"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 15 de janeiro de 2017

A fé e o monólogo "com as pedras"... (ou: a surdez crônica dos deuses!)

Neste terceiro domingo de janeiro encontrei o mendigo K.
encostado na pilastra que sustenta os sinos da catedral. Observava atentamente e com sarcasmo aos beatos que desciam cabisbaixos pela rampa que conduz ao interior do templo. Os homens com seus casacos cheirando a ácaros e as mulheres com seus véus transparentes disfarçando cabeleiras de todas as cores. De mãos dadas ou lado a lado, se introduziam naquele labirinto com uma coreografia e uma expressão de culpa como quem está indo para um patíbulo.
Cumprimentou-me ironicamente com a palavra namastê acompanhada do gesto hipócrita dos indianos e, no meio de gargalhadas nada contidas contou-me esta anedota:
Dizem que recentemente uma jornalista  européia foi à Jerusalém entrevistar um judeu chamado Isaac, de 86 anos que há mais de 60 vai diariamente ao muro das lamentações, na parte oeste da antiga cidade, fazer suas orações:
- REPÓRTER - Sr Isaac, o senhor vem com seu chapéu e com os bolsos de seu paletó escuro cheios de gergelim fazer suas orações aqui neste lugar sagrado há mais de 60 anos. O que é que o senhor vem pedindo durante todos esses anos em suas orações?

-SR ISAAC - Minha filha, eu sempre peço que a humanidade tenha paz, muita paz! Que a "guerra santa" e que a pobreza tenham fim; que a questão da Palestina se resolva e que o meu povo e os palestinos vivam fraternalmente; que a loucura do mundo diminua; que o terrorismo não se espalhe... enfim, que Deus todo poderoso tenha compaixão dos seres humanos, das vacas, dos porcos, dos faisões, dos peixes e de tudo o que têm vida sobre a terra...

-REPÓRTER - E depois de todos esses anos, a que conclusão o senhor chegou?

- SR ISAAC - De que os deuses são surdos ou de que passei todo esse tempo falando com as pedras...


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