"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O terremoto e Marinetti...

Quatro e catorze da madrugada. 
As televisões não param de mostrar escombros, não daqui de Padova, mas das regiões verdadeiramente afetadas pelo terremoto! Tenho curiosidade em saber se meu hotel em Roma, ficou em pé. Que seria da mídia sem o balbuciar frequente da natureza? Um cheiro forte de pão ao chocolate. Decido ir para a rua...Um idiota passa numa lambreta em alta velocidade. O porteiro me previne que a rua, a esta hora, oferece mais perigos do que um simples terremoto. Além do mais, o frio que sobe do rio congela rapidamente os joelhos...Vejo que um grupo de paranóicos está estacionado no principio da ponte que fica a uns 100 metros do hotel... Olham para o alto e para o nada, como se o céu e o nada fossem um imenso sismógrafo... Gostariam de saber a que hora será o novo tremor... Sou tentado a olhá-los com desprezo, mas penso: mais vale um paranóico vivo do que um corajoso soterrado!... Padova é uma das cidades mais fascinantes da Itália. Seu mercado é uma maravilha, sem falar das bodegas, da arquitetura, da universidade, das ruas estreitas, das meninas que vão pedalando... pedalando... pedalando...
Quando senti a cama se movendo temi de imediato pela beleza desta cidade... Mas logo em seguida, meio envergonhado, pensei num fragmento do Manifesto Surrealista de Marinetti (escrevi surrealista, mas é futurista):

"Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem.
  Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? 
O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade omnipresente.
Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo, e combater o moralismo, e toda vileza oportunista e utilitária. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas eléctricas: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o voo deslizante dos aviões, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta.

É da Itália que lançamos ao mundo este manifesto de violência arrebatadora e incendiária com o qual fundamos o nosso Futurismo, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários.
Há muito tempo que a Itália vem sendo um mercado de belchiores. Queremos libertá-la dos incontáveis museus que a cobrem de cemitérios inumeráveis.
Museus: cemitérios!... Idênticos, realmente, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos onde se repousa sempre ao lado de seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos dos matadouros dos pintores e escultores que se trucidam ferozmente a golpes de cores e linhas ao longo de suas paredes!
Que os visitemos em peregrinação uma vez por ano, como se visita o cemitério dos mortos, tudo bem. Que uma vez por ano se desponte uma coroa de flores diante da Gioconda, vá lá. Mas não admitimos passear diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa mórbida inquietude. Por que devemos nos envenenar? Por que devemos apodrecer?
E que se pode ver num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que se empenhou em infringir as insuperáveis barreiras erguidas contra o desejo de exprimir inteiramente o seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivalente a verter a nossa sensibilidade numa urna funerária, em vez de projectá-la para longe, em violentos arremessos de criação e de acção".



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