"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 12 de novembro de 2016

O jardineiro e a Matilde...

Amanheceu chuviscando em Brasília. 
Nesses dias úmidos é comum encontrar ali em frente ao posto de gasolina, um senhor, com um uniforme que o identifica como um dos funcionários do governo que são responsáveis pelo plantio de árvores na quadra. Meu cachorro também já o conhece. Estava lá, ele e uma senhora, replantando ou plantando já pela terceira vez mudas de ipê que não vingavam. Quando viram que me aproximava, foram me comunicando: essas vão pegar! E prosseguiram na cavação da terra e na falação: "As mudas anteriores não vingaram, sabe por quê? Dizem que uma mulher alta, que se veste de maneira estranha e que só anda por aí de guarda-chuva passa por aqui com frequência e vem jogar água com soda nas raízes, soda caustica... "
Pensei logo: eis aí mais um jardineiro poeta, mais um jardineiro literato ou, o mais provável, mais um funcionário público em vias de enlouquecimento, e ele continuou (exalando algo parecido à cachaça), falando com a maior sobriedade e com a cumplicidade da senhora que o acompanhava: 
-"Como existe gente maldosa neste mundo!" 
A senhora que o acompanhava só ria e repetia: Nossa Senhora do Bom Parto! Nossa Senhora do Bom Parto! E ele, entusiasmado e falando  cada vez mais  alto e com a chiadeira típica dos cariocas, arrematou: 
- Mas deixa prá lá!, deve ser uma Matilde solta por aí. Logo logo vão arranjar um recolhimento para ela...
Me despedi intrigado com a tal "Matilde", com a "Nossa senhora do Bom Parto" e com o tal "recolhimento".
Em casa, meia hora depois, folheando o dicionário Mulheres do Brasil, encontrei por acaso a explicação:
Diz lá na página 429:
MATILDE (séc. XVIII) - Interna do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto, fundado na cidade do Rio de Janeiro, em 1754, pela escrava Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, para abrigar prostitutas em busca de recuperação espiritual. Com o tempo, os propósitos da entidade foram alterados e o Recolhimento passou a abrigar aquelas que eram abandonadas pelos maridos ou pelos pais, ocupando um lugar de terror na vida das mulheres da cidade, sempre ameaçadas, a qualquer desavença, de para lá serem enviadas. Foi o caso de Matilde, internada por seu marido, Gil Soares, sob acusação de adultério. Na madrugada do dia 23 de agosto de 1789, o predio do recolhimento ardeu em um incêndio que levou à morte uma centena de mulheres, chocando os moradores da cidade. No dia seguinte, o vice-rei Luís de Vasconcelos determinou que fossem apuradas as responsabilidades pela tragédia. Matilde e outra interna, Ana Campista, foram acusadas de atear fogo aos móveis para, em meio ao tumulto, conseguirem fugir, no que foram bem sucedidas. Ainda hoje, no local onde se localizava o famigerado Recolhimento, próximo à atual rua da Assembléia, existe a igreja de Nossa Senhora do Bom Parto.

Um comentário:

  1. Interessante etimologia
    Em "A vida íntima das palavras", de Deonísio Silva, a origem da expressão "a beça"
    Quando o Brasil anexou o Acre, O Amazonas queria o anexar. O advogado do Amazonas era Rui Barbosa. O do Acre Gumercindo Beça, que juntou tão grande quantidade de argumento, que ficou proverbial. Então quando algo era abundante, itenso. Quando algo era muito bom, era "bom à Beça", "bom à moda do Beça", que foi se simplificando... Bom a beça, tem goiaba a beça...
    Essa sobre o sutiã
    http://www.40forever.com.br/uma-palavrinha-sobre-sutia-por-deonisio-da-silva/

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