"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Enquanto isso...

O animismo cristão e os ossos do garrincha...

Quem estava com o radio ligado, hoje, logo depois do almoço, pôde testemunhar a euforia da mídia com um mal entendido a respeito dos ossos do Mané Garrincha. (Garrincha, o jogador e não o estádio aqui do DF (esse playground de  cretinos) cujos idealizadores e executores estão quase todos atrás das grades). 
Dizia-se, no início da reportagem, que os ossos daquele jogador haviam desaparecido do cemitério de Magé, um município do RJ, que fica entre Duque de Caxias e Petrópolis. Os fanáticos por esse esporte não escondiam a euforia tanto pela pauta como pelo exotismo do assunto até que veio a filha do "craque", uma  moça de fala enrolada que jogou um balde de água fria na pauta. Os ossos - disse ela - não é que estivessem desaparecidos, mas que haviam sido retirados do túmulo original e colocados na mesma cova dos de uma tia do Mané. 
Os repórteres gaguejaram.., gaguejaram, tentaram salvar a pauta, aproveitaram para perguntar outras bobagens àquela descendente do "gênio" e tudo ficou por isso mesmo. Enquanto eu ia prestando atenção naquela farsa e me perguntando quem seria o idiota que poderia estar interessado por aquelas ossadas, meu veio em mente uma frase do velho Sartre referindo-se à hipocrisia oficializada: nossa verdadeira preocupação nunca foi com a alma, mas sim com o futuro dos ossos.
Meia hora depois, falando sobre o assunto com o mendigo K, ele me fez a seguinte comentário: de minha parte, quero deixar registrado aqui que quando eu vier a bater as botas, se o crematório da cidade não estiver funcionando, (o que é bem provável, porque aqui quase nada funciona) meus ossos estarão liberados para qualquer coisa que se queira fazer com eles: cabos de facas, botões, brincos, pontas de flechas, cantis para transportar cachaça, berrantes, peças de xadrez, vibradores, flautas transversais e etc.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Os fumadores de crack de São Paulo, a policia médica... e os Gulags da Sibéria...

Parece não ter mais fim as discussões sobre a pertinência  ou não de se  internar compulsoriamente aos viciados em crack que atemorizam as ricas avenidas de São Paulo. Se para uns isto seria um ato de caridade greco-romano-judáico-cristã, para outros seria uma recaída na impostura e na tirania dos tempos da "policia médica" e das internações nos Gulags da Sibéria.  Médicos, psicólogos, antropólogos, padres, jornalistas, coroinhas, advogados, donas de casa, astrólogos, enfermeiras, profissionais das mucosas, juízes, chefes de polícia, astrólogos, traficantes e até filósofos (uns oriundos da USP, da PUC ou da Mackenzie) opinam sem respirar, cada um, evidentemente, defendendo sua seita, seu moralismo e seu negócio. E os fodidos que estão lá em frente ao Teatro Municipal e nas sombras das ruelas adjacentes há décadas, vivendo de humilhações, de sarcasmos e de vícios assistem a tudo agarrados a seus trapos, a suas pulgas e a seus cachimbos improvisados, sem conseguirem lembrar a seus carcereiros e impostores que cada um deles, se ainda não queima uma pedra de crack, pelo menos de vez em quando, engole algumas gotas ou algumas drágeas de  clonazepam, sem falar, evidentemente, das chulapadas matinais de cachaça, porque viver no seco é um ofício pra lá de complicado. 
 Tudo bem, mas o que fazer com essa gente agora? Me pergunta com agressividade um dos referidos doutores. Agora?  - lhe respondo - Agora é tarde. Não há mais reza ou demagogia que resolva e nem solução para eles.  Estão com os ossos, os pulmões e os neurônios destruídos... A sociedade terá que suportá-los e esperar... Esperar até que o crack cumpra o que, secretamente, as elites "trabalhadoras", "sóbrias" e "honestas" sempre  esperaram dele. E depois? Ora!, depois mandar os camburões recolher as ossadas...
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EM TEMPO:   e se esses burocratas, depois de internarem compulsoriamente os fumadores de crack resolverem internar também os que tenham taxas elevadas de colesterol?, os histéricos, os mentirosos, os que tenham algum  transtorno de personalidade? Os empresários milionários que vão à missa todos os domingos e que sabem harmonizar a hóstia com a síndrome de Korsakoff?
 Internar? Ora! Internar aonde? Tentem internar alguém (que tenha um transtorno psiquiátrico passageiro ou um problema psíquico qualquer) de uma ponta a outra do país, para ver se conseguem. E quando isto, por "milagre", venha acontecer, será sempre em ambientes que não se diferem em nada daqueles dos manicômios franceses que Pinel conseguiu interditar ainda em 1800, onde os doentes eram tratados como loucos e endemoniados...

Bactérias, virus, vibriões,fungos, bacilos e Cia: UNI-VOS!

1. Mesmo não tendo um olfato tão apurado como o de meu cachorro, percebi logo que o senhor que corta minha barba uma vez cada semestre, não havia lavado as mãos nesta manhã e nem na última semana. Mas é compreensível, uma vez que a cidade está fazendo contenção desse líquido que, durante a trajetória miserável da humanidade, foi o motivo principal de quase todas as guerras. E o mesmo acontece com os funcionários e garçons de bares, lanchonetes, restaurantes, clínicas, onde os banheiros estão interditados. Como historicamente (mesmo quando há água em abundância) não temos o costume de lavar as mãos, agora então... E as bactérias, os mais esquisitos tipos de vírus, de vibriões, de fungos, bacilos e etc, estão em festa... E as filas nos hospitais aumentam...

