"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 2 de janeiro de 2016

A alma encantadora das ruas...


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Como era de se esperar, encontrei o mendigo K na esquina de uma das Super-Quadras de onde se podia ver parte dos arcos do palácio do governo. Estava entre outros mendigos que desejavam cinicamente Feliz Ano Novo a todos os babacas que passavam. Quando me viu, percebi que sentiu vergonha e veio logo a meu encontro retirando do bolso um pequeno livro sobre o escritor João do Rio. Postou-se um meio metro à minha frente e como se precisasse justificar-se, leu a meia voz o texto abaixo, publicado nas orelhas da capa do pequeno livreto:
"...É impossível encontrar um homem absolutamente notável que não seja cabotino. E assim são os outros, a grande espécie humana. No dia em que desejar ver o cabotinismo inconsciente vá com uma máquina fotográfica para a rua. Verá como terá a rua inteira com vontade de ser fotografada. Individualmente cada uma das pessoas que aparece julga ser o tipo saliente e o foco das atenções. Se desejar particularizar essa observação geral, estude diversas classes sociais. Vá indo de cima para baixo, e encontrará cabotinos desde os políticos dominantes até os copeiros, cabotinos posando com descaro  a sua importância, e subindo e ganhando mais a vida exatamente por isso...
Foi o orgulho que fez o homem firmar-se nas patas traseiras e apoiar-se a um pedaço de árvore, ao descer da árvore. O orgulho transformou-se em vaidade como o pedaço de árvore em bengala. A vaidade, por falta de elementos fortes em que se firmar, fez-se exibicionismo: o exibicionismo por sua vez, é o cabotinismo geral. E a vida como uma batota lôbrega. Os grandes banqueiros representam a fome, a miséria, a desgraça de uma porção de criaturas roubadas em honra das transações comerciais. Os reis das indústrias afirmam a escravidão branca e cegam o mundo com o dinheiro amassado no suor de exércitos colossais de desgraçados. Os políticos, nenhum deles vence verdadeiramente senão sendo ingrato, hipócrita, velhaco e falso. O homem moderno não tem nem pessimismo e nem otimismo, porque não tem alma... O Brasil é um país de revoltados em que todos, entretanto, são chamados e tratados como chefes. Aqui os homens são doutores ou coronéis, mas todos, irrevogavelmente, são chefes, homens compenetrados de que têm influência, de que dispõem de um amplo circulo de admiradores e de escravos. Vivemos numa época de chefes. Todos são chefes. Por quê? Ninguém sabe. Mas são. Vivemos numa verdadeira parada, com a alma no bolso e o risinho de cavação nos lábios. Chefe é um qualificativo agradabilíssimo e que não compromete ninguém. Há os que abominam o qualificativo, mas pelas circunstâncias têm de ser alegoricamente chefe de alguma coisa, porque em certas reuniões a doença é tão definitiva, que acham pouco apresentar um sujeito que não seja chefe. Esta terra é o país em que as damas vinte vezes que se despeçam dão-se sempre reciprocamente um par de beijos nas bochechas. Este país é o lugar onde, ainda há bem pouco tempo os cidadãos se tratavam de amigo, correligionário e quase parente. Megalomania inconsciente? Costume? Em todo caso falta de equilíbrio social e de sobriedade..."
Leu a última frase, deu uma espetacular gargalhada, desejou-me cinicamente um feliz 2016 e desapareceu.

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