"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Meu nome é Euzilene Prexede do Nascimento Guajajara...

Meu nome é Euzilene Prexede do Nascimento Guajajara, mas todos me conhecem por Zahy, lua na língua guajajara, que faz parte da família tupi-guarani. Nasci na Reserva Indígena Cana Brava, Maranhão. Meu pai não é índio, apenas minha mãe. Sou a única filha dos dois juntos, mas tenho mais de trinta meios-irmãos, todos mais velhos. Na aldeia, vivíamos da roça, da pesca e da caça. Meu pai caçava veados, tatus e passarinhos e plantava arroz, milho, feijão etc. Tudo era dividido com a aldeia. Ele levava a mim e a meus irmãos para trabalhar também. Fomos morar na cidade da Barra do Corda quando eu tinha 8 anos para que eu pudesse estudar. Durante a minha infância, passamos por dificuldades financeiras, fome. Eu ia para a escola e não tinha um caderno para usar, meu pai remendava meus chinelos para eu poder sair. Essa é a realidade de muita gente no Nordeste, porque é uma região seca, não tem onde caçar, onde plantar. É uma dizimação completa, um abandono descomunal.
Tive dificuldade no meu primeiro ano na escola por não falar português direito. Também foi difícil porque eu era muito tímida, não conseguia fazer amizade, não sabia o que dizer. As outras crianças zombavam de mim por ser indígena e isso me chateava na época. Não terminei os estudos porque entrei em depressão aos 14 anos, depois que um irmão por parte de mãe se suicidou. Ele era muito querido pela minha mãe, meu melhor irmão, mas tinha problema com o alcoolismo e, quando bebia, mudava completamente. Quando passava o efeito da bebida, ele chorava, pedia desculpa. No dia em que se matou, ele havia bebido e bateu na minha mãe – eu a defendi e briguei com ele. À noite, ele se enforcou. Eu fiquei perturbada, sonhava com ele, me sentia culpada. Fiquei tão mal que cheguei a pensar em me suicidar também. 
Aos poucos, fui me recuperando porque pensei que não podia me destruir, tinha que cuidar da minha família. Sempre me senti responsável pelos meus irmãos indígenas, mesmo sendo a mais nova. Eu que resolvo tudo para eles, porque estudei, falo português melhor. O que me ajudou na época foi procurar uma igreja batista. Foi uma fase boa da minha vida, realmente tive um encontro com Deus. Eu não tenho mais religião, mas respeito todas. Minha mãe hoje é evangélica, mas continua a pajé da tribo. Eu tenho a minha fé. O nome do meu deus é Tupã. Meu deus é um cacique e usa um cocar imenso na cabeça.
Decidi vir para o Rio de Janeiro aos 19 anos, quando conversei pelo Orkut com primos que já moravam aqui, na Aldeia Maracanã, prédio ao lado do estádio onde ficava o Museu do Índio, que havia sido ocupado por indígenas. Entrei no ônibus e desatei a chorar – era uma decisão muito louca, eu era muito matuta, nunca tinha saído daquela região. Ao chegar, três dias de viagem depois, foi um deslumbramento total, fiquei encantada com tudo. Comecei a me envolver com o ativismo indígena, ia para escolas falar sobre nossa cultura, participava de manifestações contra a demolição da Aldeia Maracanã. Foi por causa da divulgação de fotos e vídeos dos protestos na internet que me viram e me chamaram para fazer teste para Dois Irmãos. Eu nunca tinha feito nada como atriz.
Depois de Dois Irmãos, gravei um longa do Felipe Bragança, Não Devore Meu Coração, que passou pelo Festival de Sundance e vai ser exibido no Festival de Berlim, e um média-metragem, Sociedade da Natureza, do português Pedro Neves Marques. Os dois devem estrear neste ano. Também estarei em uma peça de teatro, Jamais ou Calabar, do Jorge Farjalla, em cartaz entre junho e agosto. Com o dinheiro dos trabalhos, pude ajudar a minha família. Eu vivo pelo meu povo, quero mostrar que os índios também podem fazer tudo. 
Visito a reserva indígena todo ano e as coisas estão um pouco mudadas: já tem energia elétrica, escola, postos de saúde. Sou cacique de uma aldeia que fundei há quatro anos. Vejo grande diferença entre ser mulher na reserva e na cidade. Na aldeia, fazemos as mesmas coisas que os homens e há várias caciques. Na cidade, se tem uma mulher com um short curto na rua, ela já é considerada vagabunda. Os homens acham que podem falar e fazer o que quiserem. Mulheres são abusadas diariamente, às vezes pelo próprio namorado. Ela pode não querer transar, mas se sentir obrigada a isso. Eu passei por isso com um namorado, sofri chantagem emocional. Terminamos o relacionamento depois. 
Além de atuar, escrevo poesias, em português e tupi-guarani, e quero lançar um livro. Devo começar a faculdade de cinema neste ano e quero trabalhar nas aldeias, transformar os índios em atores. Faltam oportunidades. Tenho vários projetos, sonhos que ninguém me tira. 
Depoimento colhido por Meire Kusumoto
Foto por Daniel Ramalho

Publicado na VEJA

2 comentários:

  1. Até que os índios tenham seus próprios historiadores, ás histórias de "descobrimento", continuaram glorificando o conquistador.

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