2. Enquanto isso, lá em alguns estados nordestinos, os vilarejos e as cidades estão submersos. O barro e a água suja subiu até o meio das cortinas, invadiu as garagens, os currais, as cisternas, as alcovas, os alambiques e até as capelas. As ruas foram transformadas em exóticos canais, escoadouros ou valas por onde os moradores, no meio de ratos, de lama, de bodes, de cachorros e de serpentes, navegam sobre caixotes e até sobre guarda-roupas. Uma desgraceira quase medieval que se repete com frequência em várias regiões do país e que, mesmo para os mais bobalhões e otimistas, parece não ter fim. Muita gente desesperada se protegeu sobre montanhas de entulhos, geladeiras, camas, colchões, mesas e de lá agitam cruzes e patuás, acendem velas e círios em busca de alguma compensação ou consolo celeste sem querer tomar consciência de que os céus e os demiurgos estão bêbados e em greve há milênios... 
O mendigo K. que assiste tudo isso com uma fúria quase incontida, foi categórico: ao invés dessa gente ficar de joelhos e implorando por uma ajuda que certamente não lhes chegará, deveriam tocar fogo no que sobrou de suas cidades e de seus vilarejos e, com suas foices, machados e seus isqueiros virem acampar aqui ao redor do Congresso Nacional.

3. E as escolas de engenharia hidráulica/sanitária que, durante décadas, não conseguiram ensinar a seus alunos como domar um mísero córrego, que tratem de ir cancelando as matrículas e fechando as portas...

4. EM TEMPO: Morreu ontem o ex ditador do Panama, Manuel Noriega. Não são poucas as anedotas macabras ao redor de sua vida. Diziam até que duas ou três bruxas brasileiras atuavam na sua retaguarda. E, o mais curioso, é que sua mulher chamava-se Felicidad...

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Todo turista é um bastardo... (Ou: Não basta ter dinheiro e passaporte, é necessário aprender a viajar...)



"Il y avait des bouffons, il y avait des improvisateurs, des danseurs, des musiciens, il y avait le beau sous toutes ses formes, il y avait le vin. En dedans, il y avait toutes ces belles choses et la sécurité. Au dehors, la mort rouge..."
Edgar A. Poe
(Histoires extraordinaires)









Cerca de 300 moradores saíam na semana passada às ruas em Palma de Maiorca, na Espanha,  fantasiados de turistas e arrastando malas. Passeando como fazem milhares de visitantes que desembarcam em cruzeiros, eles simularam a criação do que chamaram de "pista para estrangeiros". Em Barcelona continuam aparecendo pichações, cada vez mais agressivas, no bairro de Gràcia ou perto do turístico parque Güell. "All tourists are bastards" ("todos os turistas são bastardos"), lia-se dias atrás. Em Madri, o carnaval terminou no bairro de Lavapiés com o enterro simbólico de uma moradora: alertava para a expulsão de habitantes pela pressão turística.


A indústria turística tem vivido um boom. Ano após ano, a Espanha bate recordes, até chegar aos mais de 75 milhões de visitantes anuais. Em cinco anos, o turismo internacionalcresceu mais de 30%. Simultaneamente, apareceu e se ampliou a turismofobia. O setor vive com inquietação o aumento da rejeição ao turismo. "As atitudes dos responsáveis políticos de algumas Administrações não ajudam a reduzir as tensões", adverte o presidente da Confederação Espanhola de Alojamentos Turísticos, Joan Molas.
As entidades patronais olham com especial preocupação Barcelona e Ilhas Baleares, onde o turismo representa uma elevada porcentagem da economia. A imprensa internacional já destacou o fenômeno. Às vésperas de outro verão com prováveis recordes de visitantes, o jornal britânico The Independent destacou Barcelona como um dos oito destinos que mais odeiam turistas. O ministro do setor, Álvaro Nadal, respondeu afirmando que "é um fenômeno mais político do que social". Mas os especialistas consultados, até mesmo alguns empresários, concordam que a irrupção do turismo em massa na vida cotidiana dos cidadãos causa problemas. Seja porque quase não podem andar pela rua, como ao redor da Sagrada Família de Barcelona, pelos problemas de convivência − chegaram a ser denunciados turistas que jogavam futebol em apartamentos − ou porque o aumento de moradias turísticas ocorreu em detrimento do aluguel para residentes, um fenômeno que fez com que os preços disparassem.
Barcelona é uma das cidades onde mais se instalou a turismofobia. Segundo uma pesquisa da administração municipal, embora uma ampla maioria de cidadãos (86,7%) considere que o turismo é benéfico, quase metade acredita que a situação está chegando ao limite. O turismo se transformou na segunda preocupação dos moradores. É o que Claudio Milano, professor da Escola de Turismo e Hospitalidade Ostelea e membro do grupo Turismografias chama de "índice de irritabilidade". "As cidades que vivem estes fenômenos passam de uma euforia inicial para uma situação de conflito, não com os turistas, mas com as políticas para o turismo", afirma. A turismofobia, assinala Milano, não é exclusiva da Espanha: "Vemos isso em Veneza, Berlim, Toronto, New Orleans ou no Sudeste Asiático".

