"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Para ler as bulas. Mas, por que não o kamasutra?


"Os velhos se repetem e os jovens não têm nada a dizer... O tédio é recíproco"
J. Bainville

No restaurante onde gosto de almoçar nas segunda-feiras ou, de vez em quando, também em outros dias, sempre passa de mesa em mesa um homem dos Andes (deve ter uns cinquenta anos e não sei se é boliviano ou peruano) tentando vender aos que ali já estão palitando os dentes, algum tipo de cacareco: bilhetes de loteria, pilhas, canetas, CDs, cordas de guitarra, ou coisas parecidas. 
O sujeito, apesar de gorducho, ainda carrega em si os gestos, os traços, os cabelos e a coreografia dos velhos incas... Claro que está longe de parecer-se àqueles guerreiros dos tempos pré-colombianos, que abatiam com suas setas um condor em pleno voo e que faziam trilhas pelo meio das montanhas e das neves sem que a respiração e o coração se lhes alterasse e com apenas um punhado de folhas na algibeira. Está gorducho. Aliás, observem como os fodidos sociais ao nosso redor, estão alterando para cima o gráfico da obesidade... Enfim, esse senhor, vindo não sei como e nem quando das montanhas andinas, para este país, (um dos mais surrealistas do mundo), fazia ziguezague por entre as mesas na hora do almoço desta segunda-feira meio chuvosa. Como já me conhece e sabe que nunca demonstrei o mínimo interesse nem por seu destino e nem pelas porcarias que vende, veio hoje armado com uma "sutil" agressividade (uma espécie tribal de bullying) oferecer-me uma lupa com cabo de chifre e com esta  especial e "delicada" indicação: "para ler a bula dos remédios". Claro que entendi de imediato a sutileza de seu mau caráter, pois se fosse menos canalha e menos vingativo poderia ter substituido, por exemplo, bulas, pelo kamasutra ou por outra leitura qualquer...  Indignado, parei de mastigar as pernas de um frango que já estavam pela metade e, com uma agressividade equivalente à sua, o mandei enfiar aquela porcaria no rabo, além de ameaçá-lo de acionar os burocratas do Itamaraty para que o repatriassem o mais breve possível para o lugar mais tenebroso, frio e solitário das cordilheiras... Sabedor de que somos um povo cordial, não deu a mínima importância para minha ameaça e seguiu de mesa em mesa rebolando os quadris, com meia dúzia daqueles objetos infames em cada mão e convicto de que sua flecha, lançada com a mesma maestria de seus ancestrais, havia atingido o alvo em cheio....

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