Marx estaria ocupando o lugar de Deus? De Cristo e da familia? - E Marx - segundo uma petite histerique - que tem um canal no Youtube, nem era ateu, mas sim satanista. Pobre Marx! Numa manhã de primavera, lembro que visitei sua tumba lá no Cemitério..Highgate, em Londres. Sete ou oito fanáticos latinoamericanos queimavam incenso lá, aos pés do monumento, em homenagem aos ossos daquele homem que passou a vida inteira mais preocupado com seus furúnculos do que com o Kapital. Eu, particularmente, simpatizo com ele. Toda vez que leio jornais, que tenho que resolver assuntos trabalhistas, políticos ou religiosos, quando volto para casa vou logo abrindo seu Manifesto que, para mim, funciona como uma cabala, como um ópio ou até mesmo como uma brochura de auto-ajuda. Enfim, assistindo aquele show quase ginasiano e quase insensato de ontem à tarde, me fiz a mesma pergunta que esta lá no livro de Françoise Cloarec sobre os asilos manicomiais da idade média no mundo árabe (Bîrmâristâns, lieux de folie et de sagesses): "Qui est à l'abri? Les fous à l'abri du monde ou le monde à l'abri des fous???"

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Enquanto isso no Congresso Nacional e lá na Travessa do Portinho... a profissão mais ética & soberana da história...

"Carecer de convicções a respeito dos homens e de si mesmo, este é o elevado ensinamento da prostituição, essa academia ambulante de lucidez, à margem da sociedade, como a filosofia..."

E.M.Cioran

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O dia a dia em um dos principais pontos de prostituição de São Luís (MA) 

O Raio-X de um conhecido ponto de prostituição na capital maranhense, o "Xirizal do Oscar Frota" revela a rotina de um dos recantos mais obscuros de São Luís 

 postado em 01/08/2017 15:32 / atualizado em 01/08/2017 16:16





Espremida entre as ruas da Manga e Jacinto Maia, a Travessa do Portinho é um dos recantos mais obscuros do Centro de São Luís (MA), frequentado em grande parte pelos marginais, bebuns e desocupados da cidade. Mas, ao contrário do que a opinião pública insiste em repetir, eles não são os únicos. Também andam por lá alguns “homens de bem”. Sujeitos que têm emprego, esposa e filhos, mas que, vez por outra, vão ao local em busca de prazer. E o prazer, principal fonte de renda de quem trabalha na Travessa do Portinho, é oferecido de diversas formas. Sexo é a principal delas.
O intenso comércio sexual, aliás, foi responsável pela mudança de nome (não oficial) da Travessa. Há décadas, o local passou a ser conhecido como “Xirizal”, ou ainda “Xirizal do Oscar Frota”, em referência a um antigo comerciante do bairro que possuía uma grande loja de materiais de construção. Os espaços onde hoje
funcionam os bares do “Xirizal” serviam como depósitos da loja do rico comerciante Oscar Frota.
A primeira vez que por lá estive, numa terça-feira, fazia um calor escaldante. O parco espaço das ruas do Centro era disputado por transeuntes, comerciantes e veículos. Todos, sem exceção, capazes de produzir ruídos em escala industrial. Um ruído, em particular, prende a minha atenção: o som das grandes radiolas sobrepostas nas calçadas e dentro dos bares da Travessa do Portinho. Elas anunciam que, por lá, terça-feira também é dia de diversão. Todos os dias são de diversão na Travessa do Portinho. 
O relógio marca 15h20. As garotas de programa e os primeiros clientes estão no local desde 8h30. Sigo o som das radiolas, que tocam o onipresente “brega romântico” e entro no primeiro bar. O local é escuro, abafado e sem janelas. Várias mesas e cadeiras estão dispostas de forma irregular por toda a parte. Homens de meia-idade conversam com garotas 20, 30 anos mais jovens, desinibidos por causa da cerveja e da penumbra. As garotas riem e bebem; outras, ao lado de homens com panças enormes, não escondem a expressão de tédio e raramente pronunciam qualquer palavra.
Vou até o balcão, que também está apinhado de gente ao redor, e peço uma cerveja para a atendente rechonchuda, que de pronto me serve. Não ouso me identificar como repórter, tampouco informo que estou atrás de uma história. Sento em uma das cadeiras de plástico, localizada na parte central do bar e me ponho a bebericar a cerveja, assim como fazem os outros clientes. Sinto-me observado, um rosto estranho dentro de um universo de figurinhas repetidas. Por sorte, uma figura ainda mais estranha entra no bar e atrai a atenção dos ocupantes.