Quanto mais visitas, mais inimizade

Paolo Russo, professor de gestão turística urbana na Universidade Rovira i Virgili, viveu essa situação na própria pele. É veneziano. "Lá os moradores perderam a cidade, é irreversível." Russo conhece a rejeição e os protestos, mas opina que os cidadãos se equivocam quando dirigem sua ira para o turista: "Ele é apenas a cara da indústria turística. Para o cidadão irritado é mais fácil culpar o turista, mas o culpado não é ele, é a indústria, é o porto aonde chegam os cruzeiros com turistas, são os políticos, é o urbanismo... Qualquer cidade que tenha sido acolhedora com os turistas se torna inimiga deles quando aumenta a pressão".
A administração municipal de Barcelona calcula que o aluguel turístico seja até quatro vezes mais rentável que o convencional. Isso desvia o mercado para os visitantes e dispara os preços. "Têm ocorrido manifestações de moradores, como a realizada na Barceloneta. Mas ali só há um hotel de 30 quartos. O problema é a existência de milhares de moradias destinadas ilegalmente para uso turístico. Isso nos preocupa, porque torna difícil encontrar alojamento para nossos trabalhadores", lamenta Molas. As autoridades puseram essa oferta ilegal na alça de mira, ao contrário do que ocorre com os hotéis. "O hotel é uma bolha: protege o cidadão dos turistas, que visitam a cidade de dia, mas durante a noite se concentram nele", diz Russo.
No bairro Gòtic de Barcelona, mais da metade dos edifícios tem apartamentos turísticos. Reme Gómez, integrante da Assembleia de Bairros por um Turismo Sustentável, rejeita o termo turismofobia: "Ele desvia o foco de atenção e dá argumentos aos grandes lobbies". A ativista alerta que a massificação está "destruindo o tecido local".
Os protestos também crescem em Maiorca. Ali se organizaram em grupos como La Ciutat Per a Qui l'Habita ("a cidade para quem vive nela") e Palma21. Por outro lado, Macià Blázquez, professor de Geografia da Universidade das Ilhas Baleares, recorda que o turismo é "uma indústria muito abençoada. Sempre se diz que ela não tem chaminés, porque presta serviços e não extrai recursos".

Gasto compartilhado

Precisamente, o especialista em espaço público David Bravo e o geógrafo Francesc Muñoz concordam que o turismo deve ser tratado como uma indústria. "Assumimos todos os gastos com limpeza, transporte público e segurança dos turistas e frequentemente eles só deixam a embalagem da comida que lhes dão", queixa-se Bravo. Muñoz defende "ir direto ao ponto: assim como o vendedor que quer fazer negócio tem de pagar uma taxa, as empresas turísticas que se aproveitam de investimentos coletivos (como os calçadões para pedestres) teriam de pagar algo em troca para as cidades".
O consultor da Magma Turismo Bruno Hallé, convencido de que o problema surgiu "a partir de opções políticas", ressalta, por sua vez, a geração de "riqueza, conhecimento e postos de trabalho" pelo setor. "Os esforços devem se concentrar em vigiar a oferta ilegal", opina. Na verdade, muitos moradores, em meio à crise econômica, resolveram aproveitar o boom do turismo para alugar apartamentos ou quartos para viajantes.
ITÁLIA ESTUDA CRIAÇÃO DE CONTROLES EM CIDADES E MONUMENTOs
EL PAÍS
A prefeita de Roma, Virginia Raggi, quer evitar que os 30.000 visitantes que a cada dia se aproximam da Fontana di Trevi se detenham diante ela. Deixou isso claro neste mês. Segue assim a posição do ministro italiano da Cultura, Dario Franceschini, que semanas antes falou em fixar limites nas visitas aos "centros históricos" do país.
A Fontana di Trevi é um dos centros dos quais falou Franceschini, assim como a famosa escadaria da igreja Trinità dei Monti, também em Roma, cidade que recebe dezenas de milhões de visitas a cada ano.
A pressão se multiplica em Veneza, cuja área turística tem 50.000 moradores e recebe mais de 30 milhões de visitantes a cada ano. Foram instaladas catracas nas três pontes de acesso à cidade e nos terminais onde desembarcam os passageiros de cruzeiros. Esse é um mecanismo para que se possa começar a limitar o número de visitantes desses "centros históricos", como propõe Franceschini.
Outro lugar onde as autoridades tentam que o turismo não morra por causa do sucesso é a Islândia. A ilha vulcânica no norte do Atlântico, na qual vivem 330.000 pessoas, viu como nos últimos anos se multiplicou seu grau de atração turística. Em 2010, através de seu aeroporto internacional, recebeu quase meio milhão de visitas. No ano passado, o total chegou a 1,76 milhão. O aumento levou as autoridades do país a preparar neste ano medidas para encarecer o preço dos alojamentos turísticos, a fim de limitar a chegada de visitantes.

sábado, 27 de maio de 2017

Enquanto isso...

O hospício afetivo. Ou: com os joelhos cada vez mais juntos... Ou o surrealismo metafísico da sexualidade feminina...


Para ouvir a música clicar no canto esquerdo da faixa...


"Quando seu filho chegou a idade adulta, Crates o levou a um bordel: "Foi assim - lhe disse - como se casou teu pai..."
Diógenes Laercio


Carol Santa Fe, de 45 anos, está casada. Até aqui, qual é a notícia? Esta: a "esposa" da americana de San Diego (Califórnia), é nada menos que uma estação de trem!
A estação tem até nome, Daidra. Carol visita a "esposa" todos os dias, após fazer uma viagem de ônibus que dura 45 minutos. Ela diz que tem relações sexuais mentalmente com a estação ferroviária e se identifica como uma pessoa que é sexualmente atraída por objetos inanimados e construções. Carol não sabia disso até ter pesquisado no Google seis anos atrás: "Estou apaixonada por um prédio".
Abaixo, algumas declarações de Carol sobre o amor e o casamento com Daidra:
"Nós não nos relacionávamos até 2011, mas eu já tinha uma queda pela estação desde que eu era criança."
"Quando nos casamos, eu fiquei lá e eu disse que tomaria a estação como minha parceira. Foi o dia mais feliz de nossas vidas"
"Quando eu chego, digo 'olá' para ela e então ando em volta do quarteirão, para que ninguém perceba que estou falando com ela."
"Quando eu a toco, sinto como se realmente me abraçasse e me beijasse."
"Eu não tenho sexo físico com a estação em público, eu quero ser respeitosa."


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Enquanto perdemos tempo "periciando" um inútil gravador, os gringos passeiam por Jupiter... (que, aliás, parece uma pizza de gelatina...)


O protesto da desilusão...

