"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A literatura, como toda arte é uma confissão de que a vida não basta...

Para ouvir a música clicar no canto esquerdo da faixa...



Bem na esquina da rua Garret com o Largo do Chiado, Fernando Pessoa em bronze olha fixamente para a multidão de babacas que sentam a seu lado e que colocam as mãos sobre a sua esquerda antes que um fotógrafo qualquer "aperte o gatilho". Faz frio, há música, cheiro de cerveja, de maconha, de café e de urina no ar. Espontaneamente as massas promovem todos os dias um show por aqui para passar o tempo e para arranjar motivos para seguir existindo o que lembra a frase do camarada Pessoa: "a existência da literatura e das outras artes é uma confissão de que a vida não basta..."
Gente que nem sabe de quem é a estátua senta-se ali e faz uma pose de padre, de dona de casa ou de leitor. Um grupo de japoneses quis saber de que se tratava mas intimidou-se. Alguém jogou uma moeda aos músicos encostados na mureta do metrô e eles imediatamente começaram a tocar aquela música do filme Casablanca. O garçom quer empurrar-me mais um café como se eu fosse um saco sem fundo... Chega outro grupo de músicos. Os que já estavam instalados os olham atravessado. Lembro das rinhas de cachorros no México. Mas a música, o  objetivo de toda música, como dizia babacamente Bach, não deve ser a glória de Deus?. O grupo de japoneses tenta aproximar-se novamente de Fernando Pessoa. Alguma coisa que não sei identificar os impede. Talvez saibam que está todo mundo blefando. Como existe uma ética primitiva, é provável que lá no núcleo de nossos ossos exista também uma timidez primitiva. Apareceu na minha mesa um senhor com transtorno bipolar querendo vender-me um de seus desenhos. (O diagnóstico não é meu, foi revelação dele). Cem euros? Isto é uma pequena fortuna! Lhe respondo numa exagerada exclamação. 
Ele justifica dizendo que tem que comprar papel e tintas. Eu, convenço-o de que estou arruinado. 
Por fim, sem nenhum tipo de trapaça, fiquei com o desenho por dez reais (reais, não euros) e ele seguiu sua rota, de mesa em mesa, convicto de que era Michelangelo reencarnado. A corja se movimenta  e se acotovela. Fernando Pessoa tinha razão: a vida não basta!

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