De vinte a sessenta

É uma senhora de cinquenta e muitos anos, vestida em trapos, de cabelos desgrenhados e grudentos, com um pedaço de arame enrolado em uma trouxa encardida que serve para armazenar os seus poucos pertences. A mulher se movimenta com dificuldade, arrastando a perna esquerda – que está estranhamente inchada. Um pedaço de pano imundo serve como esparadrapo para o seu pé
igualmente imundo, o que não parece fazer qualquer diferença. Ela caminha de mesa em mesa e, finalmente, chega até mim (de perto, as rugas do seu rosto são ainda mais longas e cavadas).
Percebo que, sob o vestido amarfanhado, a mulher guarda uma barriga protuberante, como a de uma grávida.
Mas, ela não está grávida. Trata-se de um cisto (ou uma hérnia) nunca tratado, como me informaria mais tarde um dos clientes mais antigos do bar. Diante de mim, a mulher, que diz se chamar Essência, estaca e tira da trouxa encardida uma bela camisa social, que provavelmente acabara de surrupiar de algum ambulante desatento das ruas do Centro. Ela quer R$ 5 pela camisa. Demoro alguns minutos para convencê-la de que não estou interessado. A cada recusa, ela faz caretas estranhíssimas e passa as mãos pela barriga inchada, jogando a cabeça para trás, numa atuação digna de antigas novelas mexicanas. “Não quero a camisa”, reafirmo. Mas sou, afinal, derrotado pela insistência da senhora e lhe entrego uma nota de R$ 2. Ela amassa a nota entre os dedos, enfia a camisa de volta na trouxa e continua a peregrinação pelo bar.
"Ah, essa daí, se a gente der uma vez, ela vicia", me diz um sujeito baixinho, de pele morena, que acompanhara toda a cena com atenção. "Antigamente, eu sempre dava um trocadinho pra ela, mas aí vi que era só pra fritar no crack. Nunca mais dei". Mostro-me interessado pela história. O homenzinho, que se apresenta como Mister Jota, pega um copo de cerveja, aproxima-se, e prossegue: "Faz anos que ela roda por essas bandas. Ela trabalhava aqui, mas aí se acabou no crack. Agora vive na rua, zanzando pra cima e pra baixo. Essa daí não demora muito mais a morrer, não."

Quero confirmar

– Ela fazia programas aqui?
– Sim, demais. Era uma das mais conhecidas. Mas droga, você sabe como é; a pessoa se acaba. Eu não vou mentir. Eu fumo um beckzinho de vez em quando. Mas, nunca deixei de fazer as minhas coisas por causa disso.
Revelo ao homem que é a minha primeira vez no local. Ele não consegue esconder o riso de surpresa e satisfação. E, a partir daí, assume a postura de um instrutor, uma espécie de “guru do xirizal”.
– Eu estou aqui desde ontem, fui em casa rapidinho só trocar a roupa, que estava fedendo, e voltei. Disse pra mulher que tinha um “bico” para fazer aqui no Centro. Já gastei uns R$ 400 de ontem pra hoje – ele me confidencia, com certo orgulho.
Resolvo dar corda ao homem. A cada novo fato, informação ou anedota, concedo-lhe a minha mais caprichada cara de espanto. Mister Jota, que ganha a vida vendendo cerveja em shows de reggae, me revela que tem 42 anos e que há pelo menos 20 é frequentador do “xirizal”. “Já casei duas vezes, tive quatro filhos, mas não paro de vir aqui”. O único problema, segundo ele, é que de vez em quando “bate um arrependimento”. “É que, às vezes, a gente deixa de comprar as coisas em casa para gastar aqui”, diz.
Mister Jota é um grande conhecedor do local. É ele quem me informa que todos os bares da Travessa do Portinho possuem quartos que são alugados para a realização dos programas. Os quartos são minúsculos, sem janelas, e possuem apenas uma cama e um pequeno banheiro; as colchas e lençóis raramente são trocados. Esses espaços são alugados em média por R$ 20 – destinados ao dono do estabelecimento. O preço dos programas varia entre R$ 20 e R$ 60. “Mas, de R$ 20 é só puta feia”, Mister Jota me garante, com a propriedade de quem frequenta o lugar desde a segunda metade da década de 1990.
O movimento do bar aumenta. Em uma mesa de canto, cinco mulheres, todas com menos de trinta anos, conversam e bebem, algumas fumam, esperando o chamado de algum cliente. Diferente do que eu supunha, as mulheres do Oscar Frota quase não se dão ao trabalho de abordar ninguém. As idas e vindas dos quartos, aliás, são bem discretas. A chegada de um sujeito bem vestido de camisa de botão e sapato social impecavelmente limpo chama a atenção das mulheres. O homem não se senta e constantemente olha, através dos seus óculos de armação exagerada, o movimento de fora do bar, visivelmente temoroso de ser visto por ali. Na verdade, ele não quer ser visto por ninguém além das garotas que bebem e fumam. Seu receio, porém, se mostra injustificado. A fauna heterogênea e despreocupada do bar não demonstra o menor interesse em sua figura, tampouco nota quando ele chama, com um leve balançar de cabeça, uma das mulheres que está sentada.





