"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 27 de fevereiro de 2016

FAUSTO & Mefistófeles

Depois de uns vinte e tantos anos, voltei ao Cine Brasília para ver FAUSTO, filme produzido em 1926 por F. W. Murnau, com trilha sonora ao vivo sob responsabilidade do também alemão M. Munch, instalado com seu piano em baixo da tela. Aqui entre nós: em alguns momentos, a música mais atrapalhava do que ilustrava. Normalmente procuro esconder que não sou lá grande admirador do cinema. Entre todas as artes, me parece a mais empenhada em enganar e em engambelar o populacho que, aparentemente sedento por cultura, lá no escuro da platéia só quer saber mesmo é das pipocas... Aliás, apesar de Goethe, depois dos primeiros 15 minutos, não consegui entender mais nada. E a figura de Mefistófeles, também não me agradou, porque parecia uma cópia do cara que, toda quinta-feira, passa aqui por debaixo de meu prédio vendendo pamonhas...
Mas valeu. Principalmente os trinta e tantos minutos que passei na sala de espera. Se no passado eu compunha quase uma gangue de arruaceiros ali naquele mesmo espaço, agora me vi numa imensa fila preferencial entre velhinhos quase caquéticos. Além de duas moças em cadeiras de rodas, um sujeito de muletas, um outro que parecia meio lelé da cuca e várias megeras com os cabelos pintados de bronze, só se via cabeças brancas e muitos velhotes fingindo vigor e vitalidade. Fiz rapidamente os cálculos e concluí que somadas as idades só dos que estavam ali na minha frente, incluindo a minha, dava mais ou menos uns mil e quatrocentos anos. Quase abandonei o barco! Por ironia, ouvi dois adolescentes que não haviam conseguido ingresso fazerem o seguinte comentário: "nossa esperança é que se demorarem um pouco mais para autorizarem a entrada, essa fila aí  - apontando para nós - comece a cair inteira por hipoglicemia..." Não aconteceu, mas quase!
Para meu espanto, quando o filme acabou, a platéia inteira levantou-se em gritos, palmas e assobios, louvando aquele que, se para mim, havia sido uma chatice, - para eles - era um marco na história do expressionismo cinematográfico...
Saí caminhando no meio da noite mais convicto do que nunca do tamanho de minha ignorância, mas resmungando soberbamente esta frase de Vargas Villa: "Encontrei muitas poesias toleráveis, mas não encontrei nunca um poeta que o fosse..." (in: De los viñedos de la eternidad, vol. 25, p. 36)

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