"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 10 de abril de 2016

A verdadeira história do banditismo...

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"Curar-se de certas excentricidades, é fazer como os outros: cretinizar-se. A primeira condição para ser coletivo é ser abjeto..."
Vargas Vila

Sei que num belo domingo de manhã todo "cidadão" que se preze deveria estar indo para a missa, ou com o barrigão esticado na varanda lendo o Breviarium romanum, ou uma das encíclicas de Paulo VI (Populorum progressio) ou, pelo menos, A fé nas coisas invisíveis, do malandro Santo Agostinho. 
No meu caso,  não sei exatamente porque (mas desconfio), levantei-me até mais cedo para fazer uma releitura deste livro (foto acima) sobre banditismo.
Quem me conhece sabe que nasci praticamente numa selva montanhosa recheada de pedras, pinheirais e de geleiras. Um lugar onde a civilização ainda não havia sequer aparecido e onde as jaguatiricas, de madrugada, desciam das montanhas para beber água no pote de meus gatos... Lugar onde o Código penal se levava num coldre sob o sovaco ou na cintura, e onde havia tiroteios quase que diariamente. Principalmente aos domingos à tarde, as velhinhas mais fofoqueiras gostavam de ficar nas janelas do sotão das casas, janelas que normalmente estavam crivadas de balas e que davam para a rua principal, só para assistir ao tiroteio. Por coincidência, o bandidão mais conhecido era um jagunço que trabalhava para meu pai. Com seus dois metros de altura, um chapéu de pano com barbicacho e manchado de suor, depois de enfiar uma garrafa de cachaça no estômago desafiava o mundo inteiro enquanto ia caminhando de costas com as rédeas de uma mula na mão esquerda e na direita um trabuco meio enferrujado que cuspia fogo para todos os lados...  E o animal estava tão acostumado com esse bang-bang que nem piscava. Seguia quase zen os passos de seu dono, marchando sob o som dos gritos, das espoletas e do cheiro da cachaça e da pólvora, às vezes até tentando protegê-lo da chuva de balas que vinha do outro lado. Nunca soube e nunca me contaram o que realmente acontecia com os feridos ou com os mortos, pois para mim a vida, naquele tempo, era eterna e o tiroteio já era o máximo.

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