A morena levanta sorridente e vai ao encontro do homem. Os dois cochicham algumas frases e, depois, seguem para os fundos do bar, por detrás de uma grande radiola, em que fica um dos quartos. Marco o tempo no relógio. O programa dura exatamente 22 minutos e 47 segundos, e, então, o homem sai do bar com passos apressados, enquanto a mulher retorna à mesa onde as suas amigas estão, guardando o mesmo riso dissimulado no rosto.
Mister Jota agora está sentado ao meu lado, falando sem parar, por vezes cochichando algo que julga mais polêmico. Não demora muito e outra figura quase folclórica do bar junta-se a nós, a convite de
dele. Cícero, um senhor de 64 anos, frequenta o lugar há mais de quarenta. O idoso é ainda mais baixo que Mister Jota e tem o rosto amassado pelo tempo. O nariz, enorme, só não chama mais
atenção que a sua boca quase sem dentes. Os poucos dentes de Cícero, que bravamente resistem à sua descarada falta de higiene, estão enegrecidos, o que não parece incomodá-lo de forma alguma. Ele tem o riso frouxo e, assim como Mister Jota, gosta de contar histórias. A essa altura, a mesa está repleta de garrafas de cerveja. Cícero conta que, na juventude, passava uma semana inteira no “xirizal”, sem voltar para casa.
"Eu era pescador lá em Cururupu. Pescava, ganhava um dinheiro bom e vinha pra cá. Passava cinco dias com as putas. Levava, às vezes, duas ao mesmo tempo para o quarto, fazia um estrago. Ficava até acabar o dinheiro, aí voltava para o mar para ganhar mais. Era novo, aguentava o tranco. Hoje, eu bebo e no outro dia fico todo me tremendo, sem conseguir levantar da rede. Minha mulher precisa levar chá para mim e tudo", narra.
Mesmo com as tais tremedeiras, Cícero bate ponto nos bares da Travessa do Portinho todas as terças e sextas-feiras. Pelos próprios cálculos, já foi para cama com mais de 500 mulheres do Oscar Frota. "Nunca precisei do azulzinho!", ele afirma, orgulhosamente, com o indicador apontado para o alto. "Nesse tempo todo, só falhei uma vez, porque a mulher não foi carinhosa". Mister Jota completa: “tem muita mulher aqui que só quer saber de dinheiro. Entra no quarto, dá umazinha e depois não olha mais nem na tua cara, te trata como um cachorro”.
A conversa é interrompida com a chegada de uma garota, que aparenta ter no máximo 18 anos. Ela se aproxima de Mister Jota, sem mostrar qualquer embaraço. A jovem usa maquiagem pesada, em tons escuros, e um short curto que deixa à mostra boa parte de suas nádegas. Ela quer o celular de Mister Jota emprestado para fazer uma ligação. Tenta uma, duas vezes, sem sucesso. Então, devolve o aparelho e volta rebolando para a companhia do sujeito que a aguardava em outra mesa, sem tirar os olhos de cima dela um único segundo. Como um cão de guarda.
Mister Jota guarda o telefone no bolso, toma um gole de cerveja: "Está vendo? Ela que veio falar comigo. Eu tenho um 'chama' pra mulher e pra conversa", gaba-se. Mister Jota orgulha-se de ser um sujeito de conversa fácil. E, motivado pela abordagem da garota e
incontáveis copos de cerveja, ele decide que é chegada a hora de um de nós ir para a cama com uma das dezenas de mulheres que estão espalhadas pelo bar. "O amigo não vai querer pegar uma, fazer um teste-drive?", me pergunta. Saio pela tangente. Explico que, hoje, quero apenas conhecer o lugar, jogar conversa fora, quem sabe numa próxima. "De besta que você é", Cícero me interrompe. E, quase que imediatamente, como que para esfregar na minha cara, escolhe uma das mulheres e segue para um quarto. Dali a pouco retorna com ar maroto: "Estou levinho, levinho...". 
Procuro saber sobre a violência da Travessa, que é um conhecido reduto do tráfico de drogas. Quem responde é Mister Jota, de peito estufado e cabeça pendendo um pouco para a esquerda: "Olha, o cara aqui não pode vacilar. O segredo é ser doidão. Aqui, se alguém perceber que você é frouxo, medroso, você pode arranjar problema". Comento sobre as tentativas do poder público de acabar com a prostituição na área. “Se derrubarem esse bar aqui, num instante nasce outro igual. Não tem como acabar com isso aqui”, Mister Jota vaticina. E é bem provável que ele esteja certo. Não foram poucas as tentativas da prefeitura de acabar com o “xirizal”. Desde 2010, intervenções vêm sendo feitas na área. Em 2015, o principal bar da Travessa do Portinho foi derrubado para servir como estacionamento. O movimento, por vezes, chega a diminuir. Mas, teimosamente, o Oscar Frota resiste. E hoje funciona a todo vapor, como um mundo à parte, com suas próprias regras, desligado do vaivém frenético do Centro da cidade.

