"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 9 de abril de 2016

O mendigo K, o rapé e o ateísmo...

Neste tedioso e calorento sábado de sol, véspera de mais uma chanchada "republicana" para "defender" e "preservar" a moneycracy, encontrei o mendigo K. sentado no meio fio em frente ao Itamaraty. Brincava com uma caixa de fósforos e de vez em quando dava uma baforada numa latinha azul de rapé,  falando sozinho. Inicialmente pensei que estivesse com um fone de ouvido, (já que hoje, essa porcaria é moda até entre os mendigos) falando com alguém, mas logo percebi que não, que se tratava verdadeiramente de uma viagem alucinatória ou, como dizia, lá pelos anos 80, a confraria da antipsiquiatria: uma viagem do Ego para o Self... (ver Ronald Laing e David Cooper).
Sentei-me a seu lado por uns minutos ao mesmo tempo em que de um carro estacionado a uns trinta metros desceram três freiras, da legião de Madre Tereza de Calcutá e um capuchinho, todos de sandálias de couro, com pequenas câmeras, dando risadinhas virginais e fazendo fotos da flôr de uma Vitória Régia que há lá, num pequeno lago idealizado - me parece - por Burle Marx.. Quando o mendigo percebeu que as freiras eram da ordem de Madre Teresa de Calcutá me cochichou: sempre que vou à Roma vou jantar no Caritas, administrado por elas... 
Uma daquelas mulheres ao aproximar-se das águas teve breves espasmos de admiração e felicidade ao ver uma abelha cor de mel pedalando sobre uma pétala daquela planta quase selvagem. Dava gritinhos que lembravam uma sexualidade infanto juvenil e sempre com as duas mãos agarradas forte e voluptuosamente ao imenso crucifixo que levava sobre as tetas... O mendigo, que naquele instante acabava de dar mais uma baforada olhou fixamente para eles com a atenção e a ansiedade que um cão olha para a caça e murmurou esta frase, sem citar a fonte: "O homem é a mais forte razão de ateísmo que existe sobre a face da terra, o homem, ele próprio, é um argumento contra Deus..."

Um comentário:

  1. Bazzo, lendo seu texto lembrei que Freud, em El malestar de la cultura, na página 3034 (Obras Completas Vol. III) diz algo mais ou menos assim: "El hombre ha llegado a ser, por así decirlo, un dios con prótesis"

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