"Quando um povo chegou ao ponto miserável de não ter pelas algemas senão medo de perdê-las,
Quando chegou a olhar o despotismo como uma coisa sem a qual sua vida seria uma desgraça,
Quando baixou a esse infinito de infamia...
De onde pode vir a salvação?
De onde?" Vargas Vila



Ontem encontrei o mendigo K no meio da fumaceira no saguão do Ministério da agricultura que havia sido "incendiado" pelos manifestantes. A fúria estava no auge. Tiros, pedradas, gritos, maldições, fogo, fumaça, correrias, a voz que saia do alto dos caminhões e se perdia pela Esplanada, policias de todos os tipos, cavalos, ambulâncias, bombeiros, uma moça desmaiada e alguém lhe tapando as narinas. Mascarados, fardados, armados, um adolescente com a mão dilacerada, balas de borracha e pedras zunindo. As vidraças despedaçadas... As chamas comendo devagar dentro do ministério. Por quê o da agricultura? Pensei imediatamente nos agricultores que há décadas vêm adicionando agrotóxicos e venenos nos pimentões, nas cebolas, nos tomates... 

Fogo também no Ministério da Cultura. Pensei logo naquele nazi que, certa vez declarou que quando ouvia falar em cultura sacava logo sua pistola. 
Fogo no Ministério da Saúde, pensei de imediato nas filas  intermináveis dos hospitais perdidos pelo país afora e nos doentes que passam horas lá implorando por algum tipo de misericórdia... O mendigo olhava para toda aquela guerra com uma  indissimulável melancolia. 
Quando os gritos, os tiros e os ruídos diminuíram, aproximou-se para confidenciar-me: nada é mais melancólico do que estar no meio de uma guerra destas sem poder tomar partido. Como percebeu que fiquei meio confuso, esclareceu: como ficar do lado de uma polícia dessa que está a serviço de um governo "sem legitimidade"?, e como estar do lado dos manifestantes que estão representando um governo do passado, cujos principais líderes estão todos presos por "suposta corrupção"???  
Deu um murro no balcão coberto de estilhaços de vidro, cinzas, sangue, fuligem, fragmentos do teto que havia em sua frente e concluiu: Como não sentir-se um otário e um babaca numa situação destas?
Atravessamos a esplanada no meio de escaramuças, pedradas, tiros, bombas, labaredas, palavras de ordem, gritos. No meio daquela tempestade de estímulos senti que meu coração ameaçava entrar em colapso. Dei-lhe uma ordem para que se acalmasse ou então que se calasse para sempre.  Me obedeceu servilmente. Gente tossindo como tuberculosos sob o efeito da fumaça, da pólvora e da pimenta até chegarmos ao Ministério da Educação, onde havia, junto a uma de suas paredes uma mini e simbólica fogueira. Ninguém lhe dava a mínima importância, apesar de nela, estar contida toda a história nacional... Um dos alto-falantes anunciou que o exército chegaria em minutos.  O mendigo K lançou uma pedra ao léu, gritou para um policial: se o ministério pegar fogo salvaremos o fogo  e desapareceu por uma escada que há nos fundos daquele edifício...

terça-feira, 23 de maio de 2017

Da república platônica e da Cracolândia...

Paras ouvir a música, clicar no canto esquerdo da faixa...



"Se os bois tivessem deuses, estes teriam chifres..."
Jenófanes















1. Na última semana, o número de motoristas flagrados bêbados praticamente duplicou aqui na cidade. Quem não pode comprar cocaína vai na cachaça mesmo! O alcoolismo passa a ser um bálsamo diante de tamanha miséria política...

2. Depois do espetáculo das delações da JBS.., o espetáculo da Cracolândia em São Paulo..
 O nexo entre o caráter dos personagens de uma e de outra operação, entre o cachimbo e o Chivas, é mais do que evidente. Isto é: a lógica e a essência dos atores é descaradamente a mesma.

3. E o judiciário está investindo agora toda sua perspicácia e sapiência sobre o gravador com o qual o marido da Ticiana gravou o marido da Marcela. Nunca um gravador teve tanta importância... Será que Freud ou o Juruna teriam alguma interpretação inédita para tanta ingenuidade? E a demência avança...

4. E a polícia está nas ruas novamente aqui na capital da república. Passaram quase voando por debaixo de minha janela com a sirene ligada e a coronha dos fuzis para fora. Meu cachorro, que já conhece os camarins do poder e inclusive do Estádio Mané Garrincha (esse playground de idiotas), latiu com um descarado cinismo... (sorte que hoje é dia de Santa Rita - me lembra um energúmeno...)



segunda-feira, 22 de maio de 2017

Noticias do Orient-Express... (Clarin de Buenos Aires, hoje)