“Eu saio dizendo que vou para casa de amigas”

A popularidade do “Xirizal do Oscar Frota” fez com que o local virasse tema de música na voz de Roberto D’Oludo, pseudônimo de José Ribamar de Jesus Pereira. A letra celebra a grande variedade de mulheres do local. “Eu fui lá no xirizal do Oscar Frota/ ah, meu Deus, mas como tem muita cocota”. São mulheres de todas as idades, formas e tamanhos, que passam o dia inteiro bebendo e fumando a espera de clientes. Elas chegam ao local por diversos motivos. Algumas por necessidade, por não conseguirem outra fonte de renda. Outras, porque gostam do dinheiro 'fácil'.
Em minha segunda ida ao “xirizal”, dois dias depois da primeira, conversei com uma delas. Dalila, uma jovem de 20 anos. Esclareço que não tenho interesse em nada além de conversar. A garota, tímida, aquiesce com um balançar de cabeça. Dalila tem o rosto ainda povoado por espinhas, braços finos e uma folha de
maconha tatuada na mão direita, abaixo do polegar. Ela parece uma menina, principalmente quando sorri acanhadamente, revelando o aparelho que comprime os seus dentes pequeninos e amarelados.
Dalila me revela que está no “xirizal” há uma semana e que foi levada por algumas amigas que já trabalham no local. 
“Vim trazida por elas, que me disseram que aqui era muito bom para trabalhar”. Pergunto com que idade ela começou a fazer programas. “Nem me lembro mais”, ela responde. Dalila garante que se prostitui porque gosta. Ela mora com os pais no bairro da Liberdade, e em todas as tardes sai a caminho do Oscar Frota, onde fica até as primeiras horas da noite. “Eu saio dizendo que vou para a casa de amigas”. Dalila cobra R$ 60 por programa. Em sua primeira semana de “xirizal”, calcula que já fez mais de 50 programas. É um lucro de mais de R$ 3 mil.
Apesar dos casos, nem todos vão ao Oscar Frota em busca de sexo. Alguns homens, solitários, querem apenas beber em companhia de uma mulher. Pergunto sobre a variedade de clientes. “São sempre os mesmos. Sempre as mesmas caras”, Dalila garante. A maior parte dos clientes do “xirizal” é composta por quem trabalha ou mora na região. Mas, também existem clientes como Mister Jota e Cícero, que moram longe, mas frequentam o local com assiduidade.
Enquanto conversa comigo, Dalila faz sinais para uma mesa do outro lado do bar. O dever a chama. Sinto que também é chegada a minha hora de ir. Já abusei demais da indiferença do local. Saio do bar e volto às ruas do Centro. Deixo a Travessa do Portinho para trás. As radiolas continuam tocando os bregas românticos, cantados por homens de vozes irritantemente agudas. É dia de festa na Travessa do Portinho. Todos os dias são.
*Alguns nomes e locais foram alterados para preservar as identidades dos entrevistados. (Matéria publicada no Correio Braziliense de ontem)

Ontem, primeiro de agosto: Dia internacional da amamentação...



