"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 24 de setembro de 2016

A primavera e a senhora Melusina...


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Praticamente o primeiro dia de primavera, hoje encontrei o mendigo K no Viveiro Pau Brasil que fica ao lado da estrada que leva a Sobradinho. Estava num espaço que vende orquídeas, trepadeiras, mudas de gerânios e ao mesmo tempo em que falava com a vendedora de avental azul discutia com uma senhora que, agressiva, gesticulava a seu lado, a mesma que estava com ele quando o vi mendigando num parque de Montevideo.
O viveiro estava movimentado. Flores, pólen, perfumes e pequenas abelhas. Dos fundos da floricultura de uma japonesa vinham os sons das Quatro Estações de Vivaldi enquanto os donos da loja trocavam informações sobre ácaros e sobre as mudanças solares do equinócio aqui no hemisfério sul. Muita gente, principalmente donas de casa e aposentados têm como rotina ir para ali aos sábados comprar mudas, sementes, adubos, esterco de galinha e outros objetos de jardinagem. Ela me reconheceu e me acenou de longe com sua mãozinha de bruxa e as unhas vermelhas numa tentativa de interromper a discussão e manter a pose e ele, meio transtornado de cólera, colocou a mão no seu ombro e, com voz de gerente de banco me apresentou: está é a mãe de meus filhos! Chama-se Melusina. Visivelmente na fase maníaca, ela fez meia dúzia de caretas, engoliu um bocado de saliva com dificuldade, agachou-se para disfarçar e examinar um cactos que havia florescido na noite anterior e não me olhou mais. Circulei por lá bem menos do que de costume e caí fora, meio intrigado com o nome daquela mulher ou pelo menos com o nome que aquele mendigo lhe havia atribuído naquele momento de desespero que não é estranho a nenhum casal e a nenhum porteiro de hospício. Ao chegar em casa fui pesquisar num pequeno livro escrito por Laura de Mello e Souza titulado: A feitiçaria na Europa Moderna e encontrei lá, na página 61, num breve Vocabulário crítico, esta explicação: "Melusina: fada protetora da família de Lusignan, na qual se originaram os reis medievais de Jerusalém. Teria sido casada com Raimundo de Lusignan, a quem fez jurar que nunca a veria nua. Mas o marido não resistiu à tentação de surpreendê-la no banho e descobriu que, da cintura para baixo, ela tinha forma de serpente. Furiosa, Melusina desapareceu, reaparecendo esporadicamente para anunciar desgraças à família de Lusignan." Entendi.

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