http://hd.clarin.com/tagged/Orient-Express

Orgasmo. Prazer ou calvário? (Quando o orgasmo faz mal) LE MONDE

Quand l’orgasme rend malade

@ Pixabay
Cela devrait toujours être un réel plaisir mais, pour certains hommes, c’est un vrai calvaire. Chez eux, chaque éjaculation s’accompagne de symptômes invalidants. « Pour un plaisir, mille douleurs », disait le poète François Villon.
Initialement décrit en 2002, ce trouble se traduit par l’apparition après un orgasme d’un cortège de symptômes pouvant persister plusieurs jours. Baptisé « syndrome de la maladie post-orgasmique », il vient d’être décrit pour la première fois par des urologues français chez trois hommes. « Le syndrome de la maladie post-orgasmique est une maladie rare mais probablement sous-diagnostiquée car encore méconnue », indiquent-ils dans un article paru en ligne le 18 avril 2017 dans la revue Progrès en Urologie.
Il y a quinze ans, deux médecins néerlandais, Marcel Waldinger et Dave Schweizer, rapportent le cas de deux hommes qui se sentent mal immédiatement après avoir éjaculé. Les symptômes surviennent que l’éjaculation ait lieu à l’occasion d’un rapport sexuel, d’une masturbation ou spontanément dans leur sommeil. Ce syndrome se manifeste par des symptômes pseudo-grippaux. Ces hommes se sentent légèrement fiévreux, ont « la tête embrumée » et ressentent parfois également des douleurs musculaires dans les bras et dans les jambes. Ils se plaignent également de difficultés de concentration et d’attention et sont d’humeur irritable. Ces symptômes ne disparaissaient qu’au bout de 2 à 7 jours et réapparaissent avec la même intensité à l’éjaculation suivante.
Critères diagnostiques
On recense une cinquantaine de cas de syndrome de la maladie post-orgasmique dans la littérature médicale dont 45 rapportés par le seul Pr Waldinger. Ce spécialiste a proposé cinq critères diagnostiques pour le Post Orgasmic Illness Syndrome (POIS). Premièrement, le patient doit présenter un des symptômes suivants : une sensation d’état grippal ou d’extrême fatigue, une faiblesse musculaire, un état fébrile ou une sudation, des troubles de l’humeur et/ou une irritabilité, des troubles de la mémoire et des problèmes de concentration, un discours incohérent, une congestion nasale ou un écoulement clair nasal, des yeux qui piquent. Deuxièmement, tous ces symptômes surviennent immédiatement (dans les secondes), rapidement (dans les minutes) ou dans les heures suivant l’éjaculation, que celle-ci soit provoquée par un coït, un acte masturbatoire ou survienne spontanément pendant le sommeil. Troisièmement, ces symptômes surviennent quasiment à chaque éjaculation, c’est-à-dire dans plus de 90 % des cas dans un tel contexte. Quatrièmement, la plupart de ces symptômes durent entre 2 et 7 jours. Cinquièmement, ils disparaissent spontanément. Si les symptômes sont variables d’un individu à l’autre dans leur nature, leur intensité et leur durée, ils sont relativement constants chez un même individu. Certains hommes peuvent ressentir une extrême fatigue et des picotements des yeux tandis que d’autres se plaignent principalement de problèmes de concentration et d’une irritabilité.  
On distingue le POIS primaire qui se manifeste dès les premières éjaculations durant la puberté ou l’adolescence, des cas secondaires débutant plus tard. Sur les 45 patients étudiés par le Pr Waldinger, 49% présentaient un POIS primaire. Chez 87 % de ces sujets masculins, les symptômes débutaient dans la demi-heure suivant l’éjaculation. Trois patients avaient fini par s’abstenir de tout rapport sexuel avec leur partenaire. Jusqu’à donc décider de ne plus jouir pour ne plus souffrir. Huit autres avaient décidé d’avoir une relation sexuelle que tous les 2 à 6 mois. Afin de minimiser les conséquences de difficultés d’attention et de concentration, certains patients en viennent à programmer leurs rapports sexuels afin que les symptômes qui s’en suivent, qui peuvent durer une semaine, n’influent pas trop sur leur travail ou leurs études. Tout cela témoigne du fardeau mental que représente le POIS. Autant dire la poisse en bon français.        
@ Pixabay
Reprenant les cinq critères diagnostiques établis par le Pr Waldinger, le Dr Frédérique Le Breton, le Pr Gérard Amarenco et leurs collègues du service de neuro-urologie de l’hôpital Tenon (Paris) ont identifié un syndrome de la maladie post-orgasmique, ayant débuté à la puberté, chez trois hommes âgés de 28, 29 et 37 ans. « L’un d’eux était divorcé. Cela a détruit sa vie de couple car il lui était devenu impossible d’avoir des relations sexuelles », me confie le Dr Le Breton.
« Chez ces trois patients, en dehors des crises, l’examen clinique neurologique et du périnée est strictement normal. Aucune anomalie n’a été détectée lors des investigations complémentaires, en l’occurrence les dosages vitaminiques, hormonaux et immunitaires. L’IRM cérébrale est normale. L’IRM de la moelle épinière également. Cet examen est motivé par le fait que l’éjaculation est contrôlée par le système nerveux végétatif. Celui-ci régule certaines fonctions automatiques de l’organisme. Ses centres se trouvent dans la moelle épinière. Les tests d’évaluation du système nerveux végétatif ne montraient rien d’anormal »,me précise le Dr Frédérique Le Breton.Le patient de 29 ans éprouve après l’orgasme une sensation de malaise, des difficultés de concentration, de la fatigue, une sensibilité exagérée au toucher, une baisse de la précision des mouvements, des maux de tête, un éblouissement à la lumière, une sécheresse de la bouche et des yeux, une sensation de lourdeur au niveau de l’œsophage et de l’estomac. Ces symptômes, qui surviennent 5 à 6 minutes après éjaculation, persistent entre 24 et 72 heures. Aucun traitement ne s’est révélé efficace. Ni les inhibiteurs de la recapture de la sérotonine (antidépresseurs), ni les benzodiazépines (anxiolytiques) n’ont eu d’effet.   
