"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

No porão da vida...

"Um marinheiro que eu conheci e que há bem pouco tempo fez a sua última viagem, o seu cruzeiro final, dividia os passageiros em classes: de primeira e do porão, as únicas que tinham interesse. Os outros, os da segunda, intermédios, esse não tinham história, dizia. São aqueles que nos aparecem, como os dados de um passaporte, como tendo uma vida regular, uma moral regular, um caráter regular, tudo regular. São os que não se distinguem nunca nem no bem, nem no mal. Nascem, vivem, cumprem e são enterrados sem que ninguém os note, sem que se dê por eles. Os da primeira, têm às vezes boas ações, mas os do porão têm revoltas quando não têm ironias. Um miserável roto e faminto, trotando sob a neve que caia, exclamava: Oh, senhores! Parece incrível como esta neve me desperta idéias negras! Os da segunda não andam à neve e sobretudo não têm idéias..." 
( Abilio Forjaz de Sampaio (No porão da vida, Livraria Civilização, Porto 1938.)































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