"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

E depois, ainda querem dizer que isto não é um circo 2...


A cidade assiste a mais uma das tradicionais campanhas moralistas, demagógicas e inúteis. 
Agora, acreditem, alguns burocratas decidiram que a população não deve mais dar esmolas aos mendigos, que deve dar-lhes, sabem o quê? Cidadania. 
Cidadania! Mas que porra é essa? Perguntava-me o mendigo K. Trata-se de algum chá? De algum tipo de peçonha? Algum tipo de passaporte para o inferno? E depois, - me dizia ele indignado -: o mais incompreensível, é que está cidade é composta praticamente só de bisnetos, netos, tataranetos e até filhos de mendigos! Todos que migraram para cá e que agora andam fazendo pose por aí, eram uns fodidos, famélicos e até deserdados que viviam na penúria em seus estados... Que foram aliciados pelas circunstâncias e vieram, como se dizia na época da imigração italiana para o Brasil: "fazer a América!" Este aborto arquitetônico (abre os braços para a cidade) já teve a conotação até de terra prometida, terra da promissão, a cidade da cocanha. A mesma farsa que levou milhares de italianos iludidos a atravessaram perigosamente os mares... Sem ser muito prolixo, preste atenção como as pessoas mais cruéis, mais intolerantes e mais sádicas são sempre as que escaparam de uma chacina!!!... e como os que odeiam e têm nojo dos mendigos já tiveram ou têm um ancestral com o braço estendido nas ruas... O que prova, mais uma vez que: "non é cosa nova che non possa esser vecia, e non é cosa vecia che non sii stata nova...
Encontrei-o em frente ao armarinho que fica ali na Asa Norte. Estava mais sorridente e mais cínico do que todas as outras vezes que nos encontramos. Com uma barba que parecia a lã de uma ovelha abordava teatralmente todas as velhinhas apavoradas que passavam por ele: os passinhos curtos de quem tem pressão baixa e uma saliência abdominal de quem tem prisão de ventre, agarradas avarentamente com as duas mãos a uma bolsa de plástico indo comprar botões, linhas, agulhas, rendas, fios para malha e uma infinidade de outras porcarias que são vendidas lá e que, desde Tales de Mileto servem para diminuir a cólera, a repressão sexual e o tédio das donas de casa. Falou-me em voz alta para que o vendedor da loja ouvisse: CIDADANIA SIM! ESMOLA NÃO! E explodiu numa gargalhada para em seguida completar:  E as contas na Suiça? E as contas no Panamá? E os offshore? Depois lembrou-me de uma "lenda" da época do governo de Carlos Lacerda no Rio de Janeiro, segundo a qual, mendigos, vadios, cachorros e bandidos teriam sido caçados e enviados para a penitenciária de Ilha Grande ou jogados no caudaloso rio Guandu...
Atravessei a pista no meio da fumaceira dos ônibus e em homenagem e solidariedade a todos os mendigos, recitei de memória este texto de Cioran: "Entre tanta mentira e tanta fraude, é reconfortante contemplar os mendigos. Eles, pelo menos, não mentem nem se enganam. Sua doutrina, se é que têm alguma, a encarnam eles mesmos. Não gostam de trabalhar e o demonstram na prática. Como não desejam possuir nada cultivam seu desprendimento, condição de sua liberdade. A preguiça faz deles autênticos liberados, perdidos em um mundo de palhaços e de otários. Sobre a renúncia, sabem muito mais que muitos de nossos padres, pastores e mestres, sem contudo, terem lido nenhuma obra esotérica..."



Um comentário:

  1. http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2016/07/13/interna_cidadesdf,540025/sudoeste-administracao-e-conselho-comunitario-fazem-campanha-contra-e.shtml

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