Le patient de 37 ans, présente dans 15 à 20 minutes suivant l’orgasme, des crampes des membres inférieurs, une irritabilité, un ralentissement psychomoteur, une fatigue, un écoulement de liquide clair par le nez, un larmoiement, des éternuements, des bouffées de chaleur, un excès de transpiration associé à une frilosité. Une efficacité partielle mais transitoire a été notée avec les divers traitements proposés (neuroleptique utilisé en psychiatrie dans les angoisses profondes, antihistaminique prescrit en cas d’allergie, anticholinergique utilisé dans la maladie de Parkinson, nicotinamide ou vitamine PP).
Le plus jeune patient, âgé de 28 ans, ressent, immédiatement après éjaculation, une somnolence, une torpeur, des difficultés de concentration, des crampes dans les jambes. Il se plaint également d’autres symptômes n’ayant jamais été rapporté chez des individus présentant un POIS : des troubles vésico-sphinctériens associés à une envie fréquente d’uriner, une difficulté à évacuer l’urine complètement de la vessie, un déficit de sensibilité du pénis lors des rapports sexuels. Chez ce jeune homme, tous les traitements proposés ont échoué (antihistaminique, alpha-bloquant ayant un effet relaxant sur le plan urologique, séances de relaxation).
Le Dr Frédérique Le Breton m’indique avoir diagnostiqué très récemment un quatrième cas avant d’ajouter : « Aucun traitement ne lui ayant réussi, ce patient s’est tourné vers l’hypnose ».
Marc Gozlan (Suivez-moi sur Twitter)
POIS : une origine encore débattue
@ torange.biz
Le syndrome de la maladie post-orgasmique (POIS) est reconnu aux Etats-Unis comme une maladie rare par les Instituts nationaux de la santé (NIH). Son origine est discutée : psychogène, hormonale, neuro-endocrinienne. Selon le Pr Waldinger, le POIS pourrait être dû à une réaction du système immunitaire de l’individu vis-à-vis de son propre sperme. Jusqu’à présent, une allergie au sperme n’a été rapportée que chez la femme. 
En 2015, le Pr Waldinger a rapporté la survenue de POIS avant et après stérilisation chez trois hommes. Dans l’hypothèse d’une réaction immunologique, l’antigène serait donc plus vraisemblablement associé au liquide séminal qu’aux spermatozoïdes dans la mesure où ces derniers ne sont plus libérés après stérilisation mais que le liquide séminal continue d’être produit par la prostate et les vésicules séminales. Selon cette théorie, des réactions immunologiques se produiraient lors des éjaculations à la faveur de contacts répétés entre des peptides du liquide séminal et les lymphocytes T circulants. Cela entrainerait une production de cytokines spécifiques (hormones produites par le système immunitaire) à l’origine de divers symptômes physiques et cognitifs. Selon le Pr Waldinger, le POIS serait donc une pathologie auto-immune. Ce médecin a observé un test allergique cutané positif en utilisant des échantillons de sperme extrêmement dilué (88 % des 35 patients évalués). Il a tenté chez deux patients une désensibilisation par des injections sous-cutanées de leur sperme (dilution 1/40.000) et dit avoir observé une amélioration de leurs symptômes. 
L’hypothèse immunologique n’est cependant pas retenue par des allergologues et urologues chinois (Peking Union Medical College Hospital) dont l’étude parue en 2015 dans le Journal of Sexual Medicine a porté sur un patient souffrant de POIS et trois individus normaux. Tous ont eu une réaction cutanée positive après injection de leur propre liquide séminal dilué, même si le sujet atteint de POIS a eu une réaction plus prononcée. Surtout, ces chercheurs rapportent ne pas avoir détecté d’anticorps (IgE) spécifiquement dirigés contre le sperme dans le sérum du patient atteint de POIS et des trois sujets sains contrôles. Ce résultat semble donc indiquer qu’une véritable allergie à son propre sperme n’est pas à l’origine du POIS.
Les médecins chinois évoquent une autre hypothèse. Ils font remarquer que les symptômes du syndrome de la maladie post-orgasmique ressemblent à ceux du syndrome de sevrage des opiacés, qui s’installe au moment de l’interruption des prises de drogues et qui est donc un indicateur d’une dépendance. Celui-ci comporte également des signes physiques et des symptômes psychologiques pouvant durer plusieurs jours. Le syndrome de sevrage aux opiacés s’accompagne de rhinorrhée (écoulements nasals), de larmoiements, de douleurs musculaires, de frissons, de crampes musculaires et abdominales. Les auteurs chinois font remarquer que les peptides opioïdes endogènes, petites molécules fabriquées par le cerveau, sont impliqués dans l’état affectif positif associé au comportement sexuel. Les peptides opioïdes endogènes et les récepteurs opioïdes sur lesquels ils agissent sont en effet présents en grand nombre dans les structures cérébrales contrôlant les circuits de récompense. D’où l’hypothèse que le POIS résulterait d’un trouble affectant une catégorie particulière de récepteurs  opioïdes (récepteurs mu). Selon les chercheurs chinois, un déséquilibre de la chimie du cerveau pourrait donc être à l’origine du POIS.   
Quant aux urologues français, ils privilégient l’hypothèse d’une dysrégulation passagère du système nerveux végétatif dans la mesure où l’éjaculation entraîne après l’orgasme un « orage végétatif » (activation majeure du système sympathique avec libération massive de noradrénaline) et que certains symptômes du POIS sont évocateurs d’un dérèglement global du système neurovégétatif (dysautonomie).
Quinze ans après sa description initiale, le syndrome de la maladie post-orgasmique garde encore une grande part de mystère. 
Pour en savoir plus :
Bignami B, Honore T, Turmel N, Haddad R, Weglinski L, Le Breton F, Amarenco G. Syndrome de la maladie post-orgasmique. Prog Urol. 2017 Apr 18. pii: S1166-7087(17)30069-6. doi: 10.1016/j.purol.2017.03.007
Serefoglu EC. Post-Orgasmic Illness Syndrome: Where Are We? J Sex Med. 2017 May;14(5):641-642. doi: 10.1016/j.jsxm.2017.03.250
Waldinger MD. Post orgasmic illness syndrome (POIS). Transl Androl Urol. 2016 Aug;5(4):602-6. doi: 10.21037/tau.2016.07.01
Sur le web :
Postorgasmic illness syndrome (National Institutes of Health, NIH, Genetic and Rare Diseases Information Center)

