"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A mega da virada...

Nas últimas horas solares desta quinta-feira quando as 'moças de família' se recolhem para o 'aconchego do lar' dando lugar às  trabalhadoras da noite que vão ocupando seus postos com a velha gilete entre as tetas e o rolo de papel higiênico na bolsa, encontrei o mendigo K., numa imensa fila que terminava no balcão de uma casa lotérica. Havia ali umas cinquenta pessoas ou mais, de todas as cores, signos, sexos e idades: petistas, temeristas, malufistas, sarneistas, colloristas, militaristas, getulistas, anarquistas, comunistas, fascistas, direitistas, esquerdistas e até quem relembrava com nostalgia de Carlota Joaquina de Bourbon e de Dom Pedro I. Filântropos, misântropos, egoístas, machistas, feministas, misógenos e bobalhões, uns chegados numa ostra, outros ávidos por um pé de mesa, esotéricos, panteístas, ateus, hipocondríacos, maníacos, macumbeiros, obesos e anoréxicos e filhos de Maria, uns visivelmente desempregados, outros descaradamente em vias de abandonar não só o trabalho, mas também a vida...  Todos com os olhinhos meio eclipsados pela crise econômica ao mesmo tempo em que deixavam transparecer a luxuriosa esperança de virem a ser milionários na primeira madrugada de 2017. 
Perguntei ao mendigo K., que levava sete reais amassados na mão direita o que faria se acertasse os seis números e ele me respondeu com a frieza e a artificialidade de um gerentezinho de banco: alugaria um helicóptero e lançaria sobre a cidade, na hora do crepúsculo e da Ave Maria, cinquenta milhões de reais em notas de cem Euros ao mesmo tempo que filmaria o populacho se chutando, humilhando e se esfaqueando para pegar as notas... Não escondi minha admiração e minha surpresa com seu projeto e quando me retirei (com temor que alguém me visse ali) ouvi que, com expressão subversiva, ele recitava à velhinha octogenária que estava a sua frente e que levava um crucifixo amarrado ao redor das carótidas este texto de Albino Forjaz de Sampaio:  "Por dinheiro vovó, tudo se compra. As bênçãos das santas e o crânio dos heróis, a camisa de dormir da tua noiva e o rosário do teu confessor. Ciganas e écuyères, saltimbancos e mendigos, fidalgos e aguardente, trapeiros e sacerdotes, coveiros e apóstolos, santos e famintos, sultanas e cadelas, bobos e cortesãs, escravos e libertos, tudo isto é da sua corte. O próprio Deus, o próprio céu rende-se, quando se lhe mostra um punhado de ouro."pabx ip

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