"O que existe de mais plebeu do que um sentimento???"
E.M.Cioran









terça-feira, 1 de agosto de 2017

O retorno à mãe! Ou: Será o fim das idealizações onanistas? Da babaquice genital? e do romantismo masculino?...


Nasci na Ucrânia em 1990, um ano antes do colapso da União Soviética. As circunstâncias econômicas eram terríveis. Meus pais tinham vários empregos para conseguir ganhar o mínimo necessário para a gente viver. Eles não recebiam dinheiro, apenas cupons que davam direito a comprar mantimentos, como um saco de 5 quilos de açúcar. Não havia eletricidade de noite. Mais tarde, descobri que ser uma jovem mulher em meu país é uma experiência particular. Nas ruas, era comum que homens dessem às garotas panfletos com convites para trabalhar em bordéis, prometendo salários enormes, de 1 000 dólares.
Apesar dessas adversidades, consegui entrar em uma prestigiada universidade de Kiev e estudar jornalismo. Aos 19 anos, recebi uma mensagem em uma rede social perguntando se eu queria participar de uma reunião do Femen sobre resistência à indústria do sexo e sobre a luta contra a prostituição. Ninguém sabia o que era o Femen. Eu pesquisei no Google e não achei nada. Aí, comecei a me perguntar coisas como: “Afinal, eu sou contra a prostituição?” Era a primeira vez que eu me vi obrigada a pensar nessas questões, porque na universidade, na escola ou nas conversas com amigos, ninguém discutia os direitos das mulheres.
O primeiro protesto topless de que participei com o Femen aconteceu em 2010, dois anos depois de me juntar ao movimento. Victor Yanukovich, aliado do russo Vladmir Putin, estava prestes a ganhar a eleição porque todos os candidatos a favor do Ocidente e da democracia tinham sido eliminados. Eu e outras quatro ativistas aparecemos com mensagens no corpo alertando para o fato de que a democracia estava em perigo. Eu era contra mostrar os seios, mas ao ver a reação ao protesto entendi que a tática fazia sentido. Trata-se de uma maneira de mudar a percepção do corpo feminino, que, por causa da sociedade patriarcal, só aparece nu no contexto sexual. Ao colocar a nudez em um contexto diferente, nós a transformamos em um instrumento político, em uma arma. E isso incomoda muito os ditadores.
Quando nós protestamos na Bielorrússia (governada por Alexander Lukashenko, aliado de Putin), em 2011, um grupo de homens armados nos agarrou e nos jogou em um ônibus. Durante a noite toda, eles nos mantiveram lá, circulando, e nos fazendo perguntas: “Quem mandou vocês fazerem isso? Nós sabemos que o Ocidente pagou vocês". Depois, eles vestiram capuzes em nós e nos puseram em outro ônibus. Não podíamos nos mexer nem levantar a cabeça. A cada dez ou quinze minutos eles diziam que iam nos matar. “Imagine o rosto da sua mãe quando ela vir o cadáver que vamos mandar para ela”, falavam. Aí, eles nos levaram para a floresta, mandaramque tirássemos a roupa e nos bateram com um bastão. Filmaram tudo com uma câmera e um deles cortou meu cabelo com uma faca. Também nos deram cartazes com a suástica nazista, que tivemos de segurar enquanto registravam tudo. Ao final, eles nos abandonaram e saímos andando pela floresta, tentando achar um jeito de escapar dali.
É muito difícil lidar com o medo. O que me fez concluir que eu deveria continuar com as minhas atividades apesar dessa agressão foi entender que as vítimas, na verdade, eram eles. Uns 25 homens adultos, todos com cerca de 40 anos, que passaram 24 horas fazendo tudo aquilo com três garotas apenas porque elas tinham protestado de peito aberto contra a tirania. Eles eram vítimas da ditadura, que os estava comandando e submetendo aos seus dogmas. Em 2012, fugi da Ucrânia para não ser presa, e hoje moro na França. Aqui eu não me sinto sozinha, porque existem muitas pessoas que nos apoiam. Na Ucrânia, éramos um grupo pequeno. Atualmente, já estamos em sete países.
Depoimento colhido por Luiza Queiroz 
Foto por Franco Origlia/Getty Images