"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 30 de julho de 2016

Nós ainda faremos cantar até a tempestade...

Enquanto aproveitava este sábado de sol, de vento e de secura para fotografar estas árvores que parecem estar em estado terminal, mas que não estão, encontrei o mendigo K. ali pelos lados da catedral. Olhava calmamente, como um cão saciado, para os 4 sinos de bronze do campanário daquela igreja. Ao reconhecer-me, fez logo questão de confidenciar-me que foi o governo espanhol, possivelmente a Opus Dei, que os presenteou ao Niemayer. Parecia mais introspectivo do que em outros dias e, talvez, com medo que eu estivesse indo para algum ritual de conversão ou para alguma benção, veio logo me prevenindo: Bazzo"Duvide. Nenhuma fé até hoje foi tolerante. A dúvida é a tolerância. A fé levantou fogueiras, a dúvida não as levantará jamais. Toda fé é uma tirania e todo crente é um escravo. Não acredite... "
Fez um longo silêncio, simulou procurar alguma coisa numa dessas  bolsas de mercado que estava no piso de concreto e prosseguiu: "A história da humanidade se assemelha ao diário de uma velha cortesã ou, para ser mais objetivo, de uma velha puta: não sabe falar com admiração senão de seus cafetões, opressores e dominadores, eles fazem todo seu deleite e constituem toda sua vida..."
Olhando fixamente para minha câmera, levantou-se de onde estava sentado num gesto brusco e depois de gritar-me: Nós ainda faremos cantar até a tempestade! tomou uma direção inesperada.




















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