domingo, 21 de maio de 2017

Brasília... e a prostituta da Babilônia...




Brasília, traída e de ressaca, amanheceu coberta de desolação e de neblina. As torres do Congresso Nacional, lá pelas 6:00 da manhã estavam praticamente mergulhadas até o pescoço numa espécie de chuvisco. Quatro ou cinco caminhões e ambulâncias da policia estavam estacionados por lá, com as luzes piscando, na expectativa de que a população, de uma hora para outra, numa espécie de surto psicótico, com machados e foices, marchasse sobre aquele covil. Mas estavam profundamente enganados. Como hoje é domingo, todo mundo quis aproveitar melhor as quinze gotas de rivotril e dormir até mais tarde. De vez em quando alguém, um taxista, um porteiro, um burocrata que amanheceu caído por aí ainda se lembra dos milhões e milhões que se bandearam das contas públicas para as privadas... Mas logo desistem e, desiludidos, bocejam... Só o mendigo K, que também estava nos arredores do Palácio, se atreveu a filosofar sobre o assunto. 
Como a operação policial a que me refiro levou o nome de Patmos, ele a associou ao Apolicalipse e me perguntou: A quem, afinal, João Batista estava se referindo, quando falava da Prostituta da Babilônia?. Quando percebeu que eu não dominava o assunto, com cara de frustração mandou-me ler os capítulos 17 e 18 do Apocalipse... e arrematou: Bazzo, o mundo - queira-se ou não - é como um grande hospital onde os pacientes estão permanentemente querendo trocar de leito...

sábado, 20 de maio de 2017

A chamada operação Patmos e o golpe de mestre...

Para ouvir a música clicar no canto esquerdo da faixa...
















"<<Le soleil, la lune et les étoiles>> est le manifeste voicé de la résistance..."
(anônimo)

Ouvindo agora à noite mais atentamente aos noticiários sobre os acontecimentos políticos e surrealistas dos últimos três dias ficou mais do que evidente que os irmãos Batista, os dois goianos que de modestos açougueiros se transformaram rapidamente em dois milionários, deram um golpe de mestre no país: explicitaram o caipirismo de nossas instituições, destruíram a credibilidade dos três poderes e demonstraram, por A + B que se pode comprar qualquer consciência aqui nos trópicos, sejam elas de esquerda ou de direita, de cima ou de baixo, ignorantes ou intelectuais, religiosos ou ateus, beatas ou cortesãs, altruístas ou egoístas... Chegaram em seu jatinho cor de neblina, distribuíram montanhas de dinheiro a todo tipo de miseráveis e de aves de rapina, filmaram tudo dos ângulos mais humilhantes, foram na casa do Presidente da República depois que a noite já havia caído e lá, com um gravador no bolso enrolaram o número 1 da república, fingiram que iriam pagar 11 bilhões de multas ao judiciário, contaram intimidades escabrosas vividas em todos os salões e alcovas da pátria, tiraram sarro de um ou de outro ministro, de um ou de outro presidente, de um ou de outro candidato, mostraram planilhas de milhões e milhões de reais com um desprezo profundo, mostraram recibos, fotos, truques, notas falsas, falaram dos partidos e de seus integrantes como quem fala de putas e de bordéis de periferia e sempre com uma estabilidade emocional admirável. Por fim, um dia antes de entregar a fita que abalaria o governo, o ego e a moral de todos e que desencadearia o apocalipse, venderam as ações de seus açougues e investiram tudo em dólares, pegaram as malas, os filhos e as mulheres, mais uns dois quilos de pequi, foram para o aeroporto e decolaram para a América em seu jatinho cor de neblina, deixando por aqui, todo mundo de boca aberta e olhando envergonhados para as ruínas disto que Levi Strauss chamou de tristes trópicos...
Para ter sido um golpe ainda mais fantástico e ainda mais cinematográfico, só faltou, minutos antes da decolagem, terem aparecido na janela do jato, jogado uma ou duas malas de dólares e dado uma banana para todos os seus lacaios, tanto de esquerda como de direita.  Quê miséria!

Os energúmenos e a importância terapêutica dos palavrões...



"Porque, por mais que se faça e que se diga, ainda temos com o selvagem muito mais semelhanças do que diferenças..."
Sir James Frazer

O prefeito Dória, de São Paulo, um dos improváveis candidatos à Presidência desta pobre república diz ter ficado escandalizado e horrorizado com os palavrões usados por Aécio Neves, um senador de seu partido, nas gravações que os tiras fizeram clandestinamente dele. Tentei saber quais palavrões o ilustre senador havia usado nos diálogos com seus comparsas, mas foi impossível, pois a mídia, seus coroinhas, freiras, juristas e pastores haviam, em nome da "moralidade", da repressão e da "pureza de espírito", suprimido tudo. Pela quantidade de reticências dava para deduzir: merda, cu, bosta, caralho, porra, pica, escroto e outros que até as crianças de 2 anos já gritam por aí sem medo de abalarem os pilares da Opus Dei e de irem para o inferno. Enfim, para quem, além de comer pizza e de vasculhar a Bíblia e a Constituição, costuma ler alguma coisa, o moralismo do ilustre prefeito é muito mais brochante e cretino do que "las malas palabras" do ilustre senador. 
E por falar em "malas palabras", vale a pena ler o livro do psicanalista argentino, Ariel C. Arango, exatamente com este título e que foi traduzido no Brasil pela Editora Brasiliense como: Os palavrões. Nele, Arango indica o papel saudável e as virtudes terapêuticas dos palavrões e da obscenidade. Aliás, o próprio Lula, só sobreviveu até hoje porque sempre soube, com seu linguajar, apontar ao populacho e a seus eleitores a sua índole animalesca. E isto já lembrava Freud no prólogo que fez para o livro de um de seus seguidores: "Sem dúvida, o homem se sente envergonhado com tudo o que possa lembrar-lhe muito claramente sua índole animal..."
 Cito abaixo alguns pontos do livro de Arango. 
Entretanto, quem nasceu e cresceu lá no sul, no meio daquela italianada imigrante e de seus "porco dios"; "sacramentos"; "porca hóstia" e "porca madona"... nem precisa perder tempo com isso.

" Com quanta razão já se disse que a última coisa que o habitante do fundo do mar descobriria seria a água". p.12

"Da teta à pica; este é seu típico itinerário sentimental. A vida amorosa da mulher é mais complexa que a do homem. Só depois de ter gozado uma precoce intimidade homossexual com a mãe é que vai descobrir o pai..."p.35

"Todo escatológico é tabu. Por isso as palavras que mencionam coisas excrementícias têm que ser pronunciadas em surdina. Em tons abafados, quase indefinidos. As sonoridades claras, nítidas, fortemente descritivas que os "palavrões" suscitam são totalmente banidas. Na realidade os seres humanos civilizados formamos uma hipócrita confraria que faz de conta que os homens e mulheres que dela fazem parte não têm cu, não soltam peidos, ignoram o que é a merda ou a bosta e, é claro, nunca cagam..."p.41

"A igreja católica percebeu, justamente, esta sensação inversa entre a merda e a grandeza e desde o século X instituiu como parte do cerimonial no dia da consagração de um Papa a cadeira estercoral... p.43

"Os excrementos das grandes personalidades religiosas também foram alimentos muito apreciados. Noutros tempos comer a merda do Grande Lama do Tibet era uma consagrada forma de veneração... "p.48

"Por essa razão, o falar insosso e povoado de diminutivos (pipi, pintinho, tetinha, perereca, piriquita, bumbum, siririca e etc) que caracteriza muitos adultos (neuróticos) é sinal certo de submissão sexual... (...) Aliás "o cu, sem dúvida, sempre foi a linguagem da submissão..."p.55, 71

"A castração e a circuncisão são meras variações de um mesmo tema..."p. 78

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Observação: Tendo em vista as fantasias e os desejos que a Janaína provoca, não farei nenhuma ironia com as manifestações carolas e beatas que ela tem expressado.





sexta-feira, 19 de maio de 2017

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Não cozinharás o cabrito com o leite da sua mãe...

1. Aqui em Brasília, apesar das delações de ontem terem escancarado as portas do inferno, todo mundo parece estar mais preocupado com o destino da Marcela do que com o do Presidente da República. Assim como com o destino da filha do Mantega mais do que com o do próprio Mantega, e o mesmo se pode dizer a respeito das mulheres do Cunha, do Cabral e de tantos outros prisioneiros ilustres. Dizem que as boutiques da Champs Élysées já sentiram o baque...
  É em momentos como estes que se pode ver que é falsa a acusação das feministas de que a misoginia é quase epidêmica no país.

2. Observem como atrás de um ilustre corrupto há sempre uma elegante e sedutora senhora.

3. Sexo e dinheiro continuam sendo tabu.

3. Eleições diretas? Indiretas? Transversais? obliquas? Em zigue-zague? Você, pobre e ignorante eleitor,  exercendo seu 'direito de cidadania' votaria em quem?

4 É evidente que é a república que é uma cloaca, uma doença e uma falácia. Mas todo mundo se recusa a questioná-la, como se temessem o fantasma de Platão...

5. E o anão Getúlio Vargas que chegou a pensar que aquele disparo contra si mesmo iria servir pedagogicamente para alguma coisa!?...

6. Não se desesperem, - resmungava o mendigo K, ali numa estação do metrô -, será importante destruir tudo, inclusive as ruínas...

7.. Enfim, é nestas horas que nos parece importante lembrar também daquela frase que um louco anônimo, querendo evitar que a plebe daquela época comesse carne e queijo ao mesmo tempo escreveu lá em Êxodo, 23,19:
"Não cozinharás o cabrito com o leite da sua mãe"...

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Enquanto isso... lá na rua... estão gritando, outra vez, por Diretas Já... Sinal de que a miséria não tem fim...

A erva do diabo, Carlos Castanheda e a ANVISA...

Hoje encontrei o mendigo K ali pelos lados das oficinas de automóveis, espaço barulhento e 'familiar' que à noite se transforma num puteiro, por um lado quase medieval e por outro, dos mais surrealistas, com senhoritas e travestis desfilando praticamente pelados no burburinho deprimente de alguns botecos improvisados e pelo meio das carcassas e sucatas de carros desmontados, pilhas de pneus, ferros-velhos, marginais, motores lambuzados de óleo, chaves esquecidas sobre tufos de estopa, rolamentos, para-brisas estropiados, garrafas de cachaça, fiapos de roupas íntimas, ampolas de benzetacil, preservativos usados, uns até sendo comidos por cães  gatos e morcegos que voam e circulam por ali se equilibrando heroicamente sobre latões de lixo. 
Como era hora do almoço tudo parecia um recanto de meditação para os de terceira idade. Até se podia ouvir uma música indiana vinda de um estúdio de RajaYôga. No máximo um travesseiro tomando sol numa janela, uma moça esticando os cabelos numa minúscula varanda, um varal com indecências, uma gaiola com um casal de canários dependurada num paredão em ruínas, um perfume de lavanda vindo das janelas gradeadas, um mecânico de cócoras limpando um carburador e um ou outro pau d'água lutando no meio da força da gravidade... 
Estava sentado ao volante da carcassa de uma kombi cantarolando Casa D'Irene e com uma coreografia visivelmente perturbada. De longe já foi mostrando-me o livro de Carlos Castanheda que estava lendo: A erva do diabo. Carlos Castanheda - foi dizendo, com a língua meia enrolada - gostaria imensamente de saber que os burocratas da ANVISA acabam de incluir a maconha entre as ervas medicinais... (deu uma gargalhada). E aquelas mães que quase mataram seus filhos porquê os viram fumando um centímetro da erva como é que ficam? A burguesia está toda por aí implorando para importar umas gotas de canabidiol para curar suas escleroses e suas loucuras... E agora, como é que ficamos? (explodiu em outra gargalhada). Carlos Castanheda, esse antropólogo e porra-louca peruano - prosseguiu, agora com ar professoral - defendeu sua tese na California, lá pela década de 70, mostrando os benefícios da erva em rituais de vidência e de feitiçaria nas tribos mexicanas... Deu uma baforada, gargalhou e entrou em surto...