"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Algumas considerações populares...

1. Os italianos parecem ainda estar convivendo com um ciúmes indisfarçável que beira a algo paranóide. Suas mulheres só se atrevem a olhar para os lados depois de meia garrafa de graspa... Vou tentar descobrir no Google quê povo, no passado, teria pulado as cercas de seus harens ou as janelas de suas alcovas?

2. Por aqui as pessoas, homens e mulheres, têm um humor, digamos, flutuante, que vai de uma doçura nazarena a uma violência súbita e incontrolável. O garçom - por exemplo -, é capaz de sentar-se no teu colo, se você pedir, mas também é capaz de quebrar-te a cara se você demorar muito para decidir se quer spaghetti à bolonhesa ou a lá carbonara......

3. E, aliás, por falar em garçom, este é um povo que não vive sem a carne de porco. Num dia desses me serviram - acreditem - até bochechas de porco estufadas com vinho e mais um meio quilo de purê de batatas! O sujeito que passar aqui uns quinze dias meio faminto e meio distraído, é capaz de acabar comendo sozinho, no final das contas - sabendo ou não - um leitão de uns 40 quilos... Fico imaginando o desespero dos judeus e de outros povos que acham o porco um animal muito porco e que durante muito tempo tiveram que sobreviver por aqui enfiados em seus ghetos e sendo fiéis ao Talmud...

4. As livrarias e as bibiotecas não são lá grandes coisas! O dinheiro, as comidas e as malatias são os assuntos prediletos e prioritários... Na Biblioteca Nazionale di Roma - por exemplo - encontrei apenas três obras de Paganini. Na de Artes da Universitá Sapienza, havia mais de uma dezena, mas quase precisaram de uma autorização papal para dar-me o acesso...A de Belluno só abre no período da tarde... e Paganini há muito tempo saiu da pauta dos editores, não o publicam mais... Foi o preço que aquele louco violinista pagou por ter mandado os bispos e a igreja al catzo!

5.Quem já viveu numa comunidade ou próximo a uma família de italianos sabe, e muito bem, como é grande o ressentimento deles para com o "criador" e o quanto a blasfêmia é para eles uma espécie de mantra terapêutico que é usado com eficiência nos momentos de máxima crise. E não são poucas essas blasfêmias! Daria para encher duas ou três páginas. Curiosamente, apesar de conhecer e de usar praticamente todas, há uma que me havia esquecido e que ouvi ontem, da boca de uma simpática senhora no  mercado de ervas. DIO CANE!!! esbravejou ela ao deixar cair um vaso de gerânios...

6. E os navios "negreiros" não param de atravessar o Mediterrâneo! Cada refugiado que chega chamuscado de pólvora está recebendo 50 euros por dia e os italianos estão secretamente furiosos. Digo secretamente, porque devem engolir a seco esse retorno, uma vez que justo ontem foram eles que através de precários veleiros pisotearam o resto do mundo... De minha parte, vou ver se há uma possibilidade de inscrever-me para essa simpática e humanitária ajuda de custo...

7. Por aqui, o que mais me remete às minhas origens e a, digamos, à minha italianidade, além dos gestos histriônicos de todo mundo, é o canto dos galos de madrugada e o badalar dos sinos (a Ave Maria) no final da tarde... Primeiro um alarme maníaco, depois uma senha depressiva...
Um anuncia a aurora, o outro o ocaso... E la nave va...

8. Aqui em baixo dos arcos da Piazza dei martiri existe uma daquelas clássicas casas de chá européias onde, principalmente quando chove, como hoje, lá pelas 4 horas vão chegando aquelas donas de casa que passaram a semana inteira enclausuradas lavando roupa, limpando janelas e eventualmente tocando uma para seus maridos... Chegam normalmente acompanhadas por amigas, filhos, ou coisa parecida,  e até mesmo sózinhas, com olheiras de quem não dorme desde a invasão dos soldados de Hitler... Sentam-se de cara para a praça e logo são servidas: uma xícara de café ou um bulê de chá e meia dúzia de pedaços variados de tortas...  É agradável, muito agradável estar aqui.
Este é um lugar onde, quando se pede um "chá descafeínado" as garçonetes, com seus casacos vermelhos e seus narizinhos empinados, vão logo arrumando os cabelos e se apressando em corrigir: "um chá deteinato?" E o fazem de uma tal maneira que parece que se o "descafeinado" não for imediatamente substituído por "deteinato" o Vaticano e até o mundo podem acabar...

9. Conheci uma empregada doméstica num desses hoteis duas estrelas que são semi-puteiros, que me jurou ter uma prima no Brasil que teve 5 filhos e que quatro deles se tornaram padres... Foi assim que envenenaram os trópicos - lhe retruquei... ao que ela concordou de imediato... Abraçou uma pilha de lençóis que estavam jogados na entrada do elevador e saiu resmungando algo que ainda nem tive tempo de traduzir: una mente ben coltivata è, per cosi dire, composta di tutte le menti dei secoli precedenti...

10. Enfim, vamos a pergunta principal: como é que as pessoas, tanto as inteligentes como as burras e as remediadas demoram tanto para compreender que o mundo e que a vida é um teatro, um bordel e um circo, fascinantes, mas de quinta qualidade???



2 comentários:

  1. Vero????Kkkkkkkkkk.....bom,vou tomar meu chá deteinato.....

    ResponderExcluir
  2. Vero????Kkkkkkkkkk.....bom,vou tomar meu chá deteinato.....

    ResponderExcluir