"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 15 de outubro de 2016

Do santuário de Assis aos puteiros petrificados de Pompéia...

"Se alguem, na rua ou no metrô Bologna, te estender a mão (fingindo intimidade) ou te gritar: 'Tchao Bello!', preste atenção: pode ser tanto um simples e desvairado pederasta como um perigoso e inoportuno vendedor de cocaína..."
(dedução do primeiro dia)

Nesta sexta-feira encontrei o mendigo K. num avião da Alitalia, rumo a Roma. Estava na cadeira 41 b e eu na 41 j. De tantos velhos de mãos dadas com suas velhas e de tantos religiosos, aquele objeto planador lembrava mais do que a qualquer outra coisa, um congresso flutuante de geriatria ou uma igreja voadora. Fiz um cálculo superficial e concluí que somando a idade de todos aqueles pobres lunáticos se teria mais ou menos uns três mil anos... O mendigo escutava atenta mas falsamente a uma senhora que tinha o fanatismo e a estupidez expressa nos olhos e que lhe relatava que ela e mais umas 80 pessoas estavam num dos tais Tours Santos, que iam primeiramente para o Vaticano, depois para Assis, depois à Jeruzalém, e na volta passariam por Lurdes e por Fatima... E que, para o cúmulo da alienação, da estupidez e do desvario, ao regressarem ao Brasil, ainda passariam por Aparecida para fazer uma homenagem à santa e para agradecer a viagem... 
Quando uma voz vinda dos alto-falantes determinou que todos se amarrassem o mais forte e o mais rápido possivel, pois iriamos atravessar por uma tempestade, ela, depois de fazer o sinal da cruz, de beijar a medalha que levava entre as tetas e de clamar por Nossa Senhora arriscou perguntar-lhe:
E o senhor, vai visitar o quê?
Ele, já passando o cinto por sobre os ossos, lhe respondeu com ânsia e com o cinismo de um monge zen: os puteiros e os lupanares petrificados de